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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Sri Bhagavan em "Devikalottara"








    Não há necessidade de realização de puja [adoração de deidades], namaskar [homenagem, como prostrações], japa [recitação], dhyana [contemplação] e assim por diante. Ouça de Mim que a Mais Alta Verdade, aclamada nos Vedas [1], pode ser conhecida apenas através de Jnana [2]; portanto, não há absolutamente nenhuma necessidade de conhecer alguma coisa fora do próprio SER.


    Para aqueles cujas mentes estão constantemente a expandir-se, apegando-se a objetos externos, sempre surgirão fatores que causam o aumento da “escravidão”. Se a mente errante e exteriorizada for voltada para dentro para permanecer no seu “Estado Natural”, saiba que não passará por qualquer sofrimento no Mundo.


    Boas ações e boa conduta foram prescritas somente para guiar o buscador para o “Caminho de aquisição da Sabedoria”. Portanto, abandonando até mesmo o ’salamba yoga’ no qual um objeto [como um mantra ou uma forma de Deus] é utilizado para meditação na ‘mente’, permaneça firme no seu 'Estado Real’ [Sahaja Swarupa], onde o mundo exterior não é percecionado.


    A “mente”, que anseia pelas coisas do mundo, é mais irrequieta que um macaco. Se uma pessoa a controlar, impedindo-a de vagar pelas coisas externas, e a mantiver no ‘vazio da não-matéria’, a pessoa alcançará a Libertação, diretamente.


    Desperte essa 'mente’ esforçando-se, e sem permitir que ela vagueie, estabeleça-a no estado de 'SER’. Persevere neste esforço fixando a “mente” repetidas vezes no seu “estado natural”.


    Quando uma pessoa adota a prática [sadhana] por meio da qual a 'mente’, que é irrequieta como o 'vento’, se torna 'quieta’ perpetuamente, então, o propósito de nascer como um ser humano é cumprido. Essa é também a marca da “verdadeira sabedoria”.


    O estado no qual a mente é destituída de qualquer ‘suporte’ ao qual se apegar, sempre impecável e puro, e destituído de apegos ao Mundo, é a 'Natureza da Libertação’ obtida através da 'Sabedoria’. Mantenha isto firmemente em “mente”.


    Afastando completamente todos os apegos e fixando firmemente essa 'mente’ no 'CORAÇÃO’, persista na sua prática SEMPRE a fim de fortalecer a 'CONSCIÊNCIA’, que então brilha com grande esplendor e clareza.


    Saiba que quem meditar nesse 'Supremo Vazio’ e nele se estabelecer em virtude de prática constante, atingirá definitivamente o 'Grande Estado’, que está para além do nascimento e da morte.
  

– SRI BHAGAVAN, em “DEVIKALOTTARA”, V. 17-18-25-27-33-37-40-41-42


[1] Vedas: As quatro obras, compostas no idioma chamado Sânscrito védico. Os Vedas formam a base do extenso sistema de escrituras sagradas do hinduísmo, que representam a mais antiga literatura de qualquer língua indo-europeia.
    
[2] Jnana: O Ser (‘Eu sou’), que é claro e abundante conhecimento. O poder de conhecer 

      

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Como começar a praticar 'atma-vichara'?


http://www.sriramanamaharshi.org

Oh! Arunachala, tal como Azhagu e Sundara
deixa eu e Tu sermos completamente não-diferentes!


Azhagu - Palavra Tamil para 'Beleza' 
Sundara - Palavra Sanscrita para 'Beleza'

ARUNACHALA AKSHARAMANAMALAI
Grinalda de noivado de poemas para Arunachala - Poema 2






Fonte: 

Michael James
http://happinessofbeing.blogspot.pt/2009/04/how-to-start-practising-atma-vichara.html



Quinta-feira, 16 Abril 2009


Um amigo escreveu-me recentemente perguntando:


Como começar com atma vichara?? Alguns dizem "olhe para os seus pensamentos", outros dizem "veja de onde surgem", e  outros dizem "veja quem faz tudo isso" - qual é que se deve seguir??? Aquele vê não é também mente???
Apesar de a graça do guru estar sempre a fluir, por que é que nem sempre conseguimos praticar atma vichara???
Agradeço a gentileza de me esclarecer sobre a prática de atma vichara, porque muitas vezes duvido se estou a fazer vichara correctamente.


O que se segue é a resposta que escrevi:

Ātma-vichāra não é olhar para qualquer outro pensamento diferente do nosso pensamento primordial "eu", que pensa todos os outros pensamentos.

Todos os outros pensamentos são anātma (não-ser), anya (diferentes de nós mesmos) e jada (não-conscientes), e portanto não podemos conhecer o nosso verdadeiro ser olhando para eles. Estamos constantemente a olhar para os nossos pensamentos ao longo dos nossos estados de vigília e de sonho, mas nem por isso conhecemos o nosso verdadeiro ser. De facto, a nossa atenção aos pensamentos é o obstáculo que obscurece o nosso conhecimento de nós mesmos, porque só podemos observar os nossos pensamentos quando experimentamos a nós mesmos como uma mente pensante.

O único pensamento para o qual deveríamos olhar a fim de conhecer a nós mesmos como realmente somos é o nosso pensamento primordial "eu", porque ao contrário de todos os outros pensamentos, nenhum dos quais é consciente, este pensamento pensante "eu" é consciente, tanto de si mesmo como dos pensamentos que está a pensar. Ou seja, este pensamento pensante "eu" é o sujeito cognoscente, enquanto todos os outros pensamentos são apenas objectos conhecidos por ele.

Este pensamento pensante "eu" é consciente porque é chit-jada-granthi, o "nó" que liga a consciência ao não-consciente. Ou seja, é uma mistura inextrincável do nosso verdadeiro ser sempre-consciente, "eu sou", e este corpo não-consciente (que é apenas um pensamento ou imaginação) e outros pensamentos, que inevitavelmente surgem quando imaginamos a nós mesmos como sendo este corpo.

Nesta mistura inextrincável, "eu sou este corpo", o único elemento real é a nossa consciência fundamental "eu sou". O outro elemento, "este corpo", é meramente uma imaginação, e portanto ele é criado apenas pelo nosso acto de pensar. Quando não pensamos nada, como no sono profundo, este corpo não existe, assim como um corpo-sonhado não existe quando não estamos a sonhar.

Uma vez que o que existe em todos os nossos três estados de consciência, vigília, sonho e sono profundo, é apenas a nossa consciência fundamental de ser, "eu sou", apenas ela é real, e tudo o mais é apenas uma falsa invenção da nossa imaginação. Uma vez que experimentamos o nosso actual corpo acordado só no estado de vigília e não no sonho ou no sono profundo, e uma vez que experimentamos um corpo-sonhado só no sonho e não no estado de vigília ou no sono profundo, estes corpos são meras aparências transitórias, e portanto não podem ser reais, mas são apenas pensamentos que surgem junto com a nossa mente pensante.

De todas as coisas que pensamos ou imaginamos, a raiz é só o nosso pensamento-"eu", que é a nossa mente, a consciência efémera que sempre experimenta a si mesma como "eu sou este corpo, uma pessoa chamada tal-e-tal". Assim, esta falsa experiência "eu sou este corpo" é a nossa imaginação primordial, e porque obscurece a verdadeira natureza de nós mesmos, o nosso puro "eu sou", permite-nos imaginar todos os outros pensamentos.  


Uma vez que a única realidade no nosso pensamento pensante "eu", que é a imaginação primordial "eu sou este corpo", é a nossa consciência essencial de ser, "eu sou", se olharmos com atenção para ela veremos a realidade que subjaz à sua falsa aparência, assim como se olharmos atentamente para uma cobra imaginária veremos a corda, que é a realidade que subjaz à sua falsa aparência.

Uma vez que nenhum outro pensamento contém este elemento essencial de auto-consciência, "eu sou", ao olhar para qualquer outro pensamento não seremos capazes de a reconhecer, a realidade que lhe está subjacente, não importa por quanto tempo e com cuidado possamos olhar para ele. Olhar para outros pensamentos é como olhar para as imagens numa tela de cinema, enquanto olhar para o nosso pensamento pensante "eu" é como olhar para trás para a luz que projecta essas imagens.

Se estivéssemos a olhar directamente para a luz que sai do projector, veríamos não só o filme que se move rapidamente em frente à luz, mas veríamos também a luz brilhante imóvel  por trás desse filme em movimento. No início, o filme em movimento pode parecer obscurecer a luz imóvel por trás dele, mas se continuarmos a olhar para ele de forma constante, os nossos olhos ficarão deslumbrados pela a luz e portanto deixaremos de ver qualquer outra coisa além dela. 

Da mesma forma, quando olhamos directamente para o núcleo da nossa consciência, "eu sou", a sua verdadeira clareza pode parecer à primeira vista estar obscurecida por um incessante fluxo de pensamentos, mas se continuarmos a manter a nossa atenção fixa firmemente nele, ele vai brilhar de forma cada vez mais clara e luminosa e assim gradualmente dissolver todo o surgimento sombrio de pensamentos, até finalmente brilhar sozinho em todo o seu esplendor infinito e glória não-dual.

Pergunta o que deve ser seguido: "olhar para os seus pensamentos", "ver de onde é que eles ocorrem" ou "ver quem faz tudo isso". Como expliquei acima, ātma-vichāra não é olhar para qualquer pensamento que não seja o nosso pensamento primordial "eu", por isso não devemos seguir o conselho de quem diz "olhar para os seus pensamentos", mas podemos seguir qualquer das outras duas instruções ou ambas, "ver de onde ocorrem" e "ver quem faz tudo isso", pois ambas significam essencialmente a mesma coisa.

De onde ocorrem todos os pensamentos? Eles ocorrem, surgem ou aparecem só de nós mesmos, o "eu" que os pensa, e não de qualquer outra coisa. Portanto "ver de onde ocorrem os pensamentos" significa ver a nós mesmos, o "eu" pensante, em cuja imaginação e por cuja imaginação todos os pensamentos são formados.

Da mesma forma, quem faz tudo isto? Tudo - cada pensamento, palavra e acção - é feito apenas por este pensamento "eu". Ainda que as acções físicas possam parecer ser realizadas pelo nosso corpo, e as palavras possam parecer ser faladas pela nossa voz, o nosso corpo e voz são ambos apenas instrumentos pelos quais a nossa mente actua. Todas as acções e palavras do corpo são originárias dos nossos pensamentos, e esses pensamentos são todos pensados apenas por "eu", o pensamento primordial, que é a nossa mente pensante. Portanto "ver quem faz tudo isto" significa ver a nós mesmos, o "eu" que sente "eu estou a pensar", "eu estou a falar" e "eu estou a fazer".

Uma vez que este "eu" que pensa, fala e faz aparece nos estados de vigília e de sonho mas desaparece no sono profundo, não é o nosso "eu" real, mas é apenas um impostor que se apresenta como "eu". No entanto, ele não poderia apresentar-se como "eu" se não contivesse pelo menos um elemento da nossa consciência real "Eu", por isso quando o vemos com muito cuidado, chegaremos a ver o verdadeiro "Eu" que lhe subjaz e lhe dá suporte, permitindo que ele apareça como "eu".  

Ou seja, quando olhamos atentamente para este falso pensamento-"eu", concentrando toda a nossa atenção sobre ele, vamos ver para além do corpo e outros adjuntos imaginários que temos sobreposto nele, e assim reconhecer a pura consciência "Eu" livre de adjuntos que lhe está subjacente, assim como quando olhamos com muito cuidado para a cobra imaginária, vamos ver para além da sua aparência superficial e vamos reconhecer que é na verdade apenas uma corda.

O nosso verdadeiro "Eu" não pensa ou faz qualquer coisa, mas simplesmente é. Ou seja, a sua natureza essencial é apenas ser, e é sempre intocada por qualquer pensamento ou acção. O "eu" que pensa e pratica acção é apenas uma aparência superficial e transitória, uma ilusão que existe como tal apenas na sua própria imaginação auto-enganadora, mas aquilo que parece surgir assim como este falso "eu" que pensa e faz é apenas o nosso verdadeiro ser "Eu". Portanto, quando examinamos a aparência com cuidado, vamos vê-la como realmente é - ou seja, como o ser livre-de-pensamento, livre-de-acção, não-dual, "Eu".

Também perguntou: "Aquele vê não é também mente?" (que eu suponho que quis dizer, "aquele que vê não é também mente?"). Sim, isso que faz esforço para ver a si mesmo, o falso pensamento "eu", é apenas a nossa mente, que em si nada mais é do que este pensamento-"eu".

O nosso verdadeiro ser "Eu" sempre conhece a si mesmo perfeita e claramente, porque a sua natureza é absolutamente pura auto-consciência, por isso não precisa fazer nenhum esforço para praticar Ātma-vichāra. O que precisa fazer esforço para conhecer a si mesmo como realmente é, é apenas a nossa mente, o falso pensamento "eu".

Quando essa mente faz esforço para saber "quem sou eu?" olhando com muito cuidado para si mesma, ela desaparece automaticamente e se funde no seu estado real de claro ser, livre-de-pensamento, auto-consciente, e portanto experiencia-se como o ser real "Eu" que verdadeiramente sempre é. Ou seja, esta mente eleva-se e está activa somente enquanto se ocupa com outros pensamentos - ou seja, com algo diferente de si mesma - mas quando em vez disso tenta ocupar-se apenas de si mesma, ela desaparece e deixa de estar activa, porque sem o suporte imaginário de qualquer coisa diferente de si mesma esta mente não pode manter-se ou parecer que existe.

Quando a ilusão de pensar e de fazer é sobreposta ao nosso ser "Eu", ela parece ser este pensamento "eu", a nossa mente ou ego, por isso a nossa mente depende da sua constante actividade de pensar a fim de sustentar a sua existência aparente. Pensar é a actividade de se ocupar com algo que parece ser diferente de nós mesmos, por isso vai cessar quando concentramos toda a nossa atenção exclusivamente em nós mesmos, e portanto a nossa mente pensante desaparecerá no nosso estado natural de claro ser auto-consciente, em que ela deixará de ser este pensamento-"eu" e em vez disso permanecerá como o ser "Eu" que sempre realmente é.

Finalmente pergunta: "Apesar de a graça do guru estar sempre a fluir, por que é que nem sempre conseguimos praticar atma vichara?". A Graça está sempre disponível em abundância no nosso coração, onde ela brilha claramente como a nossa consciência real, "eu sou", mas para beneficiar dela completamente devemos render-nos a ela inteiramente tornando a nossa atenção ahamukham (voltando-a em direcção a si mesma) e assim mergulhá-la interiormente.

Nós só podemos manter a atenção fixa em nós mesmos na medida em que tivermos amor genuíno para o fazer. Enquanto ainda sentirmos o desejo de experimentar qualquer coisa diferente do nosso verdadeiro ser, os nossos desejos irão impelir-nos a pensar nessas coisas e, portanto, iremos sucumbir repetidamente em pramāda ou auto-negligência, deslizando do nosso estado natural de auto-atenção vigilante ou clara auto-consciência.








Qualquer que seja o amor que agora temos por afastar-nos dos objectos dos nossos desejos e atender apenas ao nosso verdadeiro ser, "eu sou", ele foi acendido no nosso coração só pela graça do guru, e tendo acendido uma vez a chama deste amor, a graça continuará a protegê-lo, a alimentá-lo e a ajudá-lo a florescer, tal como um jardineiro iria proteger e nutrir uma planta linda que ele fez brotar da semente.

A Graça está certamente fazendo a sua parte, como sempre fez e sempre fará, por isso cabe a nós fazer a nossa parte, rendendo-nos a ela, atendendo a ela exclusivamente, e assim permitir que nos engula na perfeita clareza de pura auto-consciência, que é a sua verdadeira forma. Quanto mais perseverarmos no nosso esforço para atender apenas ao nosso ser, mais claramente a luz da graça brilhará no nosso coração como "eu sou", e assim mais ela inflamará o nosso amor por sermos sempre auto-atentos.

O nosso amor por sermos auto-atentos é verdadeira bhaktisvātma-bhakti ou amor pelo nosso próprio ser - e a sua intensidade é directamente proporcional à intensidade da nossa vairāgya ou  libertação do desejo de atender a qualquer coisa que não seja nós mesmos. Queremos atender a outras coisas só por causa da nossa falta de verdadeira vivēka, discriminação ou julgamento correcto - a capacidade de distinguir entre o real e o irreal, o eterno e o efémero, e discernir que a verdadeira felicidade só existe no nosso ser real e não em qualquer aparência efémera como a nossa mente ou os objectos dos seus desejos.

A verdadeira vivēka só pode surgir a partir da clareza interior da mente e do coração, que é acesa em nós pela clara luz da graça, que sempre brilha dentro de nós como "eu sou". Portanto, quando prestamos atenção à nossa consciência essencial de ser, "eu sou", estamos a abrir o nosso coração à influência da graça, permitindo-lhe que brilhe claramente dentro de nós acendendo e nutrindo a clareza da verdadeira vivēka no nosso coração.

Quando começamos a praticar ātma-vichāra - auto-investigação ou auto-percepção - estamos a iniciar um processo que vai aumentar cada vez mais, como uma bola de neve rolando monte abaixo, porque quanto mais atendermos a "eu sou", mais claramente o vamos experienciar, e quanto mais claramente o experienciarmos, mais claramente a verdadeira vivēka brilhará no nosso coração, permitindo-nos assim libertar-mo-nos dos nossos desejos e amarmos cada vez mais intensamente ser auto-atentos, até finalmente a nossa mente  ser engolida para sempre na absoluta clareza da auto-consciência imaculadamente pura.








Tradução: Blog Texto Meditativo

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Sri Ramana Maharshi - Significado da Sua Experiência da Morte






EXCERTO DE :

Introdução à filosofia e à prática
dos ensinamentos espirituais de
Bhagavan Sri Ramana

Autor: MICHAEL JAMES



      Tudo o que escrevo neste livro é o que aprendi e compreendi dos ensinamentos do sábio conhecido como Bhagavan Sri Ramana Maharshi, que foi um tal ser extremamente raro, que experimentou a verdade espontaneamente sem nunca ter ouvido ou lido nada sobre ela. Ele obteve espontaneamente a experiência do verdadeiro auto-conhecimento, um dia em Julho de 1896, quando era só um estudante de dezasseis anos. Nesse dia estava sozinho sentado numa dependência da casa do seu tio na cidade de Madurai no sul da Índia, quando repentinamente e sem nenhuma causa aparente, um intenso medo da morte surgiu dentro dele. Em vez de procurar remover este medo da sua mente, como a maioria de nós faria, ele decidiu investigar e descobrir por si mesmo a verdade sobre a morte.


<<De acordo, a morte chegou! O que é a morte? O que é que morre? Este corpo vai morrer - que morra>>. Assim decidindo, deitou-se como um cadáver, rígido e sem respiração, e voltou a sua mente para dentro para descobrir o que é que a morte realmente lhe faria. Mais tarde descobriu a verdade que amanheceu nele nesse momento, como segue:



<<Este corpo está morto. Agora será levado para o campo de cremação, queimado e reduzido a cinzas. Mas com a destruição deste corpo, eu também sou destruído? Este corpo é realmente "eu"? Ainda que este corpo esteja jazendo sem vida como um cadáver, eu sei que eu sou. Não afectado nem um pouco por esta morte, o meu ser está brilhando claramente. Portanto, não sou este corpo que morre. Sou o "eu" que é indestrutível. De todas as coisas, só sou a realidade. Este corpo está sujeito à morte, mas eu, que transcendo o corpo, sou isso que vive eternamente. A morte que veio a este corpo não pode afectar-me a mim>>.



Ainda que tenha descrito a sua experiência da morte com muitas palavras, explicou que esta verdade na realidade amanheceu nele em um instante, não como raciocínio ou pensamentos verbalizados, mas como uma experiência directa, sem a mais mínima acção da mente. Tão intenso foi o seu medo e o impulso de conhecer a verdade da morte, que sem pensar nada, voltou a sua atenção para o corpo rígido e sem vida até ao núcleo mais íntimo do seu ser - a sua auto-consciência essencial <<eu sou>>, inadulterada e não-dual. Porque a sua atenção foi focalizada tão agudamente na sua consciência de ser, a verdadeira natureza desse ser-consciência revelou-se como um lampejo de conhecimento directo e certo - conhecimento que foi tão directo e certo que nunca poderia ser posto em dúvida.



Assim pois, Sri Ramana descobriu a si mesmo como a pura consciência transpessoal <<eu sou>> que é o único todo ilimitado, ininterrompido e não-dual, a única realidade existente, a fonte e substância de todas as coisas, e o verdadeiro 'Si' de todo o ser vivo. Este conhecimento da sua natureza real destruiu nele para sempre o sentido de identificação com o corpo físico - a sensação de ser uma pessoa individual, uma entidade separada confinada dentro dos limites de um tempo e lugar particulares.



Junto com este amanhecer do auto-conhecimento não-dual, a verdade de tudo o mais tornou-se clara para ele. Ao conhecer a si mesmo como o espírito infinito, a consciência fundamental <<eu sou>>, na qual e através da qual as demais coisas são conhecidas, ele soube como uma experiência imediata como essas outras coisas aparecem e desaparecem nesta consciência essencial. Assim pois, ele soube sem a mais mínima dúvida que tudo o que aparece e desaparece depende para a sua experiência aparente dessa consciência fundamental, que ele conheceu como o seu verdadeiro eu.









Samadhi Shrine
Antes de Sri Ramana deixar o seu corpo, os devotos foram ter com ele e pediram-lhe
que ficasse por mais algum tempo pois precisavam da sua ajuda.
Ele respondeu "Oh! Onde posso ir? Vou estar sempre aqui"



Tradução: Blog Texto Meditativo

sábado, 19 de julho de 2014

A Consciência Fundamental de Ser "Eu Sou"


  

                 





EXCERTOS DE :

A Felicidade e a Arte de Ser

Introdução à filosofia e à prática
dos ensinamentos espirituais de
Bhagavan Sri Ramana

Autor: MICHAEL JAMES







A ÚNICA VERDADE TOTAL, QUE INCLUI TUDO DENTRO DE SI MESMA, É O ESPÍRITO INFINITO, A ÚNICA CONSCIÊNCIA QUE TODOS CONHECEMOS COMO 
<<EU SOU>>.


Tudo o que parece existir, existe só dentro desta consciência.

As múltiplas formas em que as coisas aparecem são irreais; a única substância real de todas as coisas é a consciência em que elas aparecem.

Portanto, a única verdade sobre a qual falam toda as religiões é o espírito único, omni-inclusivo e não-dual em que todas as coisas aparecem e desaparecem.




     Cristo não se tomou erradamente a si mesmo como meramente uma pessoa individual cuja vida estava limitada dentro de um certo âmbito de tempo e espaço. Ele conhecia a si mesmo como o espírito real e eterno <<eu sou>> que não está limitado pelo tempo nem espaço. Por isso é que disse <<Antes que Abraão existisse, eu sou>> (São João 8.58).

A pessoa que foi Jesus Cristo nasceu muito tempo depois de Abraão, mas o espírito que é Jesus Cristo existe sempre e em todo o lugar, transcendendo os limites do tempo e espaço. Dado que esse espírito é atemporal, ele não disse <<Antes que Abraão existisse, eu era>>, mas sim <<Antes que Abraão existisse, eu sou>>.

Assim, esse espírito atemporal <<eu sou>>que Cristo sabia ser o seu próprio ser real, é o mesmo <<eu sou>> que Deus revelou como seu ser real quando disse a Moisés, <<EU SOU O QUE SOU>> (Êxodo 3.14). Portanto, ainda que Cristo nos pareça ser uma pessoa individual separada, ele e seu Deus Pai são de facto uma e a mesma realidade, o espírito que existe dentro de cada um de nós como a consciência fundamental  <<eu sou>>.  Por isso é que ele disse, <<Eu e o [meu] Pai somos um>> (São João 10.30).

Portanto, quando Cristo dizia, <<Eu sou o caminho, a verdade e a vida: ninguém chega ao Pai senão por mim>>  (São João 14.6), pelas palavras <<eu sou>> e <<mim>> ele estava a referir-se não meramente ao indivíduo limitado pelo tempo chamado Jesus, mas sim ao espírito eterno <<eu sou>>, que ele sabia ser o seu ser real. O significado interno das suas palavras, portanto, pode ser expressado assim: <<O espírito "eu sou " é o caminho, a verdade e a vida: nenhum homem chega ao espírito "eu sou", que é o Pai ou fonte de todas as coisas, senão por este mesmo espírito>> .

O espírito <<eu sou>> não é só a verdade ou realidade de todas as coisas, a fonte de onde todas elas se originam, e a vida ou consciência que anima todo o ser senciente, mas é também o único caminho pelo qual podemos voltar à nossa fonte original, a que chamamos com diversos nomes tais como <<Deus>> ou o <<Pai>>. Excepto voltando a atenção para dentro, para o espírito, a consciência que cada um de nós experimenta como  <<eu sou>>, não há nenhum outro caminho para voltar e tornar-se um com a nossa fonte. Portanto, a salvação só pode ser obtida não meramente através da pessoa que era Jesus Cristo, mas sim através do espírito que é Jesus Cristo - o espírito eterno <<eu sou>> que existe dentro de cada um de nós.

Cristo não só afirmou a sua unidade com Deus, seu Pai, ele também quis que nos tornássemos um com ele. Antes de ser preso e crucificado, Cristo orou por nós, <<Pai Santo, ... para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós... como nós somos um: eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitamente um>> (São João 17.11 e 21-23). Quer dizer, o propósito de Cristo era que deixássemos de tomar-nos erradamente como um indivíduo separado de Deus e que nos conhecêssemos como o único espírito indivisível, a pura consciência fundamental  <<eu sou>>, que é a realidade de Deus. Assim, pois, a unidade ou não-dualidade é o propósito central dos ensinamentos espirituais de Jesus Cristo.


     Toda a religião consta de um núcleo vital central de verdade não-dualista, expressada explícita ou implicitamente, e uma grossa couraça externa de crenças, práticas, doutrinas e dogmas dualistas. As diferenças que vemos entre uma religião e outra - as diferenças que ao longo de todos os tempos deram origem a tanto conflito, intolerância e cruel perseguição, e incluso a sangrentas guerras e terrorismo - estão só nas formas superficiais dessas religiões, as suas carapaças externas de crenças e práticas dualistas.

Toda a desarmonia, conflito e contenda que existe entre uma religião e outra surge devido a que a maioria dos seus seguidores está demasiado apegada a um ponto de vista dualista da realidade, que limita a sua visão e os impede de ver o que todas as religiões têm em comum, a saber, a única verdade da não-dualidade subjacente. Portanto, a verdadeira paz e harmonia prevaleceria entre os aderentes das diversas religiões, apenas se todos eles quisessem olhar para além das formas externas dessas religiões e ver a única verdade simples e comum da não-dualidade que reside no coração de todas elas.

Se aceitamos e compreendemos verdadeiramente a verdade da não-dualidade, não teremos motivo para criar desavenças ou lutar com alguém. Em vez disso, estaremos felizes desejando que cada pessoa acredite no que quiser acreditar, porque se uma pessoa está tão apegada à sua individualidade que não quer duvidar da realidade, nenhum tipo de raciocínio ou argumentação a convencerá da verdade da não-dualidade. Portanto, ninguém que verdadeiramente compreenda esta verdade tentará alguma vez convencer a quem não quer. Se alguém tentar forçar a verdade da não-dualidade sobre alguém que não a quer aceitar, só estará a mostrar a sua própria falta de compreensão correcta dessa verdade.

A não-dualidade não é uma religião que necessite de evangelistas para a propagar, ou convertidos que se juntem às suas fileiras. É a verdade e continuará a ser a verdade, tanto se alguém escolhe aceitá-la e compreendê-la, como se não. Portanto, não podemos nem devemos fazer mais do que tornar esta verdade disponível para quem quer que esta disposto a compreendê-la e a aplicá-la na prática.


     Muitas pessoas religiosas crêem que é blasfémia ou sacrilégio dizer que somos um com Deus, devido a que entendem erradamente que esta declaração significa que um indivíduo está pretendendo que ele próprio é Deus. Mas quando dizemos que somos Deus, o que queremos dizer não é que como um indivíduo separado sejamos Deus, o que seria absurdo, mas sim que não somos um indivíduo separado de Deus. Ao negar assim que tenhamos alguma existência ou realidade separados de Deus, estamos afirmando que a realidade que chamamos Deus é una, total e indivisa.

Se em vez disso pretendêssemos que estamos na realidade separados de Deus, como a maioria das pessoas religiosas crê que estamos, isso seria blasfémia ou sacrilégio, devido a que implicaria que Deus não é a única realidade. Se tivéssemos alguma realidade nossa separada de Deus, então ele não seria a verdade total, mas apenas uma parte ou divisão de alguma verdade maior.

Se acreditarmos que a realidade que chamamos Deus é verdadeiramente a infinita <<plenitude de ser>>, o único todo ininterrupto, então devemos aceitar que não pode existir nada como algo diferente dele ou separado dele. Só ele existe verdadeiramente, e tudo o mais que parece existir como separado dele, de facto não é senão uma ilusão ou aparência falsa cuja realidade subjacente é Deus. Somente no estado de não-dualidade perfeita está a perfeita glória, totalidade e plenitude de Deus revelado. Enquanto experimentarmos um estado de aparente dualidade tomando-nos erradamente como um indivíduo separado de Deus, estamos a rebaixá-lo, a desonrá-lo, negando a sua unidade, totalidade e infinitude indivisíveis, e convertendo-o em algo menos que a única realidade existente que Ele é verdadeiramente.


     Ainda que o propósito interior de todas as religiões seja ensinar-nos a verdade da não-dualidade, nas suas escrituras muitas vezes esta verdade é expressada apenas de uma maneira oblíqua, e só pode ser discernida por pessoas capazes de ler nas entrelinhas com verdadeiro entendimento e compreensão. A razão pela qual a verdade não é expressada mais abertamente, de forma clara e simples, em muitas das escrituras das diversas religiões, é que em qualquer ponto do tempo, a maioria das pessoas não alcançou ainda a maturidade espiritual suficiente para ser capaz de digeri-la e assimilá-la, por assim dizer. Essa é a razão por que Cristo disse, <<Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora>> (São João 16.12). Contudo, ainda que a maioria de nós possa ser incapaz de suportar e aceitar a verdade nua e crua da não-dualidade agora, com o passar do tempo alcançaremos finalmente a maturidade espiritual requerida para compreender e aceitar a verdade como ela é, e não meramente como agora gostaríamos que fosse.



A VIDA NESTE MUNDO É UM SONHO QUE ESTÁ OCORRENDO NO GRANDE SONO PROFUNDO DO AUTO-ESQUECIMENTO - ESQUECIMENTO OU IGNORÂNCIA DO NOSSO VERDADEIRO ESTADO DE PURA
AUTO-CONSCIÊNCIA NÃO DUAL.



Até que despertemos deste sono profundo do auto-esquecimento, recobrando o nosso estado de auto-conhecimento verdadeiro e natural, sonhos tais como a vida presente continuarão a ocorrer um após outro. Quando este presente corpo <<morrer>>, quer dizer, quando deixarmos de nos identificar com este corpo, que, pelo nosso formidável poder de imaginação projectámos agora como <<eu>>, e pelo qual vemos o mundo presente, nos submergiremos no sono do auto-esquecimento, mas mais cedo ou mais tarde surgirá de novo para projectar outro corpo sonhado como sendo nós e ver através dele outro mundo sonhado. Este processo de passar de um sonho para outro, no grande sono profundo do auto-esquecimento, é o que se chama <<renascimento>>.

Ao passar assim por uma vida sonhada após outra, sofremos muitas experiências que acendem em nós uma clareza de discriminação espiritual pela qual podemos compreender que a vida como um indivíduo separado é um fluxo constantemente flutuante de experiências agradáveis e penosas, e que, portanto, só podemos experimentar a felicidade perfeita e verdadeira conhecendo o nosso ser real e destruindo assim o engano que nos faz sentir como um indivíduo separado. Assim, pois, a verdade da não-dualidade é a verdade última que todos e cada um de nós virá finalmente a compreender e aceitar.


Contudo, uma mera compreensão e aceitação teórica da verdade da não-dualidade não tem nenhum valor para nós em si mesma, devido a que não eliminará o auto-esquecimento ou a auto-ignorância básica que subjaz ao engano da individualidade.
 A aceitação da verdade da não-dualidade só é de utilidade se nos impulsiona a dirigir a atenção para o nosso ser real - A CONSCIÊNCIA FUNDAMENTAL DE SER, que cada um de nós experimenta como <<EU SOU>>






        Vim a saber acerca do ensinamento espiritual de Bhagavan em 1976, enquanto viajava pela Índia em busca de algo que desse um significado e propósito à minha vida. O pouco que ouvi pela primeira vez sobre a sua vida e ensinamentos despertou o meu interesse, e foi assim que decidi visitar Tiruvannamalai (a cidade no sul da Índia onde Sri Ramana viveu durante cinquenta e quatro anos) com o fim de aprender mais, e acabei por viver lá durante os vinte anos seguintes.

O primeiro livro de Sri Ramana que li foi uma tradução inglesa do seu breve tratado Nan Yar? - Quem sou eu?, que me atraiu de imediato pela simples, clara e contudo muito profunda verdade nele expressa. Ainda que a minha compreensão inicial tenha sido bastante limitada e superficial, foi suficiente para me convencer de que o que Sri Ramana dizia neste pequeno livro era a verdade última.

Portanto, comecei a ler todos os livros disponíveis sobre os ensinamento de Sri Ramana. Em particular, eu quis compreender claramente a maneira de praticar atma-vichara ou <<auto-investigação>>, que Sri Ramana ensinava como o meio directo para obter o auto-conhecimento verdadeiro.

Lamentavelmente, contudo, a maioria das pessoas que haviam registado ou traduzido os ensinamentos de Sri Ramana em inglês, ou que haviam escrito livros em inglês sobre os seus ensinamentos, parecia não ter uma compreensão muito clara, tanto da filosofia como da prática que ele ensinou. De facto, alguns dos mais populares livros em inglês que então estavam disponíveis, davam explicações confusas e erradas sobre a prática da <<auto-investigação>>, de modo que incluso depois da leitura de vários desses livros, ainda não estava seguro sobre o <<método>> ou <<técnica>> exactos para praticar a <<auto-investigação>>. 

Afortunadamente, cerca de duas semanas depois de estar em Tiruvannamalai, emprestaram-me um livro The Path of Sri Ramana de Sri Sadhu Om. Neste livro, Sri Sadhu Om explicava claramente que


"A <<auto-investigação>> é simplesmente a prática da auto-atenção, quer dizer, a prática de retirar a nossa atenção ou poder de conhecer, de todos os pensamentos e objectos, e voltá-la para a consciência fundamental do nosso próprio ser, que experimentamos sempre como <<eu sou>>" 


Tão clara e convincente era esta explicação de Sri Sadhu Om, que não ficou em mim qualquer dúvida de que esse era o significado real do termo atma-vichara ou <<auto-investigação>> usado por Sri Ramana.

Pouco depois de ler o seu livro, encontrei-me com Sri Sadhu Om, e pareceu-me que estava em condições de responder de uma maneira extremamente clara, simples e convincente a todas as perguntas que lhe fiz sobre a filosofia e prática dos ensinamentos de Sri Ramana. Durante os oito anos e meio seguintes, até ao seu falecimento em Março de 1985, tive a fortuna de poder passar a maior parte da minha vida de vigília na companhia de Sri Sadhu Om, e de adquirir através dele uma compreensão clara da filosofia, da ciência e da arte do auto-conhecimento verdadeiro como é ensinado por Sri Ramana.




   

Sri Sadhu Om (1922-1985)


Durante esses anos que passei na companhia de Sri Sadhu Om, sob a sua esclarecida orientação, pude estudar os textos originais em Tamil escritos por Sri Ramana, e outras obras importantes tais como Guru Vachaka Kovai, que é a colecção mais completa e fiável das palavras de Sri Ramana, registadas em versos em Tamil pelo seu principal discípulo, Sri Muruganar. Assim, tive a oportunidade única de obter um profundo conhecimento sobre o ensinamento de Sri Ramana, aprendendo directamente dos textos-fonte, na sua língua original Tamil, com a ajuda e guia pessoal de um dos seus discípulos mais próximos (não simplesmente aqueles que foram abençoados por viverem fisicamente perto dele, mas aqueles que seguiram os seus ensinamentos estreita e fielmente).



Sri Muruganar (1893-1973)



Sri Muruganar
Como Sri Muruganar, Sri Sadhu Om era um inspirado poeta Tamil que dedicou o seu talento e a sua vida inteira a Sri Ramana. Contudo, enquanto Sri Muruganar viveu com Sri Ramana cerca de vinte e sete anos, e desempenhou um papel íntimo e importante na sua vida, obtendo dele muitas das suas obras mais importantes, tais como Upadesa Undiyar, Ulladu Narpadu,  e Anma-Viddai, Sri Sadhu Om viveu com Sri Ramana menos de cinco anos, e portanto não desempenhou nenhum papel significativo na sua vida exterior.

Não obstante, ainda que não tenha tido a mesma oportunidade que Sri Muruganar de gozar exteriormente de uma estreita e íntima relação com Sri Ramana, interiormente Sri Sadhu Om entregou-se inteiramente a ele, voltando a sua mente para si mesmo para se submergir na clara luz da auto-consciência pura, que é a forma verdadeira de Sri Ramana. Assim, a sua vida é um bom exemplo para aqueles de nós que nunca tiveram a oportunidade de conviver com a forma física de Sri Ramana. Como Sri Ramana ensinou, 


O verdadeiro sat-sanga ou associação com o guru não é meramente a associação com a sua forma física, mas sim a associação (sanga) com a sua forma verdadeira, que é o nosso verdadeiro eu real ou ser essencial (sat), a realidade infinita, indivisível, não-dual e absoluta.

A clareza de entendimento única de Sri Sadhu Om, que brilhava através de todas as suas palavras faladas e escritas, brotava tanto da sua devoção sincera e incondicional a Sri Ramana e seus ensinamentos, como da sua própria experiência espiritual profunda, que resultava de tal devoção. Dado que havia apagado inteiramente o seu próprio ego ou sentido de individualidade, ele era como uma lente clara através da qual os ensinamentos de Sri Ramana brilhavam sem obstrução como a perfeita clareza do conhecimento verdadeiro.




     Até que nos entreguemos completamente a ele, permitindo que a nossa mente finita seja consumida inteiramente na clareza infinita da auto-consciência pura, que está sempre brilhando no núcleo íntimo do nosso ser, mas que nós escolhemos ignorar devido ao forte apego ao nosso falso sentido de individualidade e a tudo o que surge dele, nunca poderemos ter uma compreensão dos seus ensinamentos verdadeiramente perfeita.





     Algumas pessoas que não conheciam de perto qualquer um deles costumavam dizer que Sri Sadhu Om era discípulo de Sri Muruganar. Da mesma forma, muitas pessoas que não o compreendiam correctamente acreditavam que Sri Sadhu Om estava actuando como um guru, e que eu era seu discípulo. Contudo, nem Sri Muruganar nem Sri Sadhu Om se consideraram nunca como um guru, porque sabiam pela sua própria experiência directa que não é necessário nunca nenhum intermediário entre Sri Ramana e qualquer dos seus seguidores ou devotos.

Não só não se consideravam como o guru de ninguém, mas também desanimavam activamente a quem quer que fosse de considerá-los como tal, dizendo que se desejamos praticar sinceramente os ensinamentos de Sri Ramana, ele mesmo actuará directamente como nosso guru, proporcionando-nos toda a ajuda e orientação de que necessitemos para voltar a nossa mente para dentro e desse modo submergir e perder a nossa individualidade separada na luz clara do auto-conhecimento verdadeiro, que é a natureza essencial e real do guru.





     Sri Sadhu Om dizia muitas vezes que nenhum discípulo verdadeiro de Sri Ramana pode ser um guru, porque só Sri Ramana é o guru de todos aqueles que são atraídos pelos seus ensinamentos. Sempre que alguém lhe perguntava se não é necessário para nós ter um <<guru vivo>>, Sri Sadhu Om costumava rir e dizer, <<só o guru está vivo, e todos nós estamos mortos>>, e explicava que o guru real não é um corpo físico, mas o espírito sempre-vivo, a consciência de ser infinita que existe dentro de cada um de nós como o nosso verdadeiro eu.

Esse espírito infinito e eterno apareceu na forma física de Sri Ramana para ensinar-nos que nós não somos este corpo mortal que agora tomamos erradamente por nós mesmos, e que para nos conhecermos como realmente somos, devemos retirar a nossa atenção de todos os objectos externos e focalizá-la inteira e exclusivamente no nosso verdadeiro eu ou ser essencial. Tendo-nos dado este ensinamento, a forma física de Sri Ramana serviu ao seu propósito como a manifestação externa do guru eterno, de modo que agora a nossa meta não deve ser encontrar outro <<guru vivo>> (um termo que a maioria das pessoas compreende como uma <<pessoa iluminada>> cujo corpo ainda vive), mas sim encontrar o guru interior real, que é o nosso verdadeiro eu e que está sempre esperando atrair a nossa mente para dentro, para que se submerja e se funda na clareza do auto-conhecimento verdadeiro.

Porque ele nunca foi a forma física que parecia ser, mas foi sempre e será sempre o espírito infinito, que é o nosso verdadeiro eu, o guia de ajuda ou a <<graça>> de Sri Ramana nunca pode ser diminuída de forma alguma, e, portanto, não é menos poderosa agora do que o era quando ele parecia estar vivendo numa forma física. Toda a ajuda e orientação de que necessitamos para obter o auto-conhecimento verdadeiro estão disponíveis para nós exteriormente na forma dos ensinamentos de Sri Ramana, e interiormente como <<eu sou>> (a verdadeira forma de Deus e do guru), de modo que tudo o que necessitamos fazer é voltar a nossa atenção para nós mesmos a fim de experimentar a natureza verdadeira desta consciência <<eu sou>>.





Michael James



Tradução da versão em espanhol
por 'Blog Texto Meditativo'




É uma bênção termos Michael James como nosso guia no caminho de Bhagavan Ramana.

Pranams