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domingo, 16 de novembro de 2014

I - A Realidade Em Quarenta Versos (Ulladu Narpadu) - Invocação


de BHAGAVAN SRI RAMANA MAHARSHI
_________________________________________
Comentário de "WHO" (K. LAKSHMANA SARMA)

Extrato:
Versículos Invocatórios



http://planet-bharat.blogspot.pt/2013/04/bharatayatra-2013-january-to-march.html



  


INVOCAÇÃO - I



Pode haver um sentimento (consciência) de existência, sem algo que é (existe)?
Pode haver uma verdadeira consciência (Realidade) diferente de "Aquele que é"?

Uma vez que "Aquele que existe" habita, desprovido de pensamentos, no Coração
- Ele próprio se chama Coração -
Quem é que pode meditar sobre "Aquele que é" (Satvastu) e Como meditar?

Saiba que para meditar sobre "Ele", é ser como "Aquele Satvastu é"
- É permanecer no Coração sem pensamentos.


  


      Sri Bhagavan, que sempre permaneceu em Sahaja Samadhi - a experiência de união de Brahman e Atman - ensina neste Texto: REALIDADE EM QUARENTA VERSOS (ULLADU NARPADU) o caminho directo para o estado que ele tinha percebido como sendo a sua própria experiência constante, isto é, o Estado de Libertação, para que os devotos ou aspirantes possam procurar e permanecer nesse estado Imaculado de Atman Não-dual (este estado é diferente de qualquer outra coisa porque é um estado de não dualidade). Não há objecto a ser conhecido; nem há um sujeito, um conhecedor, a alma; portanto, não há conhecimento).


Comentário ao Versículo Invocatório 1


      Apesar de haver três enunciados neste venba*, como o primeiro enunciado tem duas asserções diferentes, podemos considerar que este verso contém quatro enunciados. O tema fulcral do Texto, nomeadamente "Aquilo que é" (Satvastu), é também o fundamento da Invocação. Adicionalmente, é-nos dito que permanecer verdadeiramente como a substância desse Satvastu - e não como se estivéssemos permanentemente separados desse Vastu - constitui a Sua meditação. Como o próprio Bhagavan se encontra sempre estabelecido como a substância d'Aquilo, ele é par excellence o meditador incessante desse Vastu, e podemos considerar que este versículo é igualmente uma invocação a essa Forma de meditação (nomeadamente Bhagavan)!


1) Pode haver um sentimento (consciência) de existência, sem algo que é (existe)?


Aqui, é proposto que se considere a conclusão de que existe um Satvastu (Aquilo que é). Considerando inevitável ou estabelecida a conclusão sobre a irrealidade da tríade aparentemente real - mundo, Deus e jiva, torna-se necessária a Verdade de um substrato que forneça a base para o seu aparecimento. Portanto, definitivamente existe um Satvastu - Aquilo que é - que nas Upanishads se chama de Brahman. Esse é o ensinamento aqui transmitido, e constitui a primeira das duas asserções do mesmo enunciado.


Bhagavan explicou este conteúdo da seguinte forma:

"Toda a gente percebe o mundo e a si mesmo, que percebe o mundo. E considera os dois como reais. Se eles são reais, eles devem continuar a brilhar ininterruptamente, sem desaparecer. Mas brilham apenas intermitentemente e não constantemente. Aparecendo em sonho e em estados de vigília, desaparecem em sono profundo. Por outras palavras, eles aparecem quando a mente se manifesta, e não aparecem quando a mente não se manifesta. Portanto, surgindo e desaparecendo com a mente, eles são co-extensivos com ela. Daí que, o jiva que percebe, e o espectáculo do mundo percebido, são apenas formas-pensamento da mente e não são reais. Aquilo a partir do qual os pensamentos da mente emanam e no qual eles desaparecem é o Verdadeiro Vastu que brilha ininterruptamente."

Um verso no capítulo II da Bhagavad Gita (Nunca há qualquer existência [real] para o irreal; nem há qualquer não-existência para o Real) certifica a verdade aqui declarada, ou seja, a distinção entre o Vastu Real e meras aparências irreais é que, o que aparece de forma intermitente é irreal e o que brilha ininterruptamente é real.** O mesmo conteúdo é ilucidado no Versículo 7 também:


Os dois, o mundo e a mente, surgem e desaparecem juntos simultaneamente; mas o mundo é iluminado apenas pela mente. A Eterna, Perfeita e Toda a Verdade é Aquela apenas, na qual o mundo e a mente surgem e desaparecem,  e que por si só brilha sem se levantar nem se pôr.  


A afirmação de Sri Gaudapada de que "O que não tinha existência no início e não vai existir depois de algum tempo é não-existente, mesmo no período intermédio (durante o qual parece existir)" também vem corroborar esta verdade. Aqueles que aceitam esta definição da Verdade são Advaitinos; os outros são Dvaitinos. No entanto todos os credos são aceitáveis para Sri Bhagavan.


A analogia de uma corda que parece uma cobra é usada para explicar a afirmação aqui enunciada de que, embora o aparecimento do mundo seja irreal, existe um Satwastu como sua base ou substrato. Assim como a corda é real e a cobra uma falsa aparência, os elementos da tríade, o jiva (a alma individual), Deus e jagat*** (o mundo) são irreais, e apenas Brahman é a única Realidade.


Uma vez que nenhuma cobra pode aparecer na ausência de uma corda, a corda, a realidade de base, é chamada de adhisthana - substrato. Como uma cobra é uma mera aparência, imaginada e projectada, é chamada de aropitam - sobreposição. Da mesma forma Brahman - Aquele que é - é o Substrato. O jiva, Deus e o mundo são sobreposições imaginadas sobre Ele.


Esta analogia lança luz sobre uma outra verdade. A aparência da cobra imaginada obscurece a corda - o substrato - e a corda brilha como corda somente quando a cobra imaginada deixa de aparecer, provando assim que é da natureza da sobreposição (aropitam) esconder eficazmente a verdade do substrato (adhisthana). Uma vez que "o que é" é apenas "UM", a falsa aparência imaginada n'Ele apenas O pode velar. Da mesma forma, o mundo sobreposto obstrui e impede a verdade de Brahman (adhisthana) de brilhar. Embora o que é, é a única Realidade, Brahman, o Único, Ele aparece como o mundo e não como "Ele É", em seu Esplendor.


Enquanto Brahman é visto como o mundo, Brahman não brilhará como Brahman. Apenas no estado de Conhecimento, no estado de Experiência de ser o Ser, quando a aparência do mundo se desvanece, Brahman brilhará na sua verdadeira Forma - em todo o esplendor de Uma Realidade Ininterrupta - O Ser.


Esta natureza, de aparência e velamento é chamada de maya. A sua natureza inerente  é fazer o real aparecer como irreal e o irreal aparecer como o real. Precisamente por causa desse poder de maya, o homem permanece em ilusão, tomando o mundo irreal pelo real, e ele próprio - um jiva - inextricavelmente aprisionado nele. Embora, na verdade, não exista tal coisa como maya, a pessoa torna-se consciente desta verdade somente após a Experiência de ser o Ser. No entanto, até ao despontar do Esclarecimento, durante o período em que o mundo parece real, a noção de que maya existe tem de ser aceite. Todos sabem por experiência própria comum que muitas vezes uma coisa parece ser outra coisa. Da mesma forma, apesar de Satvastu - "Aquilo que é" - permanecer sem nomes e formas, transcendendo tempo e espaço, com absoluta não-diferença, apenas Puro Ser e Consciência, nós O percebemos como o mundo. Ao discípulo que questiona a razão para essa distorção, o mestre lhe diz que é a função de maya conhecida como ignorância - a ignorância primordial - ou ajnana.


Mas "Aquilo que é", Satvastu, não sofre nenhuma alteração e permanece sempre o mesmo, nunca se desviando da Sua própria Natureza. Esta verdade é chamada Ajāta Siddhāntam (A Verdade de Não-Tornar-Se). Isto está em sintonia com a Verdade experienciada pelos sábios e pela lógica racional. 


A ilusão mental do observador (jiva) é a causa da aparência de uma cobra numa corda. Sendo este observador senciente - com consciência - o aparecimento de uma cobra é devido à consciência errada gerada pela ilusão mental.  


2) Pode haver uma verdadeira consciência (Realidade) diferente de "Aquele que é"?


A Consciência necessária para Satvastu brilhar, tanto como Ele é na verdade ou como o mundo irreal, não é outra senão o Próprio Satvastu. "Aquilo que é", é Ele mesmo a forma da Consciência; uma massa sólida de jnana (Conhecimento), ou seja, jnana personificado. Na verdade não há outra consciência para além d’Ele, para Ele brilhar, e Ele brilha por Sua própria luz de Consciência, em sua Refulgência Auto-reveladora, ou seja, o Ser é Auto-revelado.


É claro o facto de que apenas Brahman, a forma da Consciência, permanece como a luz reveladora, tanto quando Brahman aparece como o mundo durante o período de ignorância, como quando Brahman brilha como Ele é - como O Ser - simplesmente como Ser Consciência.**** 


Um outro significado que é recolhido nesta frase é que, como não existe Verdadeira Consciência separada de Brahman, aquele que é chamado de jiva, que não tem existência real aparecendo como se fosse diferente de Brahman, é uma consciência espúria. Aquele que, como observador contempla o espectáculo do mundo, é essa consciência espúria, o jiva. Bhagavan explicou que este jiva, o observador, também é uma parte da aparência do mundo, e este tema é clarificado a seguir, no mesmo verso.


Bhagavan dá a este jiva o nome de poliuyir - alma espúria ou irreal ou alma de imitação, num dos versículos suplementares (versículo 17). Cidabhasa - a consciência reflectida ou consciência espúria, de que falam os Textos do Vedanta, é este jiva. Homens sob a influência da ignorância, consideram-no como o 'Ser' ou Atman, dão-lhe o nome de jivatman e a Deus de paramatman, e falam como se houvesse dois Atmans!! A instrução outorgada é que, além de Brahman, Ulladu (Aquilo que é) não há nenhum outro como jiva. Esta é a doutrina da união de Atman e Brahman, o ensinamento central das Upanishads e acolhido por Sri Sankara também. Esta é a Verdade Transcendental que brilha em todo o seu esplendor no Estado de Conhecimento ou no estado de Experiência de ser o Ser, mas nós, na densa escuridão da ignorância, incapazes de compreender esta Verdade, tomamos o jiva espúrio pelo Ser, e tudo o mais como diferente dele.


Do acima exposto claramente resulta que Brahman, Ulladu (Aquilo que é) é a única verdade e é também a Consciência que se revela a Si mesma; apenas Brahman é o Ser (Atman); e não existe nada, senciente ou insenciente, diferente Daquilo. Aquilo permanece sem qualquer tipo de distinção tal como a testemunha e o espectáculo percebido. Esta é de facto a doutrina do Advaita. Advaita significa o Um sem um segundo. 


Aqui não está a ser transmitido que Brahman é Um com Consciência ou Sabedoria ou Conhecimento, mas sim que Ele próprio é Consciência. Qual é então o significado? Aquele que tem consciência ou conhecimento como sua função ou atributo é simplesmente o intelecto, que não é nada mais do que a mente. Consciência ou Conhecimento não é a natureza inata da mente, mas é a sua propriedade ou função. Portanto, este conhecimento da mente é inconstante e impermanente. No estado de sono sem sonhos a consciência da mente desaparece. Ao contrário desta, a Consciência que é a natureza e forma de Brahman é Eterna e imutável porque a Consciência não é Sua função. A Consciência inalienável, a própria forma de Brahman, é imperecível, ao contrário da mente que perde a consciência e se extingue quando mergulha no desfalecimento ou durante o sono. A forma da Sua Consciência é inviolável e não afectada pelo Tempo, espaço ou por qualquer outro factor. Ela permanece por si só, em absoluta 'solidão', mesmo quando todos os mundos se tornam nada, se extinguem.


Embora a afirmação de que "Brahman é a própria forma da Consciência ou Conhecimento" tenha o direito de ser aceite por nós pela pura força do próprio ensinamento, também pode ser verificada através de raciocínio lógico suportado pelo método de inferência. A primeira das duas asserções do primeiro enunciado contém esse tipo de raciocínio, em que percebemos que Brahman é realmente a origem de onde a mente e os pensamentos surgem, e na qual desaparecem. A mente é senciente ou um objecto com consciência, o que implica que o objecto de onde surge, ou é com consciência ou é a própria Consciência. Se for meramente com consciência, torna-se apenas um outro objecto como a mente e não pode ser Sat ou uma entidade permanente, ou "Aquilo que Sempre é". Portanto, "Aquilo que é" nem é insenciente (jada) nem com Consciência. Então o que é? Então, na verdade é Consciência ou Chit ou Chaitanya, é a Própria Senciência. A doutrina conclusiva da totalidade do Vedanta é que o Ser que é Brahman não é Um com Consciência, mas é sim Chaitanya, a Própria Senciência. Por isso é chamado de Sat-Chit.


Existem ainda outros argumentos, e o raciocínio lógico é o seguinte: uma vez que não se pode dizer de Brahman que é Um com consciência, Ele ou é jada - insenciente, ou chaitanya - senciente.   Se não é jada, pode inferir-se que Ele é senciente. Não pode ser chamado de insenciente, porque isso implicaria que Ele não é Auto-refulgente, pois tudo o que é jada ou insenciente, não sendo Auto-revelador, brilha com a luz de alguma outra consciência. Então surge a pergunta "por qual luz de consciência Brahman brilha?"; à qual o indagador responderá "por uma senciência ou consciência que é diferente de Aquilo. "De imediato seria perguntado se esse Chit ou consciência é Sat ou Asat (O teste da Realidade é a continuidade de existência sem mudança - deve ser sempre real; estar presente em todos os tempos; não confinada por nomes e formas ou outras limitações). Não se pode presumir que é asat porque nada pode brilhar pela luz de 'asat'. Se for dito que é 'sat', então Aquilo terá que ser necessariamente sat e chit, o que significa que o mesmo vastu pode ser ambos, sat e chit. Este raciocínio foi aceite e nada nos impede de concluir que o referido sat - Brahman - é também chit. Esta é a conclusão mais lógica. Que Sat, que é o substrato do mundo, é Auto-revelador na Sua própria Auto-refulgência, não necessitando de qualquer outra consciência para O revelar. Se este raciocínio for rejeitado, alegando que esse Sat é não-Auto-refulgente, pela mesma lógica também não se pode presumir que o 'Chit' é Auto-refulgente, e necessitará assim de outro Chit para o iluminar e revelar o chit anterior. Deste modo, a projecção de incontáveis chits não-Auto-refulgentes terá de continuar ad infinitum, e o argumento iria sofrer da falácia de anavasta dosam, de o tornar interminável. Por tudo isto, Brahman, o Satvastu, Aquilo que é, é por si só Chit, é a conclusão justa e lógica, e qualquer coisa em contrário deve ser considerada falaciosa.


Vemos assim de forma conclusiva que a natureza de Brahman possui dois aspectos: nomeadamente 'Existência' (Sat) e 'Consciência' (Chit), vindo desse modo a ser conhecida como Sat-Chit.

Sat significa 'Aquilo que é' e Chit significa 'O Sentimento de Existência' ou 'Consciência' ou Jnana ou Senciência.


Não se deve ceder à ilusão, perguntando: "Isso é tudo Svarupa - a natureza e forma de Brahman?" O que se tem tentado revelar é que a natureza de Brahman é diferente do mundo irreal e da mente, e não é de modo algum uma descrição integral do Svarupa ou da natureza real de Brahman que só pode ser conhecida pela mais directa e imediata experiência e não por qualquer outro modo, lógico ou não.


O facto de que Brahman é a forma de Chit não significa de modo algum que a mente, que é aparentemente senciente, seja na verdade Chit. Que ela é jada ou insenciente, tal como o mundo, é o que é afirmado  e melhor explicado no Versículo 22 do Texto (Ulladu Narpadu):


O Ser - o Senhor, Que é Pura Consciência, empresta a luz da Consciência à mente e brilha dentro da mente (no Coração). Como podemos então conhecê-Lo pela mente, excepto voltando a mente para o interior, para longe dos fenómenos objectivos do mundo, e unificando-a com o Senhor?


Se nós somos, em Verdade, esse Sat-Chit-Ananda, Brahman, por outras palavras, se Aquilo é o nosso Ser, então porque não percebemos a nossa verdadeira Realidade? Por que nos consideramos estes jivas maldosos, ou estes corpos, ou estas pessoas mundanas expostas às amarras do samsara? A frase seguinte fornece a resposta a esta pergunta.


3) Uma vez que "Aquele que existe" habita, desprovido de pensamentos,
    no Coração - Ele próprio se chama Coração - 
    Quem é que pode meditar sobre "Aquele que é" (Satvastu) e Como meditar?


O próprio Bhagavan graciosamente explicou que, nesta frase, a palavra evan, no original Tamil, deve ser tomada em dois sentidos, como "Quem" e "Como".


Este enunciado afirma que Brahman é sem mente e sempre tranquilo. Reside no 'Coração', chamado ullam ou hrdayam. Esse Brahman, "Aquilo que é", brilha como Ele é, apenas no Coração, onde a mente está extinta. Numa mente exteriorizada e activa (numa mente extrovertida), Ele não brilhará como Ele é verdadeiramente, o que significa que Ele aparecerá somente como  a alma individual, Deus e o mundo. Esta é uma das muitas razões por que Brahman está além da contemplação pela mente.


Uma delas está exposta no Versículo 22 acima transcrito - transmitindo a luz da Consciência à mente. Duas razões são aqui postuladas. Uma delas é que a natureza da mente é sobrepor, no Imaculado Brahman Não-dual, diferenças imaginadas e venerá-las como sendo a Realidade. A outra é que um ser senciente - um jiva - não existe separado de Brahman, para O poder contemplar.


Analisemos a primeira. A mente cria um imaginário "dentro" e um imaginário "fora" e ainda cria, no imaginário fora, muitos mundos, os outros jivas ou almas individuais, e Deus. Esta é a natureza inata da mente. Já vimos que Brahman é a única Verdade de base como o substrato para todas essas projecções imaginárias, e como tal elas são meras sobreposições no Brahman. Pela lógica  de que as sobreposições imaginadas escondem e impedem a Verdade fundamental da realidade do terreno subjacente brilhar tal como realmente é, percebemos que o mundo projectado e outros adjuntos externos impedem  o Adhisthana - Brahman - de brilhar como Ele é. Enquanto a mente se mantiver exteriorizada, Brahman aparecerá como o mundo, a alma individual e Deus, e não como Brahman. Mas se a mente se volta para dentro, unindo-se com o Coração - o local da sua origem - dissipa-se a sua natureza como mente. Então, desaparecendo a tríade imaginada, Brahman brilha como o Ser, sem qualquer impedimento; embora a mente não consiga saber nem percepcionar isso.


Embora se fale aqui do "Coração" - ullam - como sendo a morada de Brahman, dado que na verdade Ele não é diferente de Brahman, não é nem um local ou uma morada, nem é Brahman confinado a apenas um lugar específico. Diz-se que o Coração é a morada de Brahman para sublinhar a necessidade de o aspirante desejar a Experiência de Ser o Ser, de se voltar para dentro, abandonando a tendência da mente de ser exteriorizada. Esse ullam, o Coração, que é o próprio Brahman e Brahman é o Coração, é elucidado pelas palavras ullamenum ulla porul - o Satvastu que é ullam.


Dizer que Brahman está no Coração, significa que Ele brilha como Ele é com a submersão da mente, e não brilhará quando a mente exteriorizada se entrega a actividade intensa. Então, a tríade imaginada irá velar Brahman: assim compreende-se que Brahman não poderá ser conhecido por quem tem apegos exteriores.
  

A outra razão avançada é que não há nenhum Ser senciente que não seja Brahman, que seja separado d'Ele, para O contemplar. O jiva que se orgulha de ser conhecedor de outros objectos, já vimos isso, é um jiva espúrio - poliuyir. Quando a mente está voltada para fora, tal pessoa aparecerá como real; mas se a mente, voltada para dentro, desaparece no Coração, ela extingue-se. Sendo uma entidade imaginada, não existe ninguém para contemplar Brahman. Diz-se que Brahman não pode ser contemplado. 


Mas então, existe ou não uma forma de meditar (ulluvadarku) no Ser ou Brahman? O quarto enunciado deste venba dá uma resposta que vem ao encontro desta pergunta.


4) Saiba que para meditar sobre "Ele", é ser como "Aquele Satvastu é".
    É permanecer no Coração sem pensamentos.


O significado desta frase é que a verdadeira meditação sobre a Realidade Suprema (Brahman) é ser como Esse Brahman (Ser) é, no estado livre de pensamentos.


A mente mergulhada interiormente, tornando-se unida como um só com Brahman que não é senão o Coração, perdendo a sua natureza como mente e permanecendo como Ser, 'sem-movimento' e Paz Quiescente, é meditação verdadeira. Este é chamado o Estado de Experiência do Auto-Conhecimento.


Embora seja descrito como 'meditação', não é conduzido pela mente. A contemplação pela mente é acompanhada pela tríade de meditador, objecto de meditação, e a meditação. Mas este estado é desprovido de um triputi. Além disso, como nenhuma outra forma de meditação é aceitável, esta em si mesma é chamada de 'meditação'. Bhagavan costumava dizer, Puja, Visão, Devoção e Conhecimento todos são apenas isto. Todos eles estão contidos neste. Este estado é chamado de Libertação e Turiya. O caminho directo para a mente se tornar voltada para dentro e se afundar no Coração - a Sadhana - é elucidado no Versículo 28 e em alguns outros também.

Assim como uma pessoa mergulha profundamente na água contendo a respiração e a fala para recuperar um objecto caído nela, assim também deve um buscador, com a firme determinação de encontrar a origem de onde surge o ego como "eu", mergulhar fundo no Coração com uma mente aguda e uni-direccionada, controlando o pensamento e a respiração, e conhecê-l'O.



  



Arunachala Grace



  



      Exegese: Brahman, na sua forma nirguna - sem atributos - foi realçado no primeiro Versículo invocatório, mas aparece também com forma e atributos - saguna, em favor de outros devotos. Quando a mente muda para o Estado Sem-Ego, Brahman é nirguna - sem atributos, e é saguna - com atributos, quando a mente é funcional. Então é chamado de Isvara ou Deus. Aqueles que amam a Deus com devoção pura, finalmente oferecem-Lhe o seu próprio ser (o seu ego), tornando-se assim o adequado recipiente da Sua Graça, e obtêm a mesma Experiência Não-dual de Ser o Ser. A demonstração desta verdade forma o conteúdo  do segundo versículo invocatório.


  


INVOCAÇÃO - II



Pessoas virtuosas, tomadas por intenso medo da morte, para afastar esse medo,
procuram o Senhor como refúgio e rendem-se a Ele, Que é livre de nascimento e morte. Assim, o seu ego ('eu'), juntamente com os seus apegos (meu), é destruído.
Tendo-se tornado imortais, irão entreter o pensamento da morte?.



  


Comentário ao Versículo Invocatório 2


      medo da morte assalta todos em algum momento no tempo, mas passa logo depois sem que o choque tenha tido qualquer impacto significativo. Os sentimentos desencadeados por encontros imediatos com a morte são de curta duração e extinguem-se pelo usufruto de objectos de prazer, como boa comida, etc. Mas os homens de maior calibre e feitos de material mais resistente, não permitem que o impacto da morte sobre eles se desvaneça, mas que sempre os lembre de buscar imediatamente um esclarecimento e alcançar uma meta sublime.


Para os homens enredados na maya do mundo e escravizados pela ignorância, os problemas dolorosos da vida do samsara são apenas degraus que conduzem à porta da Libertação. Bhagavan diz:


"Quando alguém sonha durante o sono, enquanto os sonhos são agradáveis e felizes, não acordará do sono, mas visões dolorosas ou assustadoras vão sacudi-lo e acordá-lo. Enquanto o mundo aparentar ser uma extensão de prazer plácido, a pessoa mundana (mergulhada no samsara) não acordará do mundo de maya para a sua própria Verdade. Só os encontros com o aspecto trágico de maya, ou o medo da morte, podem conduzi-la para a Libertação."


Embora se tenha conhecimento da certeza da morte,  o medo da morte não surge intensamente até que se fique cara a cara com ela. O conhecimento nascido da experiência pessoal de que a vida terrena é cheia de sofrimento, leva, através do desapego, em direcção  a nivritti marga, o caminho do afastamento da actividade, ou da renúncia. Alguns personagens altamente ilustres, pelo mero pensamento da própria morte, ou por reflectirem sobre ela, voltam-se  para o caminho  do conhecimento e obtêm a Libertação. O Senhor Buddha e Bhagavan Sri Ramana, que concedeu este Texto, são pessoas assim.


A mente que assim se afastou do mundo mundano e seu cativeiro enleante, caminha sob a influência da Graça do Senhor Mahesa, que é livre de nascimento e morte. Esta descida da Graça volta a mente para o interior e unifica-a com a Realidade Suprema. Quando o sentimento do ego  - o "eu" que surge relacionado com o corpo - em conjunto com as vasanas de várias vidas, é impregnado dessa Realidade Suprema, fica aniquilado. O que permanece é o sem-morte Ser Imortal.


Ahamkara ou o senso-do-ego é a consciência errada de que o próprio corpo é o Ser. Enquanto persistir esta noção errada, a morte do corpo é considerada a nossa própria morte. E o que é aqui revelado, é que o próprio pensamento da morte é destruído com a aniquilação desta consciência errada, 


O coração do ensinamento deste Texto é a investigação do Ser - Atma Vicara -  a sadhana cuja meta é a Libertação. Isso que ajuda, prepara e orienta a sadhana é satyasatya vivekam, o conhecimento discriminativo entre Sat e asat ou comprovação através de discriminação do que é real e irreal. A Busca do Ser confere àquele que busca a realização da experiência do Ser.


Uma análise detalhada do que significa Discriminação, Investigação e Experiência encontra-se em quase todos os versículos. No entanto, a ordem de seriação no Texto, a um olhar mais atento, revela que os versículos que se detêm na Discriminação ocupam o primeiro lugar, aqueles que elucidam sobre a Vicara ou Investigação vêm a seguir, e finalmente vêm aqueles que descrevem a Experiência. Por essa razão, este comentário foi dividido em três grandes títulos, ou seja, Viveka - Discriminação, Vicara - A Busca e Anubhava - A Experiência, a fim de facilitar uma compreensão fácil, em profundidade e abrangente de todas as três componentes deste Texto.




 






* Venba - Uma forma de poesia Tamil clássica.
  O Tamil é uma língua dravídica falada no sul da Índia, Sri Lanka, Myanmar, Malásia,
  Indonésia, Vietname, Singapura.

** O teste da Realidade é a continuidade de existência sem modificação, o que é a evidência de transcendência do tempo e outros elementos da relatividade.

*** Embora o mundo seja um elemento da tríade, na ausência do mundo, os outros dois deixam de existir. Eles existem apenas quando o mundo existe. Portanto, sempre que o mundo é referido, deve inferir-se que inclui os outros dois.

**** A Refulgência de Brahman é na verdade a razão para o aparecimento do mundo. Não é totalmente velado pelo mundo. A Total consciência ininterrupta de Brahman contrai-se em sentimento de ego e revela o mundo.


  


Advaita:    "Não dois", não dual; é um sistema filosófico que sustenta a não realidade, ou
                  ilusão, de tudo aquilo que não seja a Consciência Suprema, Eterna e Infinita
                  (Brahman).
                  O Vedanta caracteriza Brahman como a Realidade (Sat), Consciência (Chit) e
                  Beatitude (Ananda).
Ahamkara: Ego. O "eu" e suas diversas manifestações, identificando-se com elas.
Atman:       É o mais elevado princípio humano, a Essência divina, sem forma e indivisível.
Brahman:  A Realidade Suprema, O Absoluto, O Espírito Divino e Infinito.
Jiva:           Alma individual, considerada como uma manifestação particular de Atman.
Jivatman:   Ser Central, ou Porção do Divino que suporta o Ser individual.
Jnana:       Conhecimento.
Mahesa:    O Senhor Shiva - um dos deuses da trimurti, trindade hinduísta: Shiva é
                  "o Destruidor ou Transformador"; Brahma "o Criador"; Vishnu "o Preservador".
Maya:        Termo filosófico que se refere ao conceito da ilusão que constitui a natureza do
                  universo.
Paramatman: Atman Absoluto, ou Alma Suprema.
Sahaja:      Espontâneo, natural.
Sadhana:   Prática espiritual para levar à meta do Yoga.
Sahaja Samadhi: Perfeito estado natural da consciência, de absorção no Eu superior.
Samsara:   Perambulação. Fluxo incessante de renascimentos através dos mundos.
Vasanas:   Tendências latentes.
Vastu:        A raíz é vas "habitar, viver, permanecer, residir".
                  Arte da ciência da arquitectura e construção em harmonioso fluxo de energia,
                  em integração com a natureza e crenças hindus antigas que utilizam padrões
                  geométricos perfeitos (Yantras), simetria e alinhamentos direccionais.           
                  Toda a Criação é um Vastu.


Gaudapada: Sábio (Séc.VI), uma das figuras mais importantes na Linhagem dos Mestres
                     do Não-dualismo. Foi o autor-compilador da obra Mandukya Karika, um 
                     tratado sistemático, quintessencial, que contém os termos filosóficos que
                     delineiam a filosofia do Advaita Vedanta.

Shankara: (788-820) foi um monge errante indiano. Foi o principal formulador doutrinal do
                     Vedanta não dualista. Foi uma das almas mais excelsas que já encarnaram
                     neste planeta, chegando a ser considerado uma encarnação do deus Hindu 
                     Shiva. A sua vida encontra-se envolta em mistérios e prodígios que a tornam
                     semelhante às de outros insignes mestres espirituais da humanidade, como
                     Jesus, Moisés e Buda.
                     A sua teologia sustenta que a ignorância espiritual (avidya) é causada pela
                     visão de um eu onde não existe eu algum.



  


Tradução: Blog Texto Meditativo

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segunda-feira, 24 de março de 2014

Conversando com Sri Ramana Maharshi - 'Talk 146'


Alan Jacobs lê Sri Ramana Maharshi - 'Talk 146'

   
   Se há uma meta a ser alcançada 
   ela não pode ser permanente.
   A meta já tem que estar lá

   Buscamos alcançar a meta com o nosso ego
   mas a meta existe antes do ego

   O que está na meta
   é ainda anterior ao nascimento
   ao nascimento do ego

   Porque nós existimos
   o ego parece existir também

   Se olharmos para o Eu superior como ego
   então nos tornamos o ego
   se for como mente, nos tornamos a mente
   se for como corpo, nos tornamos o corpo

   É o pensamento que constrói cenários
   de múltiplas maneiras

   A sombra na água parece movimentar-se
   Consegue alguém parar o movimento da sombra?

   Se a sombra parasse de se mover
   não se notaria a água
   mas apenas a luz

   De modo semelhante não tome conhecimento do ego e suas actividades
   e veja apenas a luz que está por trás.
   O ego é o pensamento-eu
   O verdadeiro 'Eu' é o Ser

   A Realização já está lá
   O estado livre de pensamento
   é o único estado verdadeiro

   Não existe tal acção, de Realização

   Existe alguém que não esteja realizando o Ser?

   Alguém nega a sua própria existência?

   Falar de Realização implica dois 'eu'
   - um para realizar
   - outro para ser realizado

   O que ainda não está realizado
   é objecto de busca para ser realizado

   Uma vez que admitimos a nossa existência
   como é possível não conhecermos o Ser?

   Oh, por causa dos pensamentos - a mente!
   Isso mesmo!

   É a mente que se interpõe e encobre a nossa felicidade

   Como sabemos que existimos?

   Se você disser que é por causa do mundo à nossa volta
   então como sabe que você existia durante o sono profundo?

   Como se livrar da mente?
   É a mente que quer matar a si mesma?
   A mente não pode matar a si mesma!

   Portanto, a sua tarefa é descobrir a verdadeira natureza da mente
   e então você vai perceber que não existe mente

   Quando se busca o Ser
   a mente não está em lugar nenhum

   Permanecendo no Ser
   não é preciso preocupar-se com a mente

   Como se livrar do medo?
   O que é o medo?
   É apenas um pensamento

   Se houver alguma coisa além do Ser
   haverá motivo para recear

   Quem vê o segundo (qualquer coisa exterior)?

   Primeiro, o ego surge e vê objectos como algo externo

   Se o ego não surgir
   apenas o Ser existe
   e não há um segundo (nada exterior)

   Qualquer coisa externa a si
   implica o observador interno

   Buscando-o
   Não surgirá nenhuma dúvida, nenhum medo
   - não só o medo, mas todos os outros pensamentos
   centrados em torno do ego desaparecerão com ele

   Este método parece mais rápido
   que o habitual método de cultivar as qualidades supostamente necessárias para
   se obter a salvação?

   Todas as más qualidades estão centradas em torno do ego

   Quando o ego desaparece
   a Realização surge por si só

   Não há boas nem más qualidade no Ser
   O Ser é livre de todas as qualidades

   Qualidades pertencem à mente apenas

   O Ser está além da qualidade

   Se houver uma unidade
   haverá também dualidade

   O número um dá origem aos outros números

   A verdade não está no um nem no dois
   É o QUE É!

   a dificuldade é estar no estado livre de pensamentos.

   A Realidade é simplesmente a perda do ego

   Destrua o ego buscando a identidade do ego

   Porque o ego não é uma entidade
   ele automaticamente desaparecerá e a Realidade brilhará por si só

   Este é o método directo
   Enquanto todos os outros métodos são praticados
   apenas retendo o ego

   Nesses caminhos surgem tantas dúvidas
   e a eterna questão final continua sem ser abordada
   Mas neste método a pergunta final é a única
   e é levantada logo desde início.

   Não são necessáriasadhanas para se empenhar nesta busca.


       "Conversa º 146" - 26 de Janeiro de 1936
       Talks with Sri Ramana Maharshi



        "Você já viu Deus?",  perguntei.  "E se já viu,  pode permitir-me que eu O veja?  Estou disposto a pagar qualquer preço,  mesmo a minha vida,  mas  a sua parte do negócio é que deve mostrar-me Deus''.
       ''Não," respondeu ele (Ramana Maharshi). "Não posso mostrar-lhe Deus ou permitir que você veja Deus, porque Deus não é um objecto que pode ser visto. Deus é o sujeito. Deus é Aquele Que vê. Não se preocupe com os objectos que podem ser vistos. Descubra quem é que vê." Ele também acrescentou, "Você é o único Deus", como se me repreendesse por procurar um Deus que está fora e para além de mim. Ao concluir as suas palavras, ele olhou para mim, e quando fixou os seus olhos nos meus, o meu corpo inteiro começou a tremer e a abanar. Uma emoção de energia nervosa disparou por todo o meu corpo. Os meus nervos pareciam dançar e o meu cabelo ficou em pé. Dentro de mim, tomei consciência do Coração espiritual. Não o coração físico, mas sim a fonte e o suporte de tudo o que existe. Dentro do Coração eu vi ou senti algo como um botão fechado. Era muito brilhante e azulado. Com o Maharshi a olhar para mim, e eu num estado de silêncio interior, senti este botão a abrir e a florir. Uso a palavra "botão", mas esta não é uma descrição exacta. Seria mais correcto dizer que algo, como um botão, se abriu e floresceu dentro de mim, no Coração. E quando eu digo "Coração", não quero dizer que este florescer estivesse localizado num local particular no corpo. Este Coração, este Coração do meu Coração, não estava nem dentro nem fora do meu corpo. Não consigo dar uma descrição mais exacta do que aconteceu.


         Encontro de Papaji com Ramana Maharshi
       Excerto da biografia de H.W.L. Poonja aka Papaji,





A  pedra angular do ensinamento de Ramana Maharshi é a sua Auto-Inquirição ou Atma Vichara – o seu infalível e directo caminho para a auto-realização, juntamente com a total entrega devocional a Deus, ao Ser, ao Guru. 


De um modo geral, Sri Bhagavan diz-nos que o Eu imortal, ou Sat-Chit-Ananda ou Pura Existência-Consciência-Bem Aventurança já está lá, é inerente a cada um de nós. A dificuldade é que não reconhecemos "Isso", a nossa "Verdadeira Natureza" ou "Eu-dade" essencial, porque está velado e obscurecido por muitas tendências latentes e hábitos da mente egóica que funciona como um espelho e projecta um sonho do mundo, do corpo e da mente. A nossa identificação com a mente e o corpo é a principal razão para a nossa incapacidade de conhecer a nós mesmos como realmente somos.


Através da auto-inquirição persistente, devoção e entrega da mente egóica a Deus ou ao Sat-Guru no Coração espiritual, este obscurecimento e identificação é gradualmente e graciosamente removido até que o Ser imortal é realizado. Esse é o poder da consciência absoluta e é conhecido. O mundo é visto como real, porque o substrato é percebido como sendo Brahman.




      Em Janeiro de 1938 Somerset Maugham, o romancista britânico, visitou Sri Ramanashram por algumas horas. O breve contacto que teve com Bhagavan ins-pirou Maugham de tal modo,  que este decidiu tomá-lo como modelo para  um Guru ficcional em O Fio da Navalha, um romance seu que foi publicado poucos anos depois, em 1944. Maugham escreveu também uma narrativa não ficcional da sua visita num ensaio intitulado "O Santo",  que foi publicado 20 anos após o encontro, em 1958. O relato a seguir, que foi extraído deste ensaio, regista as impressões de Maugham sobre este encontro com Bhagavan.


     "Ele proferiu algumas palavras de saudação cordial e sentou-se no chão, não muito longe do estrado em que eu estava deitado. Após os primeiros minutos, durante os quais os seus olhos, com uma suave benignidade, repousaram sobre o meu rosto, ele deixou de olhar para mim, mas, com um olhar de soslaio de fixidez peculiar, observou, por assim dizer, por cima do meu ombro. O seu corpo estava absolutamente imóvel, mas de vez em quando um dos seus pés batia ao de leve no chão de terra. Ele permaneceu assim, imóvel, durante cerca quinze minutos; disseram-me mais tarde que ele estava a concentrar-se em meditação sobre mim. Então ele regressou, se assim se pode dizer, e novamente olhou para mim. Perguntou-me se eu queria dizer -lhe alguma coisa, ou fazer alguma pergunta. Eu sentia-me fraco e doente e disse-o; ao que ele sorriu e disse: "O silêncio é também conversação". Ele virou a cabeça um pouco e retomou a sua meditação concentrada, olhando novamente, por assim dizer, por cima do meu ombro. Ninguém disse uma palavra; as outras pessoas na cabana, de pé junto à porta, mantinham os seus olhos fixos nele. Depois de outros quinze minutos, levantou-se, curvado, sorriu em despedida, e, lentamente, apoiado na sua bengala, saiu da cabana coxeando, seguido pelos seus discípulos."


         Excerto de "O Fio da Navalha" de Somerset Maugham
  





      Não há mistério maior do que este: Nós mesmos, sendo a realidade, procuramos alcançar a realidade. Pensamos que há algo que esconde a nossa realidade, e que deve ser destruído antes de a realidade ser alcançada. É ridículo! Haverá um dia em que você mesmo vai rir dos seus esforços passados. Aquilo que será no dia em que você rir, também é aqui e agora. Portanto, este é um grande jogo de fingimento? Sim! No Yoga Vasishta diz-se que o real está escondido de nós e o que é falso é revelado como verdadeiro. Estamos na verdade apenas experienciando a realidade. Ainda assim, não sabemos isso. Esta não é a maravilha das maravilhas? A investigação "Quem sou eu?" é o machado que corta o ego. 


        Sri Ramana Maharshi