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domingo, 16 de novembro de 2014

I - A Realidade Em Quarenta Versos (Ulladu Narpadu) - Invocação


de BHAGAVAN SRI RAMANA MAHARSHI
_________________________________________
Comentário de "WHO" (K. LAKSHMANA SARMA)

Extrato:
Versículos Invocatórios



http://planet-bharat.blogspot.pt/2013/04/bharatayatra-2013-january-to-march.html



  


INVOCAÇÃO - I



Pode haver um sentimento (consciência) de existência, sem algo que é (existe)?
Pode haver uma verdadeira consciência (Realidade) diferente de "Aquele que é"?

Uma vez que "Aquele que existe" habita, desprovido de pensamentos, no Coração
- Ele próprio se chama Coração -
Quem é que pode meditar sobre "Aquele que é" (Satvastu) e Como meditar?

Saiba que para meditar sobre "Ele", é ser como "Aquele Satvastu é"
- É permanecer no Coração sem pensamentos.


  


      Sri Bhagavan, que sempre permaneceu em Sahaja Samadhi - a experiência de união de Brahman e Atman - ensina neste Texto: REALIDADE EM QUARENTA VERSOS (ULLADU NARPADU) o caminho directo para o estado que ele tinha percebido como sendo a sua própria experiência constante, isto é, o Estado de Libertação, para que os devotos ou aspirantes possam procurar e permanecer nesse estado Imaculado de Atman Não-dual (este estado é diferente de qualquer outra coisa porque é um estado de não dualidade). Não há objecto a ser conhecido; nem há um sujeito, um conhecedor, a alma; portanto, não há conhecimento).


Comentário ao Versículo Invocatório 1


      Apesar de haver três enunciados neste venba*, como o primeiro enunciado tem duas asserções diferentes, podemos considerar que este verso contém quatro enunciados. O tema fulcral do Texto, nomeadamente "Aquilo que é" (Satvastu), é também o fundamento da Invocação. Adicionalmente, é-nos dito que permanecer verdadeiramente como a substância desse Satvastu - e não como se estivéssemos permanentemente separados desse Vastu - constitui a Sua meditação. Como o próprio Bhagavan se encontra sempre estabelecido como a substância d'Aquilo, ele é par excellence o meditador incessante desse Vastu, e podemos considerar que este versículo é igualmente uma invocação a essa Forma de meditação (nomeadamente Bhagavan)!


1) Pode haver um sentimento (consciência) de existência, sem algo que é (existe)?


Aqui, é proposto que se considere a conclusão de que existe um Satvastu (Aquilo que é). Considerando inevitável ou estabelecida a conclusão sobre a irrealidade da tríade aparentemente real - mundo, Deus e jiva, torna-se necessária a Verdade de um substrato que forneça a base para o seu aparecimento. Portanto, definitivamente existe um Satvastu - Aquilo que é - que nas Upanishads se chama de Brahman. Esse é o ensinamento aqui transmitido, e constitui a primeira das duas asserções do mesmo enunciado.


Bhagavan explicou este conteúdo da seguinte forma:

"Toda a gente percebe o mundo e a si mesmo, que percebe o mundo. E considera os dois como reais. Se eles são reais, eles devem continuar a brilhar ininterruptamente, sem desaparecer. Mas brilham apenas intermitentemente e não constantemente. Aparecendo em sonho e em estados de vigília, desaparecem em sono profundo. Por outras palavras, eles aparecem quando a mente se manifesta, e não aparecem quando a mente não se manifesta. Portanto, surgindo e desaparecendo com a mente, eles são co-extensivos com ela. Daí que, o jiva que percebe, e o espectáculo do mundo percebido, são apenas formas-pensamento da mente e não são reais. Aquilo a partir do qual os pensamentos da mente emanam e no qual eles desaparecem é o Verdadeiro Vastu que brilha ininterruptamente."

Um verso no capítulo II da Bhagavad Gita (Nunca há qualquer existência [real] para o irreal; nem há qualquer não-existência para o Real) certifica a verdade aqui declarada, ou seja, a distinção entre o Vastu Real e meras aparências irreais é que, o que aparece de forma intermitente é irreal e o que brilha ininterruptamente é real.** O mesmo conteúdo é ilucidado no Versículo 7 também:


Os dois, o mundo e a mente, surgem e desaparecem juntos simultaneamente; mas o mundo é iluminado apenas pela mente. A Eterna, Perfeita e Toda a Verdade é Aquela apenas, na qual o mundo e a mente surgem e desaparecem,  e que por si só brilha sem se levantar nem se pôr.  


A afirmação de Sri Gaudapada de que "O que não tinha existência no início e não vai existir depois de algum tempo é não-existente, mesmo no período intermédio (durante o qual parece existir)" também vem corroborar esta verdade. Aqueles que aceitam esta definição da Verdade são Advaitinos; os outros são Dvaitinos. No entanto todos os credos são aceitáveis para Sri Bhagavan.


A analogia de uma corda que parece uma cobra é usada para explicar a afirmação aqui enunciada de que, embora o aparecimento do mundo seja irreal, existe um Satwastu como sua base ou substrato. Assim como a corda é real e a cobra uma falsa aparência, os elementos da tríade, o jiva (a alma individual), Deus e jagat*** (o mundo) são irreais, e apenas Brahman é a única Realidade.


Uma vez que nenhuma cobra pode aparecer na ausência de uma corda, a corda, a realidade de base, é chamada de adhisthana - substrato. Como uma cobra é uma mera aparência, imaginada e projectada, é chamada de aropitam - sobreposição. Da mesma forma Brahman - Aquele que é - é o Substrato. O jiva, Deus e o mundo são sobreposições imaginadas sobre Ele.


Esta analogia lança luz sobre uma outra verdade. A aparência da cobra imaginada obscurece a corda - o substrato - e a corda brilha como corda somente quando a cobra imaginada deixa de aparecer, provando assim que é da natureza da sobreposição (aropitam) esconder eficazmente a verdade do substrato (adhisthana). Uma vez que "o que é" é apenas "UM", a falsa aparência imaginada n'Ele apenas O pode velar. Da mesma forma, o mundo sobreposto obstrui e impede a verdade de Brahman (adhisthana) de brilhar. Embora o que é, é a única Realidade, Brahman, o Único, Ele aparece como o mundo e não como "Ele É", em seu Esplendor.


Enquanto Brahman é visto como o mundo, Brahman não brilhará como Brahman. Apenas no estado de Conhecimento, no estado de Experiência de ser o Ser, quando a aparência do mundo se desvanece, Brahman brilhará na sua verdadeira Forma - em todo o esplendor de Uma Realidade Ininterrupta - O Ser.


Esta natureza, de aparência e velamento é chamada de maya. A sua natureza inerente  é fazer o real aparecer como irreal e o irreal aparecer como o real. Precisamente por causa desse poder de maya, o homem permanece em ilusão, tomando o mundo irreal pelo real, e ele próprio - um jiva - inextricavelmente aprisionado nele. Embora, na verdade, não exista tal coisa como maya, a pessoa torna-se consciente desta verdade somente após a Experiência de ser o Ser. No entanto, até ao despontar do Esclarecimento, durante o período em que o mundo parece real, a noção de que maya existe tem de ser aceite. Todos sabem por experiência própria comum que muitas vezes uma coisa parece ser outra coisa. Da mesma forma, apesar de Satvastu - "Aquilo que é" - permanecer sem nomes e formas, transcendendo tempo e espaço, com absoluta não-diferença, apenas Puro Ser e Consciência, nós O percebemos como o mundo. Ao discípulo que questiona a razão para essa distorção, o mestre lhe diz que é a função de maya conhecida como ignorância - a ignorância primordial - ou ajnana.


Mas "Aquilo que é", Satvastu, não sofre nenhuma alteração e permanece sempre o mesmo, nunca se desviando da Sua própria Natureza. Esta verdade é chamada Ajāta Siddhāntam (A Verdade de Não-Tornar-Se). Isto está em sintonia com a Verdade experienciada pelos sábios e pela lógica racional. 


A ilusão mental do observador (jiva) é a causa da aparência de uma cobra numa corda. Sendo este observador senciente - com consciência - o aparecimento de uma cobra é devido à consciência errada gerada pela ilusão mental.  


2) Pode haver uma verdadeira consciência (Realidade) diferente de "Aquele que é"?


A Consciência necessária para Satvastu brilhar, tanto como Ele é na verdade ou como o mundo irreal, não é outra senão o Próprio Satvastu. "Aquilo que é", é Ele mesmo a forma da Consciência; uma massa sólida de jnana (Conhecimento), ou seja, jnana personificado. Na verdade não há outra consciência para além d’Ele, para Ele brilhar, e Ele brilha por Sua própria luz de Consciência, em sua Refulgência Auto-reveladora, ou seja, o Ser é Auto-revelado.


É claro o facto de que apenas Brahman, a forma da Consciência, permanece como a luz reveladora, tanto quando Brahman aparece como o mundo durante o período de ignorância, como quando Brahman brilha como Ele é - como O Ser - simplesmente como Ser Consciência.**** 


Um outro significado que é recolhido nesta frase é que, como não existe Verdadeira Consciência separada de Brahman, aquele que é chamado de jiva, que não tem existência real aparecendo como se fosse diferente de Brahman, é uma consciência espúria. Aquele que, como observador contempla o espectáculo do mundo, é essa consciência espúria, o jiva. Bhagavan explicou que este jiva, o observador, também é uma parte da aparência do mundo, e este tema é clarificado a seguir, no mesmo verso.


Bhagavan dá a este jiva o nome de poliuyir - alma espúria ou irreal ou alma de imitação, num dos versículos suplementares (versículo 17). Cidabhasa - a consciência reflectida ou consciência espúria, de que falam os Textos do Vedanta, é este jiva. Homens sob a influência da ignorância, consideram-no como o 'Ser' ou Atman, dão-lhe o nome de jivatman e a Deus de paramatman, e falam como se houvesse dois Atmans!! A instrução outorgada é que, além de Brahman, Ulladu (Aquilo que é) não há nenhum outro como jiva. Esta é a doutrina da união de Atman e Brahman, o ensinamento central das Upanishads e acolhido por Sri Sankara também. Esta é a Verdade Transcendental que brilha em todo o seu esplendor no Estado de Conhecimento ou no estado de Experiência de ser o Ser, mas nós, na densa escuridão da ignorância, incapazes de compreender esta Verdade, tomamos o jiva espúrio pelo Ser, e tudo o mais como diferente dele.


Do acima exposto claramente resulta que Brahman, Ulladu (Aquilo que é) é a única verdade e é também a Consciência que se revela a Si mesma; apenas Brahman é o Ser (Atman); e não existe nada, senciente ou insenciente, diferente Daquilo. Aquilo permanece sem qualquer tipo de distinção tal como a testemunha e o espectáculo percebido. Esta é de facto a doutrina do Advaita. Advaita significa o Um sem um segundo. 


Aqui não está a ser transmitido que Brahman é Um com Consciência ou Sabedoria ou Conhecimento, mas sim que Ele próprio é Consciência. Qual é então o significado? Aquele que tem consciência ou conhecimento como sua função ou atributo é simplesmente o intelecto, que não é nada mais do que a mente. Consciência ou Conhecimento não é a natureza inata da mente, mas é a sua propriedade ou função. Portanto, este conhecimento da mente é inconstante e impermanente. No estado de sono sem sonhos a consciência da mente desaparece. Ao contrário desta, a Consciência que é a natureza e forma de Brahman é Eterna e imutável porque a Consciência não é Sua função. A Consciência inalienável, a própria forma de Brahman, é imperecível, ao contrário da mente que perde a consciência e se extingue quando mergulha no desfalecimento ou durante o sono. A forma da Sua Consciência é inviolável e não afectada pelo Tempo, espaço ou por qualquer outro factor. Ela permanece por si só, em absoluta 'solidão', mesmo quando todos os mundos se tornam nada, se extinguem.


Embora a afirmação de que "Brahman é a própria forma da Consciência ou Conhecimento" tenha o direito de ser aceite por nós pela pura força do próprio ensinamento, também pode ser verificada através de raciocínio lógico suportado pelo método de inferência. A primeira das duas asserções do primeiro enunciado contém esse tipo de raciocínio, em que percebemos que Brahman é realmente a origem de onde a mente e os pensamentos surgem, e na qual desaparecem. A mente é senciente ou um objecto com consciência, o que implica que o objecto de onde surge, ou é com consciência ou é a própria Consciência. Se for meramente com consciência, torna-se apenas um outro objecto como a mente e não pode ser Sat ou uma entidade permanente, ou "Aquilo que Sempre é". Portanto, "Aquilo que é" nem é insenciente (jada) nem com Consciência. Então o que é? Então, na verdade é Consciência ou Chit ou Chaitanya, é a Própria Senciência. A doutrina conclusiva da totalidade do Vedanta é que o Ser que é Brahman não é Um com Consciência, mas é sim Chaitanya, a Própria Senciência. Por isso é chamado de Sat-Chit.


Existem ainda outros argumentos, e o raciocínio lógico é o seguinte: uma vez que não se pode dizer de Brahman que é Um com consciência, Ele ou é jada - insenciente, ou chaitanya - senciente.   Se não é jada, pode inferir-se que Ele é senciente. Não pode ser chamado de insenciente, porque isso implicaria que Ele não é Auto-refulgente, pois tudo o que é jada ou insenciente, não sendo Auto-revelador, brilha com a luz de alguma outra consciência. Então surge a pergunta "por qual luz de consciência Brahman brilha?"; à qual o indagador responderá "por uma senciência ou consciência que é diferente de Aquilo. "De imediato seria perguntado se esse Chit ou consciência é Sat ou Asat (O teste da Realidade é a continuidade de existência sem mudança - deve ser sempre real; estar presente em todos os tempos; não confinada por nomes e formas ou outras limitações). Não se pode presumir que é asat porque nada pode brilhar pela luz de 'asat'. Se for dito que é 'sat', então Aquilo terá que ser necessariamente sat e chit, o que significa que o mesmo vastu pode ser ambos, sat e chit. Este raciocínio foi aceite e nada nos impede de concluir que o referido sat - Brahman - é também chit. Esta é a conclusão mais lógica. Que Sat, que é o substrato do mundo, é Auto-revelador na Sua própria Auto-refulgência, não necessitando de qualquer outra consciência para O revelar. Se este raciocínio for rejeitado, alegando que esse Sat é não-Auto-refulgente, pela mesma lógica também não se pode presumir que o 'Chit' é Auto-refulgente, e necessitará assim de outro Chit para o iluminar e revelar o chit anterior. Deste modo, a projecção de incontáveis chits não-Auto-refulgentes terá de continuar ad infinitum, e o argumento iria sofrer da falácia de anavasta dosam, de o tornar interminável. Por tudo isto, Brahman, o Satvastu, Aquilo que é, é por si só Chit, é a conclusão justa e lógica, e qualquer coisa em contrário deve ser considerada falaciosa.


Vemos assim de forma conclusiva que a natureza de Brahman possui dois aspectos: nomeadamente 'Existência' (Sat) e 'Consciência' (Chit), vindo desse modo a ser conhecida como Sat-Chit.

Sat significa 'Aquilo que é' e Chit significa 'O Sentimento de Existência' ou 'Consciência' ou Jnana ou Senciência.


Não se deve ceder à ilusão, perguntando: "Isso é tudo Svarupa - a natureza e forma de Brahman?" O que se tem tentado revelar é que a natureza de Brahman é diferente do mundo irreal e da mente, e não é de modo algum uma descrição integral do Svarupa ou da natureza real de Brahman que só pode ser conhecida pela mais directa e imediata experiência e não por qualquer outro modo, lógico ou não.


O facto de que Brahman é a forma de Chit não significa de modo algum que a mente, que é aparentemente senciente, seja na verdade Chit. Que ela é jada ou insenciente, tal como o mundo, é o que é afirmado  e melhor explicado no Versículo 22 do Texto (Ulladu Narpadu):


O Ser - o Senhor, Que é Pura Consciência, empresta a luz da Consciência à mente e brilha dentro da mente (no Coração). Como podemos então conhecê-Lo pela mente, excepto voltando a mente para o interior, para longe dos fenómenos objectivos do mundo, e unificando-a com o Senhor?


Se nós somos, em Verdade, esse Sat-Chit-Ananda, Brahman, por outras palavras, se Aquilo é o nosso Ser, então porque não percebemos a nossa verdadeira Realidade? Por que nos consideramos estes jivas maldosos, ou estes corpos, ou estas pessoas mundanas expostas às amarras do samsara? A frase seguinte fornece a resposta a esta pergunta.


3) Uma vez que "Aquele que existe" habita, desprovido de pensamentos,
    no Coração - Ele próprio se chama Coração - 
    Quem é que pode meditar sobre "Aquele que é" (Satvastu) e Como meditar?


O próprio Bhagavan graciosamente explicou que, nesta frase, a palavra evan, no original Tamil, deve ser tomada em dois sentidos, como "Quem" e "Como".


Este enunciado afirma que Brahman é sem mente e sempre tranquilo. Reside no 'Coração', chamado ullam ou hrdayam. Esse Brahman, "Aquilo que é", brilha como Ele é, apenas no Coração, onde a mente está extinta. Numa mente exteriorizada e activa (numa mente extrovertida), Ele não brilhará como Ele é verdadeiramente, o que significa que Ele aparecerá somente como  a alma individual, Deus e o mundo. Esta é uma das muitas razões por que Brahman está além da contemplação pela mente.


Uma delas está exposta no Versículo 22 acima transcrito - transmitindo a luz da Consciência à mente. Duas razões são aqui postuladas. Uma delas é que a natureza da mente é sobrepor, no Imaculado Brahman Não-dual, diferenças imaginadas e venerá-las como sendo a Realidade. A outra é que um ser senciente - um jiva - não existe separado de Brahman, para O poder contemplar.


Analisemos a primeira. A mente cria um imaginário "dentro" e um imaginário "fora" e ainda cria, no imaginário fora, muitos mundos, os outros jivas ou almas individuais, e Deus. Esta é a natureza inata da mente. Já vimos que Brahman é a única Verdade de base como o substrato para todas essas projecções imaginárias, e como tal elas são meras sobreposições no Brahman. Pela lógica  de que as sobreposições imaginadas escondem e impedem a Verdade fundamental da realidade do terreno subjacente brilhar tal como realmente é, percebemos que o mundo projectado e outros adjuntos externos impedem  o Adhisthana - Brahman - de brilhar como Ele é. Enquanto a mente se mantiver exteriorizada, Brahman aparecerá como o mundo, a alma individual e Deus, e não como Brahman. Mas se a mente se volta para dentro, unindo-se com o Coração - o local da sua origem - dissipa-se a sua natureza como mente. Então, desaparecendo a tríade imaginada, Brahman brilha como o Ser, sem qualquer impedimento; embora a mente não consiga saber nem percepcionar isso.


Embora se fale aqui do "Coração" - ullam - como sendo a morada de Brahman, dado que na verdade Ele não é diferente de Brahman, não é nem um local ou uma morada, nem é Brahman confinado a apenas um lugar específico. Diz-se que o Coração é a morada de Brahman para sublinhar a necessidade de o aspirante desejar a Experiência de Ser o Ser, de se voltar para dentro, abandonando a tendência da mente de ser exteriorizada. Esse ullam, o Coração, que é o próprio Brahman e Brahman é o Coração, é elucidado pelas palavras ullamenum ulla porul - o Satvastu que é ullam.


Dizer que Brahman está no Coração, significa que Ele brilha como Ele é com a submersão da mente, e não brilhará quando a mente exteriorizada se entrega a actividade intensa. Então, a tríade imaginada irá velar Brahman: assim compreende-se que Brahman não poderá ser conhecido por quem tem apegos exteriores.
  

A outra razão avançada é que não há nenhum Ser senciente que não seja Brahman, que seja separado d'Ele, para O contemplar. O jiva que se orgulha de ser conhecedor de outros objectos, já vimos isso, é um jiva espúrio - poliuyir. Quando a mente está voltada para fora, tal pessoa aparecerá como real; mas se a mente, voltada para dentro, desaparece no Coração, ela extingue-se. Sendo uma entidade imaginada, não existe ninguém para contemplar Brahman. Diz-se que Brahman não pode ser contemplado. 


Mas então, existe ou não uma forma de meditar (ulluvadarku) no Ser ou Brahman? O quarto enunciado deste venba dá uma resposta que vem ao encontro desta pergunta.


4) Saiba que para meditar sobre "Ele", é ser como "Aquele Satvastu é".
    É permanecer no Coração sem pensamentos.


O significado desta frase é que a verdadeira meditação sobre a Realidade Suprema (Brahman) é ser como Esse Brahman (Ser) é, no estado livre de pensamentos.


A mente mergulhada interiormente, tornando-se unida como um só com Brahman que não é senão o Coração, perdendo a sua natureza como mente e permanecendo como Ser, 'sem-movimento' e Paz Quiescente, é meditação verdadeira. Este é chamado o Estado de Experiência do Auto-Conhecimento.


Embora seja descrito como 'meditação', não é conduzido pela mente. A contemplação pela mente é acompanhada pela tríade de meditador, objecto de meditação, e a meditação. Mas este estado é desprovido de um triputi. Além disso, como nenhuma outra forma de meditação é aceitável, esta em si mesma é chamada de 'meditação'. Bhagavan costumava dizer, Puja, Visão, Devoção e Conhecimento todos são apenas isto. Todos eles estão contidos neste. Este estado é chamado de Libertação e Turiya. O caminho directo para a mente se tornar voltada para dentro e se afundar no Coração - a Sadhana - é elucidado no Versículo 28 e em alguns outros também.

Assim como uma pessoa mergulha profundamente na água contendo a respiração e a fala para recuperar um objecto caído nela, assim também deve um buscador, com a firme determinação de encontrar a origem de onde surge o ego como "eu", mergulhar fundo no Coração com uma mente aguda e uni-direccionada, controlando o pensamento e a respiração, e conhecê-l'O.



  



Arunachala Grace



  



      Exegese: Brahman, na sua forma nirguna - sem atributos - foi realçado no primeiro Versículo invocatório, mas aparece também com forma e atributos - saguna, em favor de outros devotos. Quando a mente muda para o Estado Sem-Ego, Brahman é nirguna - sem atributos, e é saguna - com atributos, quando a mente é funcional. Então é chamado de Isvara ou Deus. Aqueles que amam a Deus com devoção pura, finalmente oferecem-Lhe o seu próprio ser (o seu ego), tornando-se assim o adequado recipiente da Sua Graça, e obtêm a mesma Experiência Não-dual de Ser o Ser. A demonstração desta verdade forma o conteúdo  do segundo versículo invocatório.


  


INVOCAÇÃO - II



Pessoas virtuosas, tomadas por intenso medo da morte, para afastar esse medo,
procuram o Senhor como refúgio e rendem-se a Ele, Que é livre de nascimento e morte. Assim, o seu ego ('eu'), juntamente com os seus apegos (meu), é destruído.
Tendo-se tornado imortais, irão entreter o pensamento da morte?.



  


Comentário ao Versículo Invocatório 2


      medo da morte assalta todos em algum momento no tempo, mas passa logo depois sem que o choque tenha tido qualquer impacto significativo. Os sentimentos desencadeados por encontros imediatos com a morte são de curta duração e extinguem-se pelo usufruto de objectos de prazer, como boa comida, etc. Mas os homens de maior calibre e feitos de material mais resistente, não permitem que o impacto da morte sobre eles se desvaneça, mas que sempre os lembre de buscar imediatamente um esclarecimento e alcançar uma meta sublime.


Para os homens enredados na maya do mundo e escravizados pela ignorância, os problemas dolorosos da vida do samsara são apenas degraus que conduzem à porta da Libertação. Bhagavan diz:


"Quando alguém sonha durante o sono, enquanto os sonhos são agradáveis e felizes, não acordará do sono, mas visões dolorosas ou assustadoras vão sacudi-lo e acordá-lo. Enquanto o mundo aparentar ser uma extensão de prazer plácido, a pessoa mundana (mergulhada no samsara) não acordará do mundo de maya para a sua própria Verdade. Só os encontros com o aspecto trágico de maya, ou o medo da morte, podem conduzi-la para a Libertação."


Embora se tenha conhecimento da certeza da morte,  o medo da morte não surge intensamente até que se fique cara a cara com ela. O conhecimento nascido da experiência pessoal de que a vida terrena é cheia de sofrimento, leva, através do desapego, em direcção  a nivritti marga, o caminho do afastamento da actividade, ou da renúncia. Alguns personagens altamente ilustres, pelo mero pensamento da própria morte, ou por reflectirem sobre ela, voltam-se  para o caminho  do conhecimento e obtêm a Libertação. O Senhor Buddha e Bhagavan Sri Ramana, que concedeu este Texto, são pessoas assim.


A mente que assim se afastou do mundo mundano e seu cativeiro enleante, caminha sob a influência da Graça do Senhor Mahesa, que é livre de nascimento e morte. Esta descida da Graça volta a mente para o interior e unifica-a com a Realidade Suprema. Quando o sentimento do ego  - o "eu" que surge relacionado com o corpo - em conjunto com as vasanas de várias vidas, é impregnado dessa Realidade Suprema, fica aniquilado. O que permanece é o sem-morte Ser Imortal.


Ahamkara ou o senso-do-ego é a consciência errada de que o próprio corpo é o Ser. Enquanto persistir esta noção errada, a morte do corpo é considerada a nossa própria morte. E o que é aqui revelado, é que o próprio pensamento da morte é destruído com a aniquilação desta consciência errada, 


O coração do ensinamento deste Texto é a investigação do Ser - Atma Vicara -  a sadhana cuja meta é a Libertação. Isso que ajuda, prepara e orienta a sadhana é satyasatya vivekam, o conhecimento discriminativo entre Sat e asat ou comprovação através de discriminação do que é real e irreal. A Busca do Ser confere àquele que busca a realização da experiência do Ser.


Uma análise detalhada do que significa Discriminação, Investigação e Experiência encontra-se em quase todos os versículos. No entanto, a ordem de seriação no Texto, a um olhar mais atento, revela que os versículos que se detêm na Discriminação ocupam o primeiro lugar, aqueles que elucidam sobre a Vicara ou Investigação vêm a seguir, e finalmente vêm aqueles que descrevem a Experiência. Por essa razão, este comentário foi dividido em três grandes títulos, ou seja, Viveka - Discriminação, Vicara - A Busca e Anubhava - A Experiência, a fim de facilitar uma compreensão fácil, em profundidade e abrangente de todas as três componentes deste Texto.




 






* Venba - Uma forma de poesia Tamil clássica.
  O Tamil é uma língua dravídica falada no sul da Índia, Sri Lanka, Myanmar, Malásia,
  Indonésia, Vietname, Singapura.

** O teste da Realidade é a continuidade de existência sem modificação, o que é a evidência de transcendência do tempo e outros elementos da relatividade.

*** Embora o mundo seja um elemento da tríade, na ausência do mundo, os outros dois deixam de existir. Eles existem apenas quando o mundo existe. Portanto, sempre que o mundo é referido, deve inferir-se que inclui os outros dois.

**** A Refulgência de Brahman é na verdade a razão para o aparecimento do mundo. Não é totalmente velado pelo mundo. A Total consciência ininterrupta de Brahman contrai-se em sentimento de ego e revela o mundo.


  


Advaita:    "Não dois", não dual; é um sistema filosófico que sustenta a não realidade, ou
                  ilusão, de tudo aquilo que não seja a Consciência Suprema, Eterna e Infinita
                  (Brahman).
                  O Vedanta caracteriza Brahman como a Realidade (Sat), Consciência (Chit) e
                  Beatitude (Ananda).
Ahamkara: Ego. O "eu" e suas diversas manifestações, identificando-se com elas.
Atman:       É o mais elevado princípio humano, a Essência divina, sem forma e indivisível.
Brahman:  A Realidade Suprema, O Absoluto, O Espírito Divino e Infinito.
Jiva:           Alma individual, considerada como uma manifestação particular de Atman.
Jivatman:   Ser Central, ou Porção do Divino que suporta o Ser individual.
Jnana:       Conhecimento.
Mahesa:    O Senhor Shiva - um dos deuses da trimurti, trindade hinduísta: Shiva é
                  "o Destruidor ou Transformador"; Brahma "o Criador"; Vishnu "o Preservador".
Maya:        Termo filosófico que se refere ao conceito da ilusão que constitui a natureza do
                  universo.
Paramatman: Atman Absoluto, ou Alma Suprema.
Sahaja:      Espontâneo, natural.
Sadhana:   Prática espiritual para levar à meta do Yoga.
Sahaja Samadhi: Perfeito estado natural da consciência, de absorção no Eu superior.
Samsara:   Perambulação. Fluxo incessante de renascimentos através dos mundos.
Vasanas:   Tendências latentes.
Vastu:        A raíz é vas "habitar, viver, permanecer, residir".
                  Arte da ciência da arquitectura e construção em harmonioso fluxo de energia,
                  em integração com a natureza e crenças hindus antigas que utilizam padrões
                  geométricos perfeitos (Yantras), simetria e alinhamentos direccionais.           
                  Toda a Criação é um Vastu.


Gaudapada: Sábio (Séc.VI), uma das figuras mais importantes na Linhagem dos Mestres
                     do Não-dualismo. Foi o autor-compilador da obra Mandukya Karika, um 
                     tratado sistemático, quintessencial, que contém os termos filosóficos que
                     delineiam a filosofia do Advaita Vedanta.

Shankara: (788-820) foi um monge errante indiano. Foi o principal formulador doutrinal do
                     Vedanta não dualista. Foi uma das almas mais excelsas que já encarnaram
                     neste planeta, chegando a ser considerado uma encarnação do deus Hindu 
                     Shiva. A sua vida encontra-se envolta em mistérios e prodígios que a tornam
                     semelhante às de outros insignes mestres espirituais da humanidade, como
                     Jesus, Moisés e Buda.
                     A sua teologia sustenta que a ignorância espiritual (avidya) é causada pela
                     visão de um eu onde não existe eu algum.



  


Tradução: Blog Texto Meditativo

Outros Links visitados: 






sábado, 19 de julho de 2014

A Consciência Fundamental de Ser "Eu Sou"


  

                 





EXCERTOS DE :

A Felicidade e a Arte de Ser

Introdução à filosofia e à prática
dos ensinamentos espirituais de
Bhagavan Sri Ramana

Autor: MICHAEL JAMES







A ÚNICA VERDADE TOTAL, QUE INCLUI TUDO DENTRO DE SI MESMA, É O ESPÍRITO INFINITO, A ÚNICA CONSCIÊNCIA QUE TODOS CONHECEMOS COMO 
<<EU SOU>>.


Tudo o que parece existir, existe só dentro desta consciência.

As múltiplas formas em que as coisas aparecem são irreais; a única substância real de todas as coisas é a consciência em que elas aparecem.

Portanto, a única verdade sobre a qual falam toda as religiões é o espírito único, omni-inclusivo e não-dual em que todas as coisas aparecem e desaparecem.




     Cristo não se tomou erradamente a si mesmo como meramente uma pessoa individual cuja vida estava limitada dentro de um certo âmbito de tempo e espaço. Ele conhecia a si mesmo como o espírito real e eterno <<eu sou>> que não está limitado pelo tempo nem espaço. Por isso é que disse <<Antes que Abraão existisse, eu sou>> (São João 8.58).

A pessoa que foi Jesus Cristo nasceu muito tempo depois de Abraão, mas o espírito que é Jesus Cristo existe sempre e em todo o lugar, transcendendo os limites do tempo e espaço. Dado que esse espírito é atemporal, ele não disse <<Antes que Abraão existisse, eu era>>, mas sim <<Antes que Abraão existisse, eu sou>>.

Assim, esse espírito atemporal <<eu sou>>que Cristo sabia ser o seu próprio ser real, é o mesmo <<eu sou>> que Deus revelou como seu ser real quando disse a Moisés, <<EU SOU O QUE SOU>> (Êxodo 3.14). Portanto, ainda que Cristo nos pareça ser uma pessoa individual separada, ele e seu Deus Pai são de facto uma e a mesma realidade, o espírito que existe dentro de cada um de nós como a consciência fundamental  <<eu sou>>.  Por isso é que ele disse, <<Eu e o [meu] Pai somos um>> (São João 10.30).

Portanto, quando Cristo dizia, <<Eu sou o caminho, a verdade e a vida: ninguém chega ao Pai senão por mim>>  (São João 14.6), pelas palavras <<eu sou>> e <<mim>> ele estava a referir-se não meramente ao indivíduo limitado pelo tempo chamado Jesus, mas sim ao espírito eterno <<eu sou>>, que ele sabia ser o seu ser real. O significado interno das suas palavras, portanto, pode ser expressado assim: <<O espírito "eu sou " é o caminho, a verdade e a vida: nenhum homem chega ao espírito "eu sou", que é o Pai ou fonte de todas as coisas, senão por este mesmo espírito>> .

O espírito <<eu sou>> não é só a verdade ou realidade de todas as coisas, a fonte de onde todas elas se originam, e a vida ou consciência que anima todo o ser senciente, mas é também o único caminho pelo qual podemos voltar à nossa fonte original, a que chamamos com diversos nomes tais como <<Deus>> ou o <<Pai>>. Excepto voltando a atenção para dentro, para o espírito, a consciência que cada um de nós experimenta como  <<eu sou>>, não há nenhum outro caminho para voltar e tornar-se um com a nossa fonte. Portanto, a salvação só pode ser obtida não meramente através da pessoa que era Jesus Cristo, mas sim através do espírito que é Jesus Cristo - o espírito eterno <<eu sou>> que existe dentro de cada um de nós.

Cristo não só afirmou a sua unidade com Deus, seu Pai, ele também quis que nos tornássemos um com ele. Antes de ser preso e crucificado, Cristo orou por nós, <<Pai Santo, ... para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós... como nós somos um: eu neles, e tu em mim, para que sejam perfeitamente um>> (São João 17.11 e 21-23). Quer dizer, o propósito de Cristo era que deixássemos de tomar-nos erradamente como um indivíduo separado de Deus e que nos conhecêssemos como o único espírito indivisível, a pura consciência fundamental  <<eu sou>>, que é a realidade de Deus. Assim, pois, a unidade ou não-dualidade é o propósito central dos ensinamentos espirituais de Jesus Cristo.


     Toda a religião consta de um núcleo vital central de verdade não-dualista, expressada explícita ou implicitamente, e uma grossa couraça externa de crenças, práticas, doutrinas e dogmas dualistas. As diferenças que vemos entre uma religião e outra - as diferenças que ao longo de todos os tempos deram origem a tanto conflito, intolerância e cruel perseguição, e incluso a sangrentas guerras e terrorismo - estão só nas formas superficiais dessas religiões, as suas carapaças externas de crenças e práticas dualistas.

Toda a desarmonia, conflito e contenda que existe entre uma religião e outra surge devido a que a maioria dos seus seguidores está demasiado apegada a um ponto de vista dualista da realidade, que limita a sua visão e os impede de ver o que todas as religiões têm em comum, a saber, a única verdade da não-dualidade subjacente. Portanto, a verdadeira paz e harmonia prevaleceria entre os aderentes das diversas religiões, apenas se todos eles quisessem olhar para além das formas externas dessas religiões e ver a única verdade simples e comum da não-dualidade que reside no coração de todas elas.

Se aceitamos e compreendemos verdadeiramente a verdade da não-dualidade, não teremos motivo para criar desavenças ou lutar com alguém. Em vez disso, estaremos felizes desejando que cada pessoa acredite no que quiser acreditar, porque se uma pessoa está tão apegada à sua individualidade que não quer duvidar da realidade, nenhum tipo de raciocínio ou argumentação a convencerá da verdade da não-dualidade. Portanto, ninguém que verdadeiramente compreenda esta verdade tentará alguma vez convencer a quem não quer. Se alguém tentar forçar a verdade da não-dualidade sobre alguém que não a quer aceitar, só estará a mostrar a sua própria falta de compreensão correcta dessa verdade.

A não-dualidade não é uma religião que necessite de evangelistas para a propagar, ou convertidos que se juntem às suas fileiras. É a verdade e continuará a ser a verdade, tanto se alguém escolhe aceitá-la e compreendê-la, como se não. Portanto, não podemos nem devemos fazer mais do que tornar esta verdade disponível para quem quer que esta disposto a compreendê-la e a aplicá-la na prática.


     Muitas pessoas religiosas crêem que é blasfémia ou sacrilégio dizer que somos um com Deus, devido a que entendem erradamente que esta declaração significa que um indivíduo está pretendendo que ele próprio é Deus. Mas quando dizemos que somos Deus, o que queremos dizer não é que como um indivíduo separado sejamos Deus, o que seria absurdo, mas sim que não somos um indivíduo separado de Deus. Ao negar assim que tenhamos alguma existência ou realidade separados de Deus, estamos afirmando que a realidade que chamamos Deus é una, total e indivisa.

Se em vez disso pretendêssemos que estamos na realidade separados de Deus, como a maioria das pessoas religiosas crê que estamos, isso seria blasfémia ou sacrilégio, devido a que implicaria que Deus não é a única realidade. Se tivéssemos alguma realidade nossa separada de Deus, então ele não seria a verdade total, mas apenas uma parte ou divisão de alguma verdade maior.

Se acreditarmos que a realidade que chamamos Deus é verdadeiramente a infinita <<plenitude de ser>>, o único todo ininterrupto, então devemos aceitar que não pode existir nada como algo diferente dele ou separado dele. Só ele existe verdadeiramente, e tudo o mais que parece existir como separado dele, de facto não é senão uma ilusão ou aparência falsa cuja realidade subjacente é Deus. Somente no estado de não-dualidade perfeita está a perfeita glória, totalidade e plenitude de Deus revelado. Enquanto experimentarmos um estado de aparente dualidade tomando-nos erradamente como um indivíduo separado de Deus, estamos a rebaixá-lo, a desonrá-lo, negando a sua unidade, totalidade e infinitude indivisíveis, e convertendo-o em algo menos que a única realidade existente que Ele é verdadeiramente.


     Ainda que o propósito interior de todas as religiões seja ensinar-nos a verdade da não-dualidade, nas suas escrituras muitas vezes esta verdade é expressada apenas de uma maneira oblíqua, e só pode ser discernida por pessoas capazes de ler nas entrelinhas com verdadeiro entendimento e compreensão. A razão pela qual a verdade não é expressada mais abertamente, de forma clara e simples, em muitas das escrituras das diversas religiões, é que em qualquer ponto do tempo, a maioria das pessoas não alcançou ainda a maturidade espiritual suficiente para ser capaz de digeri-la e assimilá-la, por assim dizer. Essa é a razão por que Cristo disse, <<Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora>> (São João 16.12). Contudo, ainda que a maioria de nós possa ser incapaz de suportar e aceitar a verdade nua e crua da não-dualidade agora, com o passar do tempo alcançaremos finalmente a maturidade espiritual requerida para compreender e aceitar a verdade como ela é, e não meramente como agora gostaríamos que fosse.



A VIDA NESTE MUNDO É UM SONHO QUE ESTÁ OCORRENDO NO GRANDE SONO PROFUNDO DO AUTO-ESQUECIMENTO - ESQUECIMENTO OU IGNORÂNCIA DO NOSSO VERDADEIRO ESTADO DE PURA
AUTO-CONSCIÊNCIA NÃO DUAL.



Até que despertemos deste sono profundo do auto-esquecimento, recobrando o nosso estado de auto-conhecimento verdadeiro e natural, sonhos tais como a vida presente continuarão a ocorrer um após outro. Quando este presente corpo <<morrer>>, quer dizer, quando deixarmos de nos identificar com este corpo, que, pelo nosso formidável poder de imaginação projectámos agora como <<eu>>, e pelo qual vemos o mundo presente, nos submergiremos no sono do auto-esquecimento, mas mais cedo ou mais tarde surgirá de novo para projectar outro corpo sonhado como sendo nós e ver através dele outro mundo sonhado. Este processo de passar de um sonho para outro, no grande sono profundo do auto-esquecimento, é o que se chama <<renascimento>>.

Ao passar assim por uma vida sonhada após outra, sofremos muitas experiências que acendem em nós uma clareza de discriminação espiritual pela qual podemos compreender que a vida como um indivíduo separado é um fluxo constantemente flutuante de experiências agradáveis e penosas, e que, portanto, só podemos experimentar a felicidade perfeita e verdadeira conhecendo o nosso ser real e destruindo assim o engano que nos faz sentir como um indivíduo separado. Assim, pois, a verdade da não-dualidade é a verdade última que todos e cada um de nós virá finalmente a compreender e aceitar.


Contudo, uma mera compreensão e aceitação teórica da verdade da não-dualidade não tem nenhum valor para nós em si mesma, devido a que não eliminará o auto-esquecimento ou a auto-ignorância básica que subjaz ao engano da individualidade.
 A aceitação da verdade da não-dualidade só é de utilidade se nos impulsiona a dirigir a atenção para o nosso ser real - A CONSCIÊNCIA FUNDAMENTAL DE SER, que cada um de nós experimenta como <<EU SOU>>






        Vim a saber acerca do ensinamento espiritual de Bhagavan em 1976, enquanto viajava pela Índia em busca de algo que desse um significado e propósito à minha vida. O pouco que ouvi pela primeira vez sobre a sua vida e ensinamentos despertou o meu interesse, e foi assim que decidi visitar Tiruvannamalai (a cidade no sul da Índia onde Sri Ramana viveu durante cinquenta e quatro anos) com o fim de aprender mais, e acabei por viver lá durante os vinte anos seguintes.

O primeiro livro de Sri Ramana que li foi uma tradução inglesa do seu breve tratado Nan Yar? - Quem sou eu?, que me atraiu de imediato pela simples, clara e contudo muito profunda verdade nele expressa. Ainda que a minha compreensão inicial tenha sido bastante limitada e superficial, foi suficiente para me convencer de que o que Sri Ramana dizia neste pequeno livro era a verdade última.

Portanto, comecei a ler todos os livros disponíveis sobre os ensinamento de Sri Ramana. Em particular, eu quis compreender claramente a maneira de praticar atma-vichara ou <<auto-investigação>>, que Sri Ramana ensinava como o meio directo para obter o auto-conhecimento verdadeiro.

Lamentavelmente, contudo, a maioria das pessoas que haviam registado ou traduzido os ensinamentos de Sri Ramana em inglês, ou que haviam escrito livros em inglês sobre os seus ensinamentos, parecia não ter uma compreensão muito clara, tanto da filosofia como da prática que ele ensinou. De facto, alguns dos mais populares livros em inglês que então estavam disponíveis, davam explicações confusas e erradas sobre a prática da <<auto-investigação>>, de modo que incluso depois da leitura de vários desses livros, ainda não estava seguro sobre o <<método>> ou <<técnica>> exactos para praticar a <<auto-investigação>>. 

Afortunadamente, cerca de duas semanas depois de estar em Tiruvannamalai, emprestaram-me um livro The Path of Sri Ramana de Sri Sadhu Om. Neste livro, Sri Sadhu Om explicava claramente que


"A <<auto-investigação>> é simplesmente a prática da auto-atenção, quer dizer, a prática de retirar a nossa atenção ou poder de conhecer, de todos os pensamentos e objectos, e voltá-la para a consciência fundamental do nosso próprio ser, que experimentamos sempre como <<eu sou>>" 


Tão clara e convincente era esta explicação de Sri Sadhu Om, que não ficou em mim qualquer dúvida de que esse era o significado real do termo atma-vichara ou <<auto-investigação>> usado por Sri Ramana.

Pouco depois de ler o seu livro, encontrei-me com Sri Sadhu Om, e pareceu-me que estava em condições de responder de uma maneira extremamente clara, simples e convincente a todas as perguntas que lhe fiz sobre a filosofia e prática dos ensinamentos de Sri Ramana. Durante os oito anos e meio seguintes, até ao seu falecimento em Março de 1985, tive a fortuna de poder passar a maior parte da minha vida de vigília na companhia de Sri Sadhu Om, e de adquirir através dele uma compreensão clara da filosofia, da ciência e da arte do auto-conhecimento verdadeiro como é ensinado por Sri Ramana.




   

Sri Sadhu Om (1922-1985)


Durante esses anos que passei na companhia de Sri Sadhu Om, sob a sua esclarecida orientação, pude estudar os textos originais em Tamil escritos por Sri Ramana, e outras obras importantes tais como Guru Vachaka Kovai, que é a colecção mais completa e fiável das palavras de Sri Ramana, registadas em versos em Tamil pelo seu principal discípulo, Sri Muruganar. Assim, tive a oportunidade única de obter um profundo conhecimento sobre o ensinamento de Sri Ramana, aprendendo directamente dos textos-fonte, na sua língua original Tamil, com a ajuda e guia pessoal de um dos seus discípulos mais próximos (não simplesmente aqueles que foram abençoados por viverem fisicamente perto dele, mas aqueles que seguiram os seus ensinamentos estreita e fielmente).



Sri Muruganar (1893-1973)



Sri Muruganar
Como Sri Muruganar, Sri Sadhu Om era um inspirado poeta Tamil que dedicou o seu talento e a sua vida inteira a Sri Ramana. Contudo, enquanto Sri Muruganar viveu com Sri Ramana cerca de vinte e sete anos, e desempenhou um papel íntimo e importante na sua vida, obtendo dele muitas das suas obras mais importantes, tais como Upadesa Undiyar, Ulladu Narpadu,  e Anma-Viddai, Sri Sadhu Om viveu com Sri Ramana menos de cinco anos, e portanto não desempenhou nenhum papel significativo na sua vida exterior.

Não obstante, ainda que não tenha tido a mesma oportunidade que Sri Muruganar de gozar exteriormente de uma estreita e íntima relação com Sri Ramana, interiormente Sri Sadhu Om entregou-se inteiramente a ele, voltando a sua mente para si mesmo para se submergir na clara luz da auto-consciência pura, que é a forma verdadeira de Sri Ramana. Assim, a sua vida é um bom exemplo para aqueles de nós que nunca tiveram a oportunidade de conviver com a forma física de Sri Ramana. Como Sri Ramana ensinou, 


O verdadeiro sat-sanga ou associação com o guru não é meramente a associação com a sua forma física, mas sim a associação (sanga) com a sua forma verdadeira, que é o nosso verdadeiro eu real ou ser essencial (sat), a realidade infinita, indivisível, não-dual e absoluta.

A clareza de entendimento única de Sri Sadhu Om, que brilhava através de todas as suas palavras faladas e escritas, brotava tanto da sua devoção sincera e incondicional a Sri Ramana e seus ensinamentos, como da sua própria experiência espiritual profunda, que resultava de tal devoção. Dado que havia apagado inteiramente o seu próprio ego ou sentido de individualidade, ele era como uma lente clara através da qual os ensinamentos de Sri Ramana brilhavam sem obstrução como a perfeita clareza do conhecimento verdadeiro.




     Até que nos entreguemos completamente a ele, permitindo que a nossa mente finita seja consumida inteiramente na clareza infinita da auto-consciência pura, que está sempre brilhando no núcleo íntimo do nosso ser, mas que nós escolhemos ignorar devido ao forte apego ao nosso falso sentido de individualidade e a tudo o que surge dele, nunca poderemos ter uma compreensão dos seus ensinamentos verdadeiramente perfeita.





     Algumas pessoas que não conheciam de perto qualquer um deles costumavam dizer que Sri Sadhu Om era discípulo de Sri Muruganar. Da mesma forma, muitas pessoas que não o compreendiam correctamente acreditavam que Sri Sadhu Om estava actuando como um guru, e que eu era seu discípulo. Contudo, nem Sri Muruganar nem Sri Sadhu Om se consideraram nunca como um guru, porque sabiam pela sua própria experiência directa que não é necessário nunca nenhum intermediário entre Sri Ramana e qualquer dos seus seguidores ou devotos.

Não só não se consideravam como o guru de ninguém, mas também desanimavam activamente a quem quer que fosse de considerá-los como tal, dizendo que se desejamos praticar sinceramente os ensinamentos de Sri Ramana, ele mesmo actuará directamente como nosso guru, proporcionando-nos toda a ajuda e orientação de que necessitemos para voltar a nossa mente para dentro e desse modo submergir e perder a nossa individualidade separada na luz clara do auto-conhecimento verdadeiro, que é a natureza essencial e real do guru.





     Sri Sadhu Om dizia muitas vezes que nenhum discípulo verdadeiro de Sri Ramana pode ser um guru, porque só Sri Ramana é o guru de todos aqueles que são atraídos pelos seus ensinamentos. Sempre que alguém lhe perguntava se não é necessário para nós ter um <<guru vivo>>, Sri Sadhu Om costumava rir e dizer, <<só o guru está vivo, e todos nós estamos mortos>>, e explicava que o guru real não é um corpo físico, mas o espírito sempre-vivo, a consciência de ser infinita que existe dentro de cada um de nós como o nosso verdadeiro eu.

Esse espírito infinito e eterno apareceu na forma física de Sri Ramana para ensinar-nos que nós não somos este corpo mortal que agora tomamos erradamente por nós mesmos, e que para nos conhecermos como realmente somos, devemos retirar a nossa atenção de todos os objectos externos e focalizá-la inteira e exclusivamente no nosso verdadeiro eu ou ser essencial. Tendo-nos dado este ensinamento, a forma física de Sri Ramana serviu ao seu propósito como a manifestação externa do guru eterno, de modo que agora a nossa meta não deve ser encontrar outro <<guru vivo>> (um termo que a maioria das pessoas compreende como uma <<pessoa iluminada>> cujo corpo ainda vive), mas sim encontrar o guru interior real, que é o nosso verdadeiro eu e que está sempre esperando atrair a nossa mente para dentro, para que se submerja e se funda na clareza do auto-conhecimento verdadeiro.

Porque ele nunca foi a forma física que parecia ser, mas foi sempre e será sempre o espírito infinito, que é o nosso verdadeiro eu, o guia de ajuda ou a <<graça>> de Sri Ramana nunca pode ser diminuída de forma alguma, e, portanto, não é menos poderosa agora do que o era quando ele parecia estar vivendo numa forma física. Toda a ajuda e orientação de que necessitamos para obter o auto-conhecimento verdadeiro estão disponíveis para nós exteriormente na forma dos ensinamentos de Sri Ramana, e interiormente como <<eu sou>> (a verdadeira forma de Deus e do guru), de modo que tudo o que necessitamos fazer é voltar a nossa atenção para nós mesmos a fim de experimentar a natureza verdadeira desta consciência <<eu sou>>.





Michael James



Tradução da versão em espanhol
por 'Blog Texto Meditativo'




É uma bênção termos Michael James como nosso guia no caminho de Bhagavan Ramana.

Pranams