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terça-feira, 7 de abril de 2015

Só "Eu sou" é certo e auto-evidente





Oh! Arunachala! Graciosamente vive para sempre
protegendo devotos indefesos como eu (de tal forma) que
alcancem a Bem-aventurança.



ARUNACHALA AKSHARAMANAMALAI
Grinalda de noivado de poemas para Arunachala - Poema 105



Sexta-Feira, 24 Janeiro 2014


Num comentário no meu recente artigo Investigar o "eu" é a pesquisa científica mais radical, R Viswanathan citou Nochur Venkataraman dizendo: "um grande filósofo afirmou eu penso e por isso existo, mas deveria ser eu sou e por isso eu penso", e também se referiu a isto num e-mail, ao que eu respondi:

Um comentário que Bhagavan Sri Ramana fez acerca desta famosa conclusão de Descartes, "Cogito ergo sum" (Penso, logo existo), foi relatado por Lakshmana Sarma no versículo 166 de Sri Ramana Paravidyopanishad:


A existência do seu próprio ser é inferida por alguns por uma operação mental, pelo raciocínio, "Penso, logo existo". Estas pessoas são como aqueles patetas que ignoram o elefante que passa, e ficam convencidos depois ao olhar para as pegadas!

'Eu sou' é auto-evidente - na verdade, é a única coisa que é totalmente auto-evidente, porque é evidente para si mesma em vez de para qualquer outra coisa, enquanto que todas as outras coisas supostamente auto-evidentes são evidentes apenas para a mente que as experiencia, e a mente experiencia-as como algo diferente de si mesma - assim só aqueles que não reconhecem este facto óbvio acreditariam que precisamos pensar, a fim saber "eu sou" ou afirmar logicamente que "eu sou".

Assim como a passagem de um elefante é óbvia para qualquer transeunte, também o facto de que "eu sou" é óbvio para todos nós. Portanto, assim como um transeunte não precisa ver as pegadas do elefante para se convencer de que ele acabou de passar, não devemos imaginar que precisamos pensar a fim de saber "eu sou".

"Eu sou" é na verdade a única realidade de auto-experiência, e tudo o mais que é experienciado é experienciado só porque "eu sou" está presente para o experienciar. Portanto, não só "eu sou" é auto-evidente, mas também se torna evidente por tudo aquilo que é experienciado. É só nesse sentido que "eu penso, logo existo" é verdade: se eu não existisse, eu não conseguia pensar, acreditar, duvidar, apreender, percepcionar, experienciar ou conhecer alguma outra coisa, então tudo é evidência irrefutável de que "eu sou".

No entanto, todas essas evidências são apenas evidências secundárias, porque a principal evidência de que "eu sou" é que eu experiencio "eu sou". Tudo o resto é experienciado por algo diferente de si mesmo, portanto poderia ser uma ilusão, enquanto que "eu sou" é experienciado por si mesmo, portanto não pode ser uma ilusão. A fim de experienciar qualquer coisa, quer eu próprio ou outra coisa qualquer, e quer seja real ou ilusória, eu devo existir, por isso o facto de que "eu sou" é o único facto que é absolutamente indubitável e irrefutável.

Se Descartes tivesse procurado uma evidência primária em vez de uma evidência secundária, não teria precisado de seguir a via da lógica circular ao concluir "Penso, logo existo", mas poderia em vez disso ter tomado a via da lógica directa de concluir:

          Eu experiencio "eu sou", logo existo.

Embora possa parecer igualmente verdadeiro e mais simples de argumentar, "eu experiencio, logo existo", por várias razões acredito que é preferível enfatizar a experiência de "eu sou", em vez de apenas alguma experiência: em primeiro lugar, porque todas as outras experiências acarretam esta experiência "eu sou", de modo que esta última é a nossa experiência primária e a fundação da primeira; em segundo lugar, porque a afirmação "eu experiencio" tende a sugerir uma experiência de algo diferente de "eu sou", uma vez que geralmente tomamos a experiência de "eu sou" como um dado adquirido; e em terceiro lugar, porque ao enfatizar a experiência de "eu sou" mantém o argumento mais focalizado, uma vez que o protege de se envolver e enredar  em qualquer consideração que não seja aquela (ou seja, qualquer experiência de qualquer coisa que não seja "eu sou").

Pensar (ou experienciar o pensamento) não implica que pensar é real, porque embora pareça que experienciamos pensar, pensar poderia ser uma ilusão. Exceptuando "eu sou", qualquer outra coisa que é experienciada poderia ser uma ilusão, mas "eu sou" (o facto de que eu existo) não pode ser uma ilusão, porque a fim de experienciar  qualquer coisa - seja "eu sou" ou outra coisa qualquer - eu devo existir. Portanto experienciar que "eu sou" implica que "eu sou" é real e não meramente uma ilusão. Daí a evidência primária e fundamental à nossa disposição que "eu sou" é a nossa experiência de que "eu sou", e qualquer outra coisa que nós experienciamos é apenas uma evidência secundária e supérflua de que "eu sou".

A experiência "eu penso" implica logicamente o facto de que "eu sou", mas não implica que é necessário o pensamento para "eu" ser, ou para "eu" experienciar que "eu sou". Ou seja, a experiência "eu sou" não implica logicamente "eu penso", embora a experiência "eu penso" implica logicamente "eu sou".  

Todas as experiências implicam a experiência fundamental "eu sou", porque sem algo que experiencia, não poderia haver nenhuma experiência, e esse algo que experiencia qualquer outra coisa experiencia a si mesmo como "eu sou". O que quer que possamos experienciar, sempre o experienciamos como "eu estou a experienciar isto".

Portanto, qualquer experiência implica logicamente a experiência "eu sou". Qualquer experiência que não seja a nossa experiencia fundamental "eu sou" é contingente, e portanto não é logicamente nem metafisicamente necessária, ao passo que tanto a experiência como o facto de que "eu sou" são ambos logicamente e metafisicamente necessários em qualquer experiência.   

Apesar de falarmos no facto de que "eu sou" (nossa existência ou ser) e na experiência de "eu sou" (a experiência, percepção ou consciência da nossa existência ou ser) como se fossem duas coisas distintas, na verdade esse não é o caso, porque o "eu" que existe não é diferente do "eu" que experiencia a sua existência como "eu sou". O "eu" que existe e o "eu" que experiencia são uma e a mesma coisa, e a natureza essencial deste único "eu" é não apenas existir mas também experienciar: se ele não existisse, não poderia experienciar, e se não experienciasse, não poderia existir (porque "eu", o pronome de primeira pessoa, e "sou", a forma de primeira pessoa do verbo "ser", cada um implica a existência de algo que experiencia, uma vez que tudo o que não experiencia não poderia estar ciente da sua existência como "eu sou").     .

Esta verdade simples e óbvia foi expressa por Sri Ramana no versículo 23 de Upadesa Undiyār:

          உள்ள துணர வுணர்வுவே றின்மையி
          னுள்ள துணர்வாகு முந்தீபற
               வுணர்வேநா மாயுள முந்தீபற.

Por causa da não-existência  de [qualquer] consciência (unarvu) outra [do que o que é] para saber o que é (ulladu), o que é é consciência. [Nós] existimos como "consciência apenas [é] nós".

Neste versículo a palavra உள்ளது  (ulladu: "ser" ou "o que é") denota a única coisa que existe necessariamente, nomeadamente "eu sou". O que conhece ou experiencia este "eu sou" não pode ser outra coisa senão ele mesmo, por duas razões: em primeiro lugar, se உணர்வு (unarvu: "o que é consciente" ou "o que experiencia") fosse outra coisa que não o que é, não existiria e portanto não poderia experienciar ou ser consciente de nada; e em segundo lugar, se o que experiencia "eu sou" fosse diferente de "eu sou", a sua experiência disso não seria "eu sou" mas "é".

O facto de que experienciamos "eu sou", que é "o que é" (ulladu), logicamente implica o facto de que existimos, por isso tanto somos o que é (ulladu) como o que experiencia (unarvu). Isto é o que Sri Ramana indica na última frase deste versículo, em que ele diz: Nós existimos como "unarvu apenas [é] nós". Por outras palavras, nós somos ambos "o que é" (ulladu) e "o que experiencia" (unarvu), de modo que o "eu" que existe e o "eu" que experiencia a sua existência são um e o mesmo "eu", que é a única coisa que com toda a certeza existe e é auto-evidente.

No entanto, apesar do facto de que eu sou é certo e além de toda a dúvida, exactamente o que eu sou parece-nos neste momento ser incerto e duvidoso, porque confundimos o que somos com algumas das coisas que experienciamos. Ou seja, confundimos o experienciador, "eu sou", com certos objectos que ele experiencia, tais como um corpo e uma mente, e como resultado parece-nos que somos duas coisas cujas naturezas são bem diferentes e até opostas uma à outra: parecemos ser tanto um corpo físico (algo composto de matéria não consciente, um conjunto de substâncias químicas simples e complexas, que se acredita que consistem em átomos constituídos de protões, neutrões, electrões e outras partículas subatómicas) e uma mente pensante (algo que é consciente e portanto não-físico).

Embora agora experimentemos um determinado corpo como se fosse "eu", não experimentamos sempre o mesmo corpo como "eu": no nosso presente estado de vigília experienciamos este corpo como "eu", enquanto que no sonho experienciamos outro corpo como "eu", o que sugere que não somos realmente qualquer um destes corpos, porque na vigília experienciamos "eu" sem experienciar qualquer corpo do sonho, e no sonho experienciamos "eu" sem experienciar o nosso presente corpo do estado de vigília. Logicamente, se podemos experienciar "eu" sem experienciar um corpo particular (quer o nosso presente corpo do estado de vigília ou algum outro corpo do sonho), "eu" e esse corpo não podem ser idênticos, porque para que duas coisas sejam idênticas (ou seja, uma e a mesma coisa), tudo o que é verdade para uma deve igualmente ser bem verdade para a outra. Se em algum momento eu experiencio "eu" mas não experiencio este corpo físico, então este corpo físico não pode ser "eu" mas deve ser algo diferente disso. 

Além disso, não experienciamos só estes dois estados, vigília e sonho, mas também um terceiro estado, sono profundo, no qual não experienciamos nem um corpo nem uma mente como "eu". Embora no sono experienciemos o não-aparecimento de qualquer mente, corpo ou mundo, nós (a coisa que experiencia a si mesma como "eu sou") não deixa de existir, porque se então não existíssemos não poderíamos experienciar o não-aparecimento de todas as outras coisas, e portanto não estaríamos conscientes de jamais ter estado nesse estado a que agora chamamos de sono profundo. Ou seja, se não experienciassemos o sono profundo  como um estado no qual não experienciamos algo diferente de "eu sou", não experienciaríamos o sono profundo de todo, porque seria um estado completamente desprovido de qualquer experiência ou de qualquer coisa que o pudesse experienciar; e se assim não experienciassemos o sono profundo de todo, agora só teríamos conhecimento de sempre ter estado ou num ou noutro dos dois outros estados, vigília e sonho.

Contudo, na verdade, nós fazemos a experiência não só dos estados de vigília e de sonho, mas também do estado de sono profundo, e portanto estamos cientes de que alternamos entre estes três estados. Na vigília e no sonho experienciamos a nós mesmos como um corpo e mente, e no sono profundo experienciamos a nós mesmos sem nenhuma experiência de um corpo, uma mente ou outra coisa qualquer. Portanto aquilo que experiencia a sua própria existência como "eu sou" continua assim a existir e a experienciar a si mesmo ao longo de todos estes três estados alternados.

O sono profundo é geralmente mal interpretado como sendo um estado no qual não experienciamos coisa alguma (um estado de chamada "inconsciência"), mas na verdade seria mais apropriado  descrevê-lo em termos mais positivos como um estado em que experienciamos nada diferente de "eu sou". Esta diferença entre "não experienciar nada" e "experienciar nada" pode ser entendida de forma mais clara ao considerar a diferença entre a experiência de uma pessoa cega e de uma pessoa com vista normal quando estão ambas numa sala completamente às escuras: enquanto a primeira não veria coisa nenhuma, e portanto não poderia distinguir a escuridão da luz, a última veria nada, e portanto poderia reconhecer a ausência de luz. A inconsciência é uma completa ausência de qualquer experiência, por isso é comparável à cegueira, em que há uma completa ausência de qualquer experiência visual, ao passo que o sono é um estado em que experimentamos o não-aparecimento de qualquer outra coisa (qualquer mente, corpo ou mundo), por isso é comparável à condição de uma pessoa com visão normal num quarto completamente escuro, porque essa pessoa tem uma experiência visual de escuridão. Assim como qualquer pessoa com visão normal pode ver e reconhecer a escuridão e assim é capaz de a distinguir da luz, nós experienciamos e podemos reconhecer o não-aparecimento de nada no estado de sono profundo e assim somos capazes de distinguir o estado de sono profundo, dos estados de vigília ou de sonho. 

Por conseguinte o estado de sono profundo ilustra o facto de que podemos experienciar "eu sou" mesmo quando não experienciamos "eu penso", portanto embora seja verdade que porque eu agora penso eu devo existir, a nossa experiência e conhecimento que "eu sou" não é de forma alguma dependente da nossa experiência "eu penso". Portanto a afirmação "eu penso, logo existo" é colocar o carro à frente dos bois. Quer aconteça de eu pensar ou não, a minha experiência fundamental é "eu sou", e esta experiência por si só é evidência suficiente para provar que eu sou, porque eu não poderia experienciar nada se eu não existisse.

Tendo concluído "Penso, logo existo", Descartes foi depois confrontado (na 'Segunda Meditação' das suas  Meditações sobre a Filosofia Primeira) com a seguinte questão lógica: "O que então sou eu?". No entanto, tendo escolhido esse caminho desnecessariamente sinuoso para chegar à conclusão certa "eu sou", o que ele concluiu como resposta à pergunta "O que então sou eu?" foi que "eu" é uma res cogitans: uma "coisa pensante" ou "coisa que cogita". Esta é uma conclusão injustificada e portanto duvidosa, porque se fosse verdade, isso significaria que só existimos quando pensamos, e que deixamos de existir sempre que deixamos de pensar, como no sono profundo. Embora pensar implique ser (e portanto "eu penso" implica "eu sou"), ser não implica pensar (e portanto "eu sou" não implica "eu penso"), por isso não é de todo óbvio que eu sou só uma coisa que pensa.

O que é certo e evidente é "eu sou", não "eu penso", porque tal como tudo o mais que experienciamos que não seja "eu sou", o pensamento poderia ser apenas uma aparência e não real. Embora outras coisas que não "eu sou" pareçam existir, o facto de que elas parecem existir não significa que elas realmente existem. Elas parecem existir porque são experienciadas por "eu", mas muitas coisas que são experienciadas por "eu"  (como as coisas que ele experiencia nos sonhos, alucinações e ilusões) não existem realmente. Existência aparente não é portanto garantia de existência efectiva. Assim, apesar de o pensamento parecer ocorrer, pode não ser real, e se não é real - se realmente não ocorre mas apenas parece ocorrer - não sou realmente uma coisa pensante, mas algo que nos estados de vigília e de sonho meramente parece pensar.

Enquanto que outras coisas certamente não existem, mesmo que pareçam existir, "eu" certamente existe, porque ele experiencia a sua própria existência, o que ele não poderia fazer se não existisse. Outras coisas, como o pensamento, não existem certamente porque não experienciam a sua própria existência, mas são experienciadas apenas por "eu". Portanto, com base na nossa experiência, podemos dizer que "eu" existe necessariamente, mas que nada mais existe necessariamente, porque a sua existência aparente poderia ser apenas uma aparência irreal.

Uma vez que apenas "eu sou" é certo, e uma vez que "eu penso" não é certo, há uma justificação insuficiente para concluirmos "eu sou uma coisa que pensa". Em vez de concluirmos que "eu" é uma "coisa que pensa" (uma coisa que realmente pensa), tudo o que podemos justificadamente concluir é que "eu" é uma "coisa que é" (uma coisa que realmente é) e uma "coisa que experiencia" (uma coisa que realmente experiencia). No entanto, embora este "eu" seja certamente uma coisa que experiencia, o que ele certamente experiencia é apenas a si mesmo, "eu sou", porque qualquer outra coisa que ele parece experienciar pode não ser real mas apenas uma aparência.

Porque Descartes concluiu que "eu" é uma "coisa que pensa" (ou seja, uma mente) e que é distinta de qualquer corpo físico, ele argumentou que a mente e o corpo são duas substâncias distintas, cada uma das quais pode existir independente da outra, e portanto ele era um metafísico dualista. Outros filósofos (na maioria dos quais são metafísicos monistas de uma variedade ou outra) discordaram dele, argumentando quer que todos os fenómenos físicos são apenas ideias e portanto compostos de substância mental, quer que todos os fenómenos mentais são apenas actividades electroquímicas no cérebro e são portanto compostos de substância física.

Os filósofos formularam e continuam a formular inúmeros argumentos a favor e contra cada uma destas concepções metafísicas (que são chamadas respectivamente dualismo, idealismo e fisicalismo), e continuam a desenvolver variantes de cada um destes pontos de vista, ou alternativas a eles, assim como uma forma de monismo neutro que argumenta que a substância última de todas as coisas não é nem mental nem física, mas é a fonte comum e fundamento de ambas (embora poucos, se algum, dos filósofos ocidentais tenham alguma vez sugerido que essa fonte única e substância de todas as coisas é o que todos nós experienciamos como "eu sou"). No entanto, apesar de todos os esforços que os filósofos têm vindo a fazer há milhares de anos para responder a questões metafísicas e epistemológicas, nenhuma das suas deliberações ou argumentos os trouxe um pouco mais perto de encontrar a resposta certa para a pergunta fundamental: 'o que sou eu?'  Portanto, o que todos os seus numerosos e mutuamente contraditórios argumentos ilustram é como é confuso e incerto o nosso conhecimento actual sobre 'o que eu sou'. Se cada um de nós soubesse claramente e com certeza 'o que eu sou', não haveria margem para dúvida, confusão ou discordância sobre isso, mas porque o nosso conhecimento actual de 'o que eu sou' não é claro e é incerto, dúvidas, confusão e discordância prevalecem.

Não podemos experienciar a nós mesmos claramente como realmente somos por raciocínio ou lógica, porque o raciocínio e a lógica só nos podem dar conhecimento conceptual (também conhecido como "teorias" ou "crenças"), mas não conhecimento experiencial. Embora o raciocínio ou a lógica possam ajudar-nos a compreender conceptualmente o que não somos -  porque não podemos ser um corpo nem uma mente - eles não podem por si só capacitar-nos para nos experienciarmos a nós mesmos como realmente somos. Portanto, para obter conhecimento experiencial claro e certo de 'o que eu sou', é preciso investigar este "eu", esquadrinhando ou prestando-lhe atenção de uma forma aguda e vigilante. Este é o método de pesquisa empírica chamado ātma-vicāra ou auto-investigação, que Sri Ramana nos ensinou, o único meio pelo qual podemos experienciar a nós mesmos como realmente somos.

Enquanto experienciarmos algo diferente de "eu", a nossa experiência do que nós (este "eu") na verdade somos, é passível de ser nublado e incerto, e portanto estamos sujeitos a confundir algo diferente de "eu" como sendo "eu" (assim como agora experienciamos um corpo e uma mente como "eu"). Portanto para experienciarmos a nós mesmos  claramente e sem qualquer confusão ou turvação, devemos tentar experienciar a nós mesmos em completo isolamento de todas as outras coisas.

A fim de experienciar qualquer coisa temos de prestar-lhe atenção (por escolha ou por a nossa atenção ser forçosamente atraída para ela), e quanto mais intensamente a nossa atenção estiver nela focada, mais claramente a vamos experienciar. Portanto, a fim de experienciar "eu" claramente temos de concentrar aí toda a nossa atenção tão profunda e intensamente quanto possível.

Quanto mais a nossa atenção está focada numa coisa, menos atendemos a ou percebemos qualquer outra coisa. Portanto, quanto mais focamos a nossa atenção no "eu", mais todas as outras coisas serão excluídas da nossa atenção. Por isso o nosso objectivo deve ser o de concentrar a nossa inteira atenção no "eu" tão profundamente, intensamente e de forma vigilante que tudo o resto é excluído da nossa atenção, consciência ou experiência. 

Devido a um longo hábito estamos acostumados a prestar atenção a coisas que não são "eu", e a mudar a nossa atenção rápida e constantemente de uma coisa para outra, assim o nosso poder de atenção tornou-se um instrumento bastante rudimentar. Por isso embora nos pareça fácil atender a e experienciar objectos, que são numerosos e relativamente grosseiros, parece-nos difícil atender ao sujeito que experiencia, "eu", que é único e relativamente subtil. No entanto, quanto mais tentamos prestar atenção a este "eu" subtil, mais a nossa atenção vai ser afiada e refinada, e mais claramente seremos capazes de experienciar "eu" isolado de todas as outras coisas, incluindo todos os vários pensamentos, sentimentos e emoções que surgem na nossa mente.

Portanto, a fim de aguçar o nosso poder de atenção e assim o tornar suficientemente refinado para ser capaz de reconhecer o que este "eu" realmente é, precisamos de persistentemente tentar atender ao "eu". Quanto mais perseverarmos nesta prática, mais fácil será para nós manter a nossa auto-atenção sem sermos distraídos pela consciência de qualquer outra coisa, até que finalmente - de acordo com a experiência e testemunho de Sri Ramana - seremos capazes de experienciar "eu" de forma clara e em isolamento absoluto de todas as outras coisas, e assim iremos experienciar a nós mesmos como realmente somos.

A prática de atender ao "eu" é como acostumar os nossos olhos a reconhecer pequenos e subtis objectos na penumbra, ou acostumar a nossa língua a reconhecer sabores subtis ou o nosso nariz a reconhecer aromas subtis. Se tentarmos acostumar os nossos olhos ou outros sentidos dessa maneira, primeiro só vagamente e de forma incerta vamos reconhecer objectos ou sensações subtis, mas quanto mais perseverarmos em nos acostumar e treinar qualquer dos nossos sentidos, mais fácil se tornará para nós reconhecer o que estamos a tentar reconhecer (como é ilustrado pelo exemplo de treinados e experientes provadores de chá ou de vinho, que são capazes de reconhecer distinções subtis em sabor e aroma que a maioria de nós não seria capaz de reconhecer). Da mesma forma, quanto mais treinamos e habituamos o nosso poder de atenção a experienciar "eu" em isolamento de todas as outras experiências, mais fácil se tornará para nós reconhecer o que este "eu" realmente é.

De todas as coisas que experienciamos, a única coisa que é absolutamente certa, auto-evidente e indubitável é "eu sou", mas apesar de sabermos claramente que eu sou, não sabemos claramente o que eu sou. Portanto, é razoável concluir que se queremos atingir mais certo conhecimento, a primeira coisa que devemos investigar é o que este "eu" realmente é.

Por muita pesquisa que possamos fazer sobre qualquer outra coisa, nunca poderemos ter a certeza de que ela realmente existe e não meramente parece existir, ou que na verdade é como parece ser. Por exemplo, não podemos inteiramente descartar a possibilidade de que tudo o que vivemos neste estado de vigília (excepto "eu sou") é apenas uma criação mental, assim como é tudo o que vivemos num sonho, e se este for o caso, qualquer pesquisa científica ou outra  que fazemos sobre qualquer coisa que agora experienciamos (excepto "eu sou") seria como fazer tal pesquisa sobre coisas que experienciamos num sonho. Portanto, qualquer conhecimento putativo (na forma de crenças ou teorias) que pareça que adquirimos em tal pesquisa será sempre incerto e duvidoso.

Portanto, a única esperança que temos de alcançar conhecimento absolutamente certo e indubitável em qualquer pesquisa que podemos fazer é a esperança de que podemos alcançar tal conhecimento fazendo pesquisa empírica sobre "eu": isto é, investigando quem ou o que eu sou. Se somos capazes de experienciar este "eu" como realmente é, vamos pelo menos livrar-nos da nossa confusão presente de que somos um corpo ou mente, e podemos razoavelmente esperar que (como Bhagavan Ramana nos assegurou com base na sua própria experiência) na ausência desta confusão fundamental saberemos com certeza se qualquer outra coisa que jamais experimentámos é real ou apenas uma aparência ilusória, como um sonho.





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Uma vez um visitante perguntou a Ramana Maharshi:
"Quantas Upanishads [Textos Sagrados], é preciso ler
para se compreender o Ser?"
Bhagavan, no seu estilo habitual, respondeu:
"De quantos espelhos precisa
para ver o seu rosto?"



domingo, 18 de janeiro de 2015

A prática de 'atma-vichara' resulta?



 Arunachala

Oh! Arunachala! Concede a Tua graça,
que eu possa enlouquecer de alegria ao beber-Te,
o suco verdadeiro,
como de um fruto na palma da minha mão.



ARUNACHALA AKSHARAMANAMALAI
Grinalda de noivado de poemas para Arunachala - Poema 23






Fonte:  
Does the practice of ātma-vicāra work?

Michael James
http://happinessofbeing.blogspot.pt/2014/03/does-practice-of-atma-vicara-work.html


Segunda-feira, 3 Março 2014


Em um comentário recente sobre um dos meus antigos artigos, Como começar a praticar ātma-vicāra?, alguém chamado Jas escreveu:


A teoria soa incrível e muito inspiradora, mas a prática resulta?
Existem muitos exemplos de pessoas que realizaram o ser usando apenas esta prática? Pelas minhas limitadas leituras sobre o assunto, parece que na sua maioria os aspirantes que realizaram o ser através desta prática tiveram (por vezes) vasta experiência de outras práticas antes de enveredarem pela inquirição.
Michael, como foi a sua própria experiência desta prática? Achou ou sente que a sua prática tem 'progredido' ao longo dos anos. A sua experiência da prática agora é diferente de quando começou? Pelo que entendo, raramente se sente ou se pode sentir progresso em direcção à realização, mas a inquirição teve algum outro impacto, positivo ou negativo, na sua vida?
Acho que o que estou a perguntar é a velha questão de quanto tempo se deve manter o olhar fixo no próprio ser até a ilusão começar a perder o seu poder.
Às vezes até parece que a orientação dos gurus é intencionalmente enganadora. É como alguém nos dizer que se olharmos fixamente o tempo suficiente para uma porta ela se abrirá para revelar o céu do outro lado. Quando na verdade tudo o que acontece é que se você olha fixamente para a porta, você apaixona-se pela porta, até ao ponto em que já não a vê como o obstáculo para alcançar o céu. Simplesmente olhar a porta é o céu. Portanto a porta nunca muda ou se abre, mas 'você' ou a sua perspectiva dela, sim. Da mesma forma, será inútil ser auto-atento na esperança de que algum dia a prática se vai aprofundar, mudar ou revelar algo diferente da sua experiência normal de existência? Trata-se apenas de que se você passar o tempo suficiente consigo mesmo se apaixona?

A resposta à primeira e principal pergunta de Jas, "a prática resulta?", é que podemos descobrir isso apenas por o tentarmos por nós mesmos. É claro, nós temos a garantia de Sri Ramana de que resulta, portanto podemos testar a sua eficácia com razoável confiança de sucesso, mas ele não nos pediu para aceitar qualquer coisa meramente por fé, mas ensinou-nos que devemos investigar o que o "eu" é (quem sou eu) e assim descobrir por nós mesmos.

É por isso que ele chamou a esta prática ātma-vicāra: auto-investigação. Nós só podemos saber ao certo o que somos se investigarmos a nós mesmos e assim experienciarmos por nós mesmos o que este "eu" realmente é. Portanto, neste caminho, a dúvida tem um papel mais importante do que a fé: não temos de acreditar em nada que ainda não sabemos ao certo, mas temos de duvidar de tudo sobre que possa recair a mínima dúvida, incluindo, e sobretudo, o que nós mesmos na verdade somos.

A única coisa que nós já sabemos com certeza absoluta é "eu sou", porque se eu não existisse não poderia experienciar nada, enquanto que tudo o resto que eu experiencio - tudo que não seja "eu" - poderia ser uma ilusão, por isso pode e deve ser posto em dúvida. No entanto, apesar de que sabemos com certeza que 'eu sou', não sabemos com certeza 'o que eu sou': podemos não ser o que agora parecemos ser, portanto, podemos e devemos duvidar do que ou quem sou eu.

Na verdade, esta dúvida 'o que ou quem sou eu' deveria ser a nossa primeira e principal dúvida, e todas as outras dúvidas iriam empalidecer em importância diante dela. Como Sri Ramana costumava dizer, em vez de nos preocuparmos com quaisquer outras dúvidas, devemos primeiro duvidar de quem é o duvidador. Até e a menos que esta incerteza e dúvida primária seja resolvida, quem sou eu, nunca seremos capazes de encontrar uma solução clara e certa para qualquer uma das nossas outras incertezas ou dúvidas, porque enquanto a realidade do "eu" que experiencia estiver em dúvida (ou seja, enquanto tivermos razão para duvidar do que este "eu" é), não podemos ter a certeza da realidade de qualquer outra coisa que ele experiencie. 

Portanto, mesmo se temos dúvidas de poder descobrir o que este "eu" é investigando-o, devemos, no entanto, ainda assim investigá-lo, porque se não tentamos pelo menos descobrir o que ele realmente é, nunca seremos capazes de ter a certeza sobre qualquer outra coisa que não seja o facto de que "eu sou", o que quer que "eu" seja. A nossa única esperança de encontrar mais alguma certeza além desta é investigar este "eu": quer dizer, tentar experienciar o que este "eu" na verdade é, concentrando a nossa atenção inteira sobre ele apenas.

Não adianta perguntarmos a ninguém, "a prática resulta?", porque o que quer que possam dizer-nos, nós ainda teremos razão para duvidar até descobrirmos por nós mesmos se ela realmente funciona ou não: isto é, se podemos ou não experienciar o que este "eu" é concentrando toda a nossa atenção sobre ele apenas. Se não podemos experienciar o que ele é por este meio, não seremos capazes de o experienciar por nenhum outro meio, porque não podemos experienciar o que qualquer coisa é a menos que na verdade lhe prestemos atenção.

Ou seja, não podemos experienciar o que o "eu" é prestando atenção a qualquer coisa que não seja "eu", de modo que a fim de experienciar o que isso é, não podemos prestar atenção a nada mais além disso. Actualmente, confundimos o "eu" com várias outras coisas que ele experiencia, tais como este corpo e mente, portanto, para o experienciar sem qualquer confusão precisamos de o experienciar em completo isolamento de tudo o mais, e portanto temos de focar a nossa atenção inteira sobre ele apenas, excluindo assim tudo o mais da nossa atenção ou consciência.

Espero que esta seja uma resposta adequada à primeira pergunta de Jas: "a prática resulta?" Se for, deve tornar todas as suas outras perguntas redundantes, porque a única maneira de saber com certeza se resulta ou não é fazer o teste por nós mesmos e perseverar em testá-la até conseguirmos experienciar o que este "eu" realmente é. Se formos capazes de experienciar isso, vamos saber com certeza que esta prática da auto-investigação resulta, mas se ainda não formos capazes de experienciar isso, será muito cedo para concluir que não resulta, porque se continuarmos a perseverar ainda podemos achar que ela resulta.

Embora as outras perguntas de Jas neste momento devam ser vistas como redundantes, para o caso de não serem vistas assim, consideremos cada uma com mais detalhe. Nos dois parágrafos seguintes, Jas pergunta sobre a experiência de outras pessoas, inclusive eu, por isso será útil para nós considerar a experiência de mais alguém? Suponhamos que alguém nos conta a sua experiência desta prática, e assegura-nos de que resulta ou de que não resulta: de que nos serve isso?

Por exemplo, se eu disser, 'eu experimentei o que eu realmente sou concentrando toda a minha atenção sobre mim', de que forma isso o ajudaria a si ou qualquer outra pessoa? E por que deveria acreditar em mim? eu poderia estar a enganá-lo para meu próprio auto-engrandecimento, ou poderia ter-me iludido a mim mesmo acreditando no que estou a afirmar. Até e a menos que você mesmo concentre toda a sua atenção no "eu" e assim experiencie o que "eu" realmente é, ainda vai continuar confuso e incerto sobre o que você é, e a experiência de ninguém poderá ajudar a resolver a sua confusão e incerteza. 

Se alguém nos diz o que experienciou através desta prática, o que nos diz serão meras palavras, e essas palavras vão criar algumas ideias na nossa mente. Mas nem essas palavras nem as ideias que elas evocam na nossa mente são "eu". O que o "eu" é, na verdade, é inefável, estando além do poder de captar de quaisquer palavras ou ideias. Todos nós experienciamos  "eu sou", mas apesar de estarmos mais familiarizados com a experiência "eu sou" do que estamos com qualquer outra experiência, poderemos descrever em palavras ou mesmo em pensamentos ou ideias o que esta experiência "eu sou" é na verdade? Não podemos, porque o que experienciamos como "eu" é, essencialmente, sem-características-distintivas.

Tudo o resto que experienciamos tem características de um tipo ou de outro, e é só por causa dessas características que podemos distinguir uma coisa de outra. Além disso, usamos palavras para descrever as coisas, porque o que estamos a descrever são as suas características. Mas quais são as características que o "eu" tem que poderíamos descrever? Quando confundimos o "eu" com outras coisas, tais como um corpo e mente, ele parece ter características, mas essas características são apenas as características de qualquer coisa que confundimos ser "eu". Se separarmos o "eu" de todas as outras coisas, ele não tem características próprias, por isso não pode ser descrito em palavras ou captado por qualquer pensamento ou ideia.


É por isso que no capítulo final da primeira parte de "O Caminho de Sri Ramana" "The Path of Sri Ramana" (edição de 2005, pág. 171-2) Sri Sadhu Om faz uma importante distinção entre viśeṣa-mana-anubhava e nirviśeṣa-ēkātma-anubhava ou nirviśeṣa-jñāna-anubhava: viśeṣa significa um atributo distintivo ou característica, então viśeṣa-mana-anubhava significa qualquer experiência mental, todas as quais têm características distintivas, enquanto nirviśeṣa-ēkātma-anubhava e nirviśeṣa-jñāna-anubhava significa uma experiência do nosso ser uno, que é o conhecimento verdadeiro, e que é desprovido de quaisquer características distintivas. Portanto, quando estamos a tentar experienciar o que ‘eu’ na verdade é, ao praticar a auto-investigação (ātma-vicāra), o que estamos a tentar experienciar não é algo com quaisquer características distintivas (viśeṣas) que poderia ser descrito em palavras ou apreendido pelo pensamento.

Portanto, quando estamos a tentar investigar o que este "eu" é, se temos alguma experiência sobre a qual podemos pensar ou falar - isto é, que podemos captar em pensamentos ou palavras - essa experiência é uma experiência de algo diferente de "eu", por isso devemos ir mais fundo na nossa investigação, tentando experienciar apenas o "Eu" que experienciou aquela outra coisa.

Além disso, quando experienciamos uma clareza elevada de auto-consciência ao praticar a auto-investigação, assim que começamos a pensar sobre essa experiência, perdê-mo-la, porque a clareza da auto-consciência (ou seja, uma experiência clara do "Eu") não é algo que qualquer pensamento ou ideia pode apreender ou captar. Na verdade, tal clareza pode ser experimentada somente quando voltamos a nossa atenção para longe de todos os pensamentos ou ideias, em direcção ao "Eu" que os experimenta. Por isso, pensamento e clareza de auto-conhecimento são incompatíveis entre si: na medida em que experienciamos um, não experienciamos o outro.

Assim, uma vez que não podemos apreender a nossa experiência do "Eu" em pensamentos ou palavras, se alguém nos contar a sua experiência em palavras, essas palavras não vão transmitir-nos o que é a experiência absolutamente clara do "Eu" apenas. É por isso que Sri Ramana  disse muitas vezes que a verdade nunca pode ser transmitida em palavras, mas apenas em silêncio, porque o silêncio é a verdadeira natureza do "Eu". As palavras que ele usou para transmitir os seus ensinamentos são, portanto, apenas ponteiros, indicando-nos a direcção em que devemos olhar a fim de experienciar a verdade silenciosa e inefável do "Eu". 

Se nos preocupamos com o que alguém diz ter experimentado, só nos vamos confundir, porque quaisquer palavras que possam usar para descrever a sua experiência (quer seja uma experiência do "Eu" apenas ou de qualquer outra coisa) não podem transmitir-nos o que verdadeiramente é a experiência absolutamente pura e clara do "Eu", por isso, se acreditamos que as suas palavras realmente descrevem essa experiência, vamos antecipar uma experiência que é diferente da experiência perfeitamente clara, mas sem-características-distintivas, do "Eu".

Ao praticar a auto-investigação (ātma-vicāra), não devemos tentar experienciar algo diferente de "Eu", e não devemos antecipar o que a experiência absolutamente pura do "Eu" vai ser, porque o que quer que antecipemos é uma ideia, e nenhuma ideia pode captar essa experiência, mas só a vai obscurecer. Portanto, em vez de antecipar qualquer experiência que podemos conceber ou imaginar, devemos estar atentos para tentar experienciar só o "Eu" e nada mais.

Jas está correcto ao dizer, "raramente faço ou consigo sentir progressos em direcção à realização", porque quando estamos a investigar o "eu", não estamos realmente a progredir para lugar algum, uma vez que o que estamos a tentar experienciar nunca é nada diferente daquilo que realmente somos agora, neste preciso momento. Como Sri Ramana disse muitas vezes, não há nada de novo para nós aprendermos ou para conhecermos: apenas temos que desaprender ou deixar de experimentar qualquer coisa que seja diferente de "Eu".

Ao tentar concentrar toda a nossa atenção apenas no "Eu", a pouco  e pouco largamos  o nosso apego a tudo que é diferente de "Eu". No entanto, quanto mais largamos tal apego, mais claramente nos tornamos conscientes de quão forte ele é, por isso, ao invés de sentir que estamos a progredir, muitas vezes parece-nos que a nossa condição é ainda pior do que era quando começámos.

Sri Sadhu Om costumava explicar isto com uma analogia: quando vemos uma lua crescente, não conseguimos ver lá nenhuma cratera, mas na meia lua podemos começar a ver fracamente as suas crateras. No entanto, só quando a lua fica grande vemos todas as suas crateras claramente, porque é então que brilha tão intensamente. Da mesma forma, quando a nossa mente é obscurecida por desejos e apegos densos e fortes, não vemos esses desejos e apegos como um problema, mas sim preocupamo-nos com o cumprimento dos nossos desejos e agarra-mo-nos a tudo a que estamos apegados. Mas quanto mais reduzidos e enfraquecidos são os nossos desejos e apegos, mais pura e clara a nossa mente assim se torna, por isso então estamos capazes de reconhecer como os nossos desejos e apegos são realmente um sério problema para todos nós. Assim, embora os nossos desejos e apegos sejam progressivamente reduzidos e enfraquecidos através da nossas prática da auto-atenção, a sua restante densidade e força torna-se cada vez mais clara para nós, de modo que à medida que nos aproximamos do nosso objectivo  sentimos que estamos cada vez mais longe dele.

Sri Sadhu Om diz que vamos continuar a sentir isto cada vez com maior intensidade e angústia até ao momento final, quando a nossa mente e todos os seus desejos restantes e apegos forem eventualmente inteiramente consumidos pela perfeita clareza de auto-consciência pura. Quanto mais conseguirmos atender ao "Eu", mais vamos sentir que o nosso amor e esforço por lhe prestar atenção ainda são irremediavelmente inadequados.

Neste contexto, é muito importante lembrar que Sri Ramana costumava dizer que a perseverança é o único verdadeiro sinal de progresso. Por isso, nunca se deve desistir, mas sim continuar a tentar uma e outra vez para experienciar este "Eu" claramente em completo isolamento de tudo o resto, incluindo todos os pensamentos e sentimentos, ou qualquer outra coisa que tenha quaisquer características distintivas.

Para colocar isto nas próprias palavras de Jas, temos de continuar a olhar para o nosso próprio ser o tempo que for necessário até a nossa presente ilusão (a ilusão de que somos uma pessoa, uma coisa finita que consiste num corpo e mente, que experiencia e deseja tantas coisas que parecem ser diferentes do "Eu") perder o seu controlo por completo. Ou, como Sri Ramana disse no parágrafo onze de Nāṉ Yār? (Quem sou eu?):


மனத்தின்கண் எதுவரையில் விஷயவாசனைக ளிருக்கின்றனவோ, அதுவரையில் நானா ரென்னும் விசாரணையும் வேண்டும். நினைவுகள் தோன்றத் தோன்ற அப்போதைக்கப்போதே அவைகளையெல்லாம் உற்பத்திஸ்தானத்திலேயே விசாரணையால் நசிப்பிக்க வேண்டும். [...] ஒருவன் தான் சொரூபத்தை யடையும் வரையில் நிரந்தர சொரூப ஸ்மரணையைக் கைப்பற்றுவானாயின் அதுவொன்றே போதும். கோட்டைக்குள் எதிரிக ளுள்ளவரையில் அதிலிருந்து வெளியே வந்துகொண்டே யிருப்பார்கள். வர வர அவர்களையெல்லாம் வெட்டிக்கொண்டே யிருந்தால் கோட்டை கைவசப்படும்.
maṉattiṉgaṇ eduvaraiyil viṣaya-vāsaṉaigaḷ irukkiṉḏṟaṉavō, aduvaraiyil nāṉār eṉṉum vicāraṇaiyum vēṇḍum. niṉaivugaḷ tōṉḏṟa-t tōṉḏṟa appōdaikkappōdē avaigaḷai-y-ellām uṯpatti-sthāṉattilēyē vicāraṇaiyāl naśippikka vēṇḍum. […] oruvaṉ tāṉ sorūpattai y-aḍaiyum varaiyil nirantara sorūpa smaraṇaiyai-k kaippaṯṟuvāṉāyiṉ adu-v-oṉḏṟē pōdum. kōṭṭaikkuḷ edirigaḷ uḷḷa-varaiyil adilirundu veḷiyē vandu-koṇḍē y-iruppārgaḷ. vara vara avargaḷai-y-ellām veṭṭi-k-koṇḍē y-irundāl kōṭṭai kaivaśa-p-paḍum.

Enquanto as viṣaya-vāsanās [inclinações ou desejos de experimentar outras coisas diferentes de 'Eu'] existirem na mente, assim é necessária a investigação 'quem sou eu'. Como e quando surgem os pensamentos, aí e nesse momento é necessário aniquilar todos eles por vicāraṇā [investigação ou auto-atenção vigilante] no mesmo lugar de onde eles surgem. [...] Se a pessoa se agarrar de imediato a svarūpa-smaraṇa [auto-lembrança] até atingir svarūpa [o próprio ser essencial], isso apenas [será] suficiente. Enquanto os inimigos [viṣaya-vāsanās]  estão dentro do forte [o coração ou o núcleo do ser], vão continuar a sair dele. Se continuar a abatê-los [com vicāra] como e quando surgem, o forte entrará [eventualmente] em [sua] posse.


E como ele disse no parágrafo anterior:


தொன்றுதொட்டு வருகின்ற விஷயவாசனைகள் அளவற்றனவாய்க் கடலலைகள் போற் றோன்றினும் அவையாவும் சொரூபத்யானம் கிளம்பக் கிளம்ப அழிந்துவிடும். அத்தனை வாசனைகளு மொடுங்கி, சொரூபமாத்திரமா யிருக்க முடியுமா வென்னும் சந்தேக நினைவுக்கு மிடங்கொடாமல், சொரூபத்யானத்தை விடாப்பிடியாய்ப் பிடிக்க வேண்டும். [...]
toṉḏṟutoṭṭu varugiṉḏṟa viṣaya-vāsaṉaigaḷ aḷavaṯṟaṉavāy-k kaḍal-alaigaḷ pōl tōṉḏṟiṉum avai-yāvum sorūpa-dhyāṉam kiḷamba-k kiḷamba aṙindu-viḍum. attaṉai vāsaṉaigaḷum oḍuṅgi, sorūpa-māttiramāy irukka muḍiyumā v-eṉṉum sandēha niṉaivukkum iḍam koḍāmal, sorūpa-dhyāṉattai viḍā-p-piḍiyāy-p piḍikka vēṇḍum. […]

Embora as viṣaya-vāsanās, que vêm desde tempos imemoriais, surjam [como pensamentos] em incontável número como as ondas do oceano, todas serão destruídas à medida que svarūpa-dhyāna (auto-atenção) vai aumentando e aumentando. Sem dar espaço sequer ao pensamento de dúvida 'É possível dissolver tantas vāsanās e ser apenas o ser?' É necessário agarrar com tenacidade a auto atenção. [...]


Portanto, devemos perseverar com tenacidade em 'observar o nosso próprio ser' (prestando atenção apenas ao "Eu") até sermos capazes de ver o nosso ser claramente: isto é, até experienciarmos o "Eu" como ele realmente é, não apenas como parece ser. Sri Ramana nos assegura que, se perseverarmos com tenacidade em 'observar o nosso próprio ser' o tempo suficiente, vamos experienciar o que este "Eu" realmente é, e assim a nossa ilusão de que o "Eu" é outra coisa diferente será destruída para sempre. Então vamos descobrir que só existe este "Eu", por isso 'observar o nosso próprio ser' (auto-atenção ou puro auto-conhecimento) será encarado como natural, sem esforço e inevitável.

Não temos que acreditar nesta certeza que ele nos transmitiu - embora acreditar nela, pelo menos provisoriamente, vai encorajar-nos a continuar a investigar este "Eu" - porque mesmo que duvidemos dela, ainda assim precisamos investigar o "Eu", porque até termos a certeza através da nossa própria experiência do que é este "Eu", não teremos possibilidade de ter a certeza de nada mais, porque é este "Eu" que experiencia todas as outras coisas, por isso, se o seu conhecimento de si é incerto, todo o seu conhecimento de de qualquer outra coisa será tão ou mais incerto.

Jas também pergunta: "Existem muitos exemplos de pessoas que realizaram o ser usando só esta prática?", e acrescenta: "Pelas minhas limitadas leituras sobre o assunto parece que na sua maioria os aspirantes que realizaram o ser através desta prática tiveram (às vezes) vasta experiência de outras práticas antes de enveredar pela auto-investigação". É verdade que muitos de nós terão tentado alguma outra forma de prática espiritual antes de aprenderem sobre esta prática simples e directa da auto-investigação (ātma-vicāra), e alguns aspirantes chegam a este caminho só depois de terem tido vasta experiência de outras práticas e terem assim descoberto que nenhuma dessas práticas pode propiciar a experiência da natureza real do "Eu" que as tenta praticar. No entanto, não é de todo necessário ter qualquer experiência de qualquer outra prática antes de enveredar por esta prática da auto-investigação, pois a fim de experienciar o que o "Eu" realmente é, não é necessário experienciar ou atender a  qualquer outra coisa.

Todo o tipo de prática que não seja a auto-investigação implica dirigir a nossa atenção para algo diferente de "Eu", assim como pode tal prática ser um meio directo para experienciar o que o "Eu" realmente é? Portanto, seja qual for o outro tipo de prática que podemos tentar, mais cedo ou mais tarde devemos tentar investigar só o "Eu", a fim de o experienciar como ele realmente é. Se compreendemos isso, não temos nenhuma necessidade de imaginar que devemos primeiro tentar alguma outra prática antes de enveredar por esta prática simples de auto-investigação. Quando o nosso objectivo é apenas experienciar o que "Eu" realmente é, por que devemos desperdiçar o nosso tempo e esforço na tentativa de atender a qualquer coisa diferente de "Eu"? 

No seu último parágrafo, Jas sugere que 'a orientação dos gurus é intencionalmente enganadora'. Não sei acerca da orientação de qualquer outro guru, mas parece-me que a orientação de Sri Ramana não é certamente intencionalmente enganadora, porque ele explicou os seus ensinamento básicos em termos de uma análise simples, clara e lógica da nossa experiência de nós mesmos e dos meios pelos quais podemos experienciar a nós mesmos como realmente somos.     

Isto é, ele primeiro destaca o facto incontestável de que a única coisa que sabemos com certeza é que "eu sou", e que tudo o que não seja isto é incerto e deve, portanto, ser posto em dúvida. Contudo, apesar de sabermos que eu sou,  ele lembra-nos de que o nosso conhecimento de o que eu sou é confuso e incerto, porque agora experienciamos um corpo e mente como "eu". Mas pode este corpo ou esta mente ser o que o "eu" realmente é? Se qualquer um deles é na verdade "eu", deveríamos experienciá-los sempre que experienciamos o "eu", porque se duas coisas são numericamente iguais - ou seja, se elas realmente não são duas coisas mas sim uma só - o que é verdade para uma deve ser verdade para a outra. Se podemos experienciar o "eu" sem experienciar tanto o corpo como a mente, nenhum deles poder ser "eu".

No estado de vigília experienciamos este corpo como "eu", enquanto que no estado de sonho experienciamos algum outro corpo (criado pela mente) como "eu". Dado que experienciamos "eu" no sonho sem experienciar este corpo do estado de vigília (que então supostamente está deitado numa cama a dormir), e dado que experienciamos "eu" neste estado de vigília sem experienciar o corpo que experienciámos no sonho, nenhum destes corpos pode ser "eu".

Além disso, embora o corpo que experienciámos como "eu" no sonho naquele momento parecesse real e parte de um mundo real, independente-da-mente, reconhecemos agora que tanto o corpo como o mundo do qual ele parecia ser uma parte são meras criações mentais. Nesse caso, como podemos ter a certeza de que o corpo que agora experienciamos como "eu" e o mundo do qual ele é uma parte não são também apenas criações mentais? Se os corpos que experienciamos como "eu", tanto na vigília como no sonho são apenas criações mentais, eles não podem certamente ser "eu".

Apesar de experienciarmos a mesma mente como "eu", tanto na vigília como no sonho, no estado de sono profundo não experienciamos esta mente, porém fazemos a experiencia do "eu". Porque o sono profundo é um estado sem características distintivas (nirviśeṣa), geralmente pensamos nele como um estado no qual não experienciamos nada - um estado chamado de "inconsciência" - mas na realidade experienciámos o sono, porque somos capazes de distinguir a natureza sem traços-distintivos da nossa experiência no sono profundo, da natureza multi-facetada da nossa experiência na vigília ou no sonho. Na nossa vida do dia-a-dia cada um de nós experiencia estes três estados alternados: vigília, sonho e sono, em dois dos quais experienciamos inúmeras características-distintivas, e num dos quais experienciamos uma completa ausência de qualquer característica.

Nos estados de vigília e de sonho, a mente está presente como o experienciador de todas essas características-distintivas (das quais ela própria é uma, embora não seja uma característica simples, mas sim complexa: uma característica multi-caracterizada), mas no estado de sono profundo esta mente e toda a sua actividade não se manifesta, tendo-se aquietado e desaparecido. Mas ainda que a mente então esteja ausente, ainda assim experienciamos "eu sou", e portanto quando acordamos somos capazes de lembrar: "eu estava a dormir". Quando dizemos, por exemplo, "eu dormi tranquilamente sem sonhos", estamos a descrever a nossa experiência real durante o sono, e para ter experienciado isso devemos ter existido e ter experienciado a nossa existência como "eu sou".

"Eu sou" é a única coisa que experienciamos em todos estes três estados transitórios, e uma vez que é isso que os experiencia e sem o qual eles não existiriam, é a base ou fundação para o aparecimento e desaparecimento de cada um deles. Portanto, uma vez que este "eu" perdura ao longo dos três estados, não pode ser qualquer coisa que experiencia em apenas um ou dois deles, como este corpo, que ele experiencia só no estado de vigília, ou esta mente, que ele experiencia só nos estados de vigília e de sonho.

Portanto, a nossa presente experiência do "eu" como se fosse um corpo e mente é uma ilusão, e como esta ilusão é a base de tudo o resto que nós experimentamos neste estado de vigília (e uma ilusão semelhante é a base de tudo o resto que nós experienciamos no estado de sonho), todas essas outras coisas  também são ilusórias. Uma vez que a nossa presente experiência de "eu" é portanto confusa e ilusória, precisamos investigar este "eu" a fim de experienciar o que ele realmente é.

Por que não experienciamos agora "eu" como ele realmente é? Sri Ramana explica que é por causa do nosso fascínio em experimentar outras coisas além do "eu". Porque estamos tão apaixonados pela nossa experiência de outras coisas, e porque temos desejos tão fortes de experimentar algumas dessas outras coisas, e de evitar experimentar algumas outras, ao longo dos nossos estado de vigília e de sonho estamos constantemente a prestar atenção a outras coisas, e assim estamos a negligenciar o "eu", atendendo a ele apenas insuficientemente. Daí que não experienciamos  "eu" como ele realmente é, mas em vez disso confundimo-lo com algumas das outras coisas nos estados de vigília e de sonho que experienciamos mais intimamente, ou seja, o nosso corpo e mente.

Uma vez que experienciamos outras coisas somente quando experienciamos um corpo e mente como "eu", ao prestar atenção e assim experienciar qualquer outra coisa estamos a perpetuar a ilusão de que "eu" é um corpo e mente. Portanto, a fim de furar através desta ilusão e a destruir, precisamos de prestar atenção apenas ao "eu" e assim tentar expericenciar o que é que este "eu" realmente é.  

Portanto, uma vez que a teoria por trás da prática da auto-investigação (ātma-vicāra) ensinada por Sri Ramana é tão simples, clara e directa, e uma vez que é baseada numa análise lógica da nossa própria experiência de nós mesmos nos nossos três estados alternados de vigília, sonho e sono profundo, é difícil encontrar qualquer razão para supor que poderia ser 'intencionalmente enganadora', como Jas sugere.

Além disso, existe uma conexão clara e lógica entre esta prática de tentar experienciar "eu" de forma clara e em completo isolamento de tudo o mais, e o seu objectivo, que é experienciar claramente o que este "eu" realmente é. Ou seja, como esta prática pode resultar para atingir esse objectivo, e por que razão é o único meio para o alcançar, é claro, lógico e directo, e não nos obriga a acreditar em qualquer teoria que não se baseie numa análise clara e muito simples do que já experienciamos.

Em contraste, a maioria de outras práticas espirituais requer que acreditemos em alguma teoria (geralmente muito elaborada) que implica a crença em coisas que realmente não experienciámos e que portanto não são de modo algum uma verdade óbvia, e a menos que estejamos dispostos a acreditar cegamente em tal teoria, não há conexão lógica clara entre a prática e o objectivo que é suposto ela permitir-nos atingir. Portanto, posso compreender que Jas pode suspeitar de que a orientação dada por algum guru que ensine tal teoria e prática é 'intencionalmente enganadora', mas não vejo qualquer razão para suspeitar de que a orientação clara, lógica e directa dada por Sri Ramana relativa à teoria e prática da auto-investigação é enganadora. 

Por exemplo, se algum guru nos dá a impressão de que, fazendo uma prática espiritual em particular, a nossa mente pode experimentar o que é real, esse guru  está talvez a ser 'intencionalmente enganador', porque a mente nunca pode experienciar o que é real, uma vez que ela própria é irreal, e é o que obscurece a nossa experiência do "Eu" como ele realmente é. Quando a nossa mente tenta experienciar o que "Eu" realmente é, desse modo se dissolve e desaparece, porque é apenas um impostor que se apresenta como "Eu". Portanto, só o que o "Eu" realmente é pode experienciar o que o "Eu" realmente é.

No entanto, ao ensinar-nos a teoria na qual a prática da auto-investigação é baseada, Sri Ramana explica claramente que esta mente é irreal, e que portanto quando ela tenta experienciar quem ou o que sou "eu", ela se dissolve e desaparece na realidade que é na verdade "Eu". Por exemplo, no verso 17 de Upadēśa Undiyār ele diz:


மனத்தி னுருவை மறவா துசாவமனமென வொன்றிலை யுந்தீபற      மார்க்கநே ரார்க்குமி துந்தீபற.
maṉatti ṉuruvai maṟavā dusāvamaṉameṉa voṉḏṟilai yundīpaṟa      mārgganē rārkkumi dundīpaṟa.
பதச்சேதம்: மனத்தின் உருவை மறவாது உசாவ, மனம் என ஒன்று இலை. மார்க்கம் நேர் ஆர்க்கும் இது.
Padacchēdam (separação das palavras): maṉattiṉ uruvai maṟavādu usāva, maṉam eṉa oṉḏṟu ilai. mārggam nēr ārkkum idu.

TraduçãoQuando [alguém] examina a forma da mente sem se esquecer,[será claro que] qualquer coisa como "mente" não existe.Para todos, este é o directo [recto, próprio, correcto ou verdadeiro] caminho.

A mente parece existir apenas enquanto experiencia algo diferente de "Eu", por isso, quando tenta experienciar só "Eu", será privada do suporte em que se baseia para aparentemente existir, e assim começará a dissolver-se e a desaparecer. Portanto, quando perseveramos na nossa prática da auto-investigação e assim experienciamos "Eu" como ele realmente é, nunca mais seremos capazes de experienciar "Eu" como algo diferente disso, e portanto esta mente, que agora parece existir, apresentando-se como "Eu", não será mais capaz de parecer existir.

Assim, uma vez que Sri Ramana coloca todas as suas cartas na mesa desde o início, ensinando-nos com clareza que esta mente não é "Eu" e portanto não é real, não temos nenhuma razão para supor que a orientação que nos dá é 'intencionalmente enganadora'. Nos seus ensinamentos, o que se vê é o que se recebe. Ou seja, uma vez que o seu único objectivo é guiar-nos para investigar a nós mesmos e assim experienciar o que realmente somos, não há nenhuma razão para ele guardar segredo sobre alguma coisa, e por isso ele ensina-nos da forma mais clara e directa que só "Eu" é real e que para experienciarmos o que este "Eu" realmente é devemos tentar prestar atenção a ele apenas.

Quanto à analogia de Jas de alguém 'nos dizer que se olharmos fixamente o tempo suficiente para uma porta ela se abrirá para revelar o céu do outro lado', quando na verdade 'tudo o que acontece é que quando você olha fixamente para a porta, você apaixona-se pela porta, até ao ponto em que já não a vê como o obstáculo para alcançar o céu', não acho que seja uma analogia particularmente adequada para a prática da auto-investigação, porque a porta neste caso é o ego (quer dizer, o que o "Eu" agora parece ser), e de acordo com Sri Ramana, se olhamos fixamente o suficiente para esta 'porta' (isto é, se prestamos atenção de forma aguda e vigilante ao "Eu" apenas), a porta vai se dissolver e desaparecer (uma vez que não é o que parece ser, e portanto não existe realmente, mas é apenas um fantasma sem substância), e nós vamos descobrir então que aquilo para que estávamos a olhar e a experienciar o tempo todo era o 'céu' (isto é, era o que este "Eu" realmente é).

Isto pode ser explicado de forma mais clara com a analogia de uma corda que é confundida como sendo uma cobra. Se olharmos atentamente para essa cobra, ela vai-se dissolver e desaparecer (já que não é o que parecer ser, e portanto não existe realmente como uma cobra), e nós vamos descobrir que o que estávamos a ver era apenas uma corda. Da mesma forma, se olharmos atentamente para o "Eu" que agora parece ser um ego (uma entidade finita que experiencia a si mesma como um corpo e mente), ele vai-se dissolver e desaparecer (já que não é o que parece ser, e portanto realmente não existe como tal), e vamos descobrir que o que estávamos a ver era só o que este "Eu" realmente é.

Jas conclui a partir da analogia da porta para o céu: 'Simplesmente olhar a porta é o céu. Portanto a porta nunca muda ou se abre, mas 'você' ou a sua perspectiva dela, sim'. Se considerarmos isto em termos da cobra e corda em vez da porta e céu, então é verdadeiro dizer que simplesmente olhar para a cobra é ver a corda, e que a cobra nunca muda mas a nossa perspectiva dela sim: isto é, deixamos de a ver como a cobra que parecia ser, porque a reconhecemos como a corda que ela realmente é. Da mesma forma simplesmente prestar atenção apenas ao ego (em completo isolamento de todas as outras coisas que ele confunde serem ele mesmo, nomeadamente o corpo e mente) é atender ao que este "Eu" realmente é, de modo que este "Eu" nunca muda mas a nossa perspectiva sobre ele muda: ou seja, deixamos de o ver como o ego finito  que ele parecia ser, porque o reconhecemos como o infinito, indivisível e sem-outro "Eu" que ele realmente é.

Em relação à ideia de Jas de que 'se você olha fixamente para a porta, você apaixona-se pela porta' e igualmente de que 'se você passar o tempo suficiente consigo mesmo se apaixona [por si mesmo]', é verdade que nos "apaixonamos", mas não com o que parecemos ser (isto é, não pela porta, cobra ou ego) mas sim pelo que realmente somos. Ou seja, prestando atenção ao "Eu" mais e mais intensamente, o ego que ele parece ser começa a dissolver-se e a desaparecer, revelando assim o que "Eu" realmente é, e quanto mais claramente experienciamos "Eu" como realmente é mais o nosso amor por experienciar apenas isso vai aumentar.

Sri Ramana deu-nos os seus ensinamentos em termos muito simples, claros e inequívocos, de modo que não precisamos de os complicar por supor que ele manteve alguma coisa escondida de nós ou que intencionalmente nos enganou. O que ele ensinou é logicamente correcto e não implica qualquer necessidade nossa de acreditar em nada que não seja óbvio, como ele nos salientou, e nos proporcionou os meios para testar e verificar por nós mesmos o que ensinou.

Por isso, apenas estudando e reflectindo sobre os seus ensinamentos podemos entender por que e como a prática de ātma-vicāra ou auto-investigação resulta, e então seremos capazes de embarcar nesta prática com um razoável grau de confiança de que investigando o "Eu" - isto é, tentando concentrar toda a nossa atenção apenas sobre "Eu" - seremos capazes de experienciar o que este "Eu" realmente é.








Tradução: Blog Texto Meditativo