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terça-feira, 6 de maio de 2014

Momentos de Silêncio com Sri Ramana - Deus ou o Guru






Você irá perceber no devido tempo
que a sua glória reside onde você deixa de existir.

O ego assemelha-se a um elefante fortíssimo que só pode ser controlado pela força de um leão, que, neste caso, não é senão o Guru, cujo simples olhar faz o elefante-ego tremer e morrer.

A fim de atingir esse estado, você deve render-se.

Então o Mestre verá que você se encontra apto a receber orientação,
e
Ele o guiará.






O Mestre encontra-se tanto
'dentro' como
'fora'.

Ele dá um empurrão de 'fora' e um puxão de 'dentro',
a fim de que você possa fixar-se no Centro.





O Mestre encontra-se no interior.
Mas enquanto você se acreditar separado ou se identificar com o corpo,
o Mestre 'exterior' também será necessário.

Quando cessa o erro de identificação com o corpo,
não haverá outro Mestre a ser encontrado que não o Eu superior.





O Guru toma-o pela mão e sussurra-lhe ao ouvido?
Como você relaciona a sua existência com um corpo,
imagina que ele também possui um corpo,
para que possa fazer algo de tangível por si.

Mas o Seu trabalho é interior,

na esfera espiritual.

Deixe tudo a cargo do Mestre.

Entregue-se a Ele sem reservas.






Uma das duas coisas seguintes deve ser feita:

entregar-se,
porque percebe a sua falta de habilidade
e precisa da ajuda de um poder superior;

Ou investigar a causa do sofrimento, ir até à Fonte, e então

fundir-se no Eu superior.

De uma ou de outra maneira, você se libertará do sofrimento.







Deus ou o Guru jamais esquecem o devoto que se entrega.

Deus assume a forma de um guru e aparece ao devoto,

ensina-lhe a Verdade,

e purifica-lhe a mente 
com a união.

A Sua presença é como um

espelho puro e transparente.

Reflecte a nossa imagem exactamente como somos.







O discípulo refugia-se no Guru como é determinado nas escrituras.

Ele espera pacientemente pelo Guru,
incapaz de suportar os ventos escaldantes do samsara.
O professor, ou seja, o conhecedor de Brahman,
lança sobre ele o seu olhar gracioso e toca interiormente a sua alma,
dando-lhe a garantia de protecção. 







"Meu sábio discípulo, não tenha medo. 

Nada de mal lhe acontecerá daqui em diante. 


 Dar-lhe-ei um só e poderoso meio pelo qual poderá
cruzar este terrível, insondável oceano do samsara e, assim,
obter a suprema Felicidade."







      Fonte: After the Rain
                     Silent Encounters with Sri Ramana Maharshi

                     Depois da Chuva
                     Encontros Silenciosos com Sri Ramana Maharshi

       Publicação: Sri Ramanashramam - Tiruvannamalai

       Tradução: Blog Texto Meditativo







sábado, 29 de março de 2014

Momentos de Silêncio com Sri Ramana - O fardo da terra






O fardo da terra

é suportado por Deus;



O ego que finge suportá-lo também

É como a figura esculpida na torre

Que parece suportar todo o peso.




Fonte: Heart is Thy Name, Oh Lord (Coração é o Teu Nome, Ó Senhor)
          Momentos de Silêncio com
             Sri Ramana Maharshi







sábado, 28 de setembro de 2013

Auto Conhecimento - III






Bhagavan Sri Ramana Maharshi no Salão de Colmo


Fonte: 

 Autor: Arvind Lal 




O Vidya da Vichara - III; "Anbu-punume"   


... Continuação da Postagem anterior: "Auto-Conhecimento - II"



Na parte I desta série, mencionei que o Hino Anma Viddai contém uma instrução extraordinária relativa ao Auto-Conhecimento e à prática da Vichara. Esta instrução vem na última estrofe, que, recorde-se, foi composta por Bhagavan especialmente porque Ele queria incluir Sri Arunachala no hino. De facto, está no último verso do hino, tornando-se uma espécie de conselho de despedida de Bhagavan. O último verso, maravilhosamente rimado e musical, é:


Arulum venumeAnbu-punumeInbu tonume

literalmente:

Graça também é necessária; Ter AmorA Bem-aventurança florescerá"


"Anbu-punume" é traduzida por diferentes estudiosos em diferentes versões do Hino Anma Viddai, como: "ser possuído de amor", "ter amor", "amor é adicionado", ou "o amor é necessário". Essencialmente, Bhagavan está a dizer no último  verso do Seu hino que o "Amor" é um ingrediente essencial para o sucesso no Auto-Conhecimento, na prática de Vichara. Isto, na minha humilde opinião, é extraordinário e vale a pena um olhar mais atento.


A Graça é a contrapartida para o Amor?



Voltando aos diferentes comentários e traduções disponíveis  de
Anma Viddai, praticamente todas as versões ligam o ingrediente "ter Amor" a "Graça". No hino, "Anbu-punume" vem logo depois de "Arulum venume", e logo depois de o Senhor Arunachala ser mencionado. Esta é geralmente a forma como a Graça é compreendida: que a Graça da Entidade que você segue, adora, flui para si em troca do amor e da devoção que, como sadhaka e devoto, você tem demonstrado para com a referida Entidade. A extensão da Graça é proporcional ao amor que você coloca em acção. Alternativamente, você tem de amar na medida adequada o estado de Dei-dade, ou estado de Eu-dade, isto é, o estado da Entidade que para si é sagrada, de forma a ser Agraciado com esse estado.


Assim, os diferentes comentários sobre "Anbu-punume" alargam-se livremente por: "ter amor para Ser", "ter amor pelo Ser", "ter amor por Sri Arunachala Shiva (ou Deus em qualquer forma)" ou "ter amor por Bhagavan". Isto, então, permitiria à Graça tão necessária fluir do Ser, de Sri Arunachala, de Deus em qualquer forma, ou de Sri Bhagavan, conforme a escolha.


Pessoalmente, creio que esta é uma interpretação muito simplista. Em primeiro lugar, ela traz muita confusão para a Vichara. O ensinamento é buscar a Fonte, ou é demonstrar amor, devoção, e adoração para com a Divindade? Então por que buscar a Fonte? Basta mostrar intenso amor por Deus, essencialmente abraçar a devoção plena, ter o direito de receber a Graça, e já está?



Em segundo lugar, e mais importante, se pensarmos um pouco, devemos chegar à conclusão por nós próprios de que se a Graça fosse a contrapartida do amor por uma Entidade, ou de qualquer outra coisa além disso, então não seria "Graça", não é verdade? Bhagavan afirmou repetidamente que a Graça está sempre fluindo, a Graça está sempre disponível. Nos Seus ensinamentos, a Graça nunca é contrapartida de nada. Ela escolhe quem Ela escolhe (pelos Seus próprios critérios desconhecidos e insondáveis). Ele dizia que o próprio facto de você praticar Vichara é devido à Graça. Assim, a prática da Vichara qualifica-se como sendo o cumprimento de um dever obrigatório por parte do Sadhaka. A suprema expressão de amor por Ele, então, é fazer só Vichara. E, assim, não havia necessidade para Bhagavan de mencionar "amor", separadamente, em Anma Viddai, se fosse amor POR uma Entidade ou estado.


A instrução é para "juntar" amor durante a Vichara"?


Pode surgir a seguinte dúvida: Bhagavan está a dizer que quando buscamos a Fonte na Vichara, temos de "adicionar" amor ao processo? Gerar um sentimento de amor para com a Divindade ou o Ser? Para verificar isto (por favor não se riam), durante algumas cessões de Vichara, eu tentei "adicionar" amor quando me encontrava profundamente interiorizado, buscando a Fonte do "Eu". Durante essas tentativas, tive o cuidado de manter a emoção o mais pura possível, aquele amor pelo Divino, por Bhagavan, pelo Senhor Arunachala, pela Mãe Divina, e assim por diante. Na minha humilde opinião, não é possível fazer isso. A tentativa de gerar qualquer emoção quando nesse estado, ainda que seja a mais sattvika e pura das emoções, de imediato gera uma onda de movimento na mente que nos retira da Vichara. Então, estou absolutamente certo de que a expressão "o amor é necessário " NÃO é uma instrução para incluir "amor" durante a Vichara". A conclusão lógica óbvia, então, é: você tem que entrar no processo da Vichara vivenciando todos os sentimentos obrigatórios, conforme necessário, já enraizados em si, "Amor" incluído.



A importância de "Arulum venume; Anbu-punume"


Neste ponto, pode ser útil fazer uma pausa e ponderar porque é que o último verso de Bhagavan é importante. Já tive oportunidade de mencionar que acredito que ele representa o conselho final, de despedida no hino de Bhagavan. Também acredito que ele é dedicado ao sadhaka que faz Vichara  sinceramente, tal como prescrito por Bhagavan, e que ao atingir um certo grau de sucesso na sua prática, é capaz de perseguir o "Eu" até que o sentimento "Eu" é muito forte dentro dele. Agora, ele chegou ao ponto em que os seus esforços não podem ir mais além. É quase como se houvesse uma porta que se recusa a abrir, por mais que ele se esforce (faz-me lembrar o fantástico lamento de Bob Dylan - "knock, knock, knockin’ on heaven’s door..." ("toc, toc, tocando à porta do Céu...").



Creio que este conselho de Bhagavan é dado para esse momento. Bhagavan está a dizer que todos os esforços levam a essa porta, e depois é tudo com a Graça; e com o "Amor" que vem incrustado em si. Com efeito, dado que a Graça está sempre presente e sempre fluindo, esse Amor incrustado torna-se a chave que abre a porta, ou corta o "cit-jada-granthi", citando o termo técnico por vezes usado por Bhagavan.


Pessoalmente, creio que Bhagavan se refere a um requisito profundo e fundamental no sadhaka: ter "Amor", por si só; "Amor", que é a outra face do Ser como sat-cid-ananda.


O que é este "Amor"?


Ironicamente, é não ter qualquer amor, isto é, amor que seja limitado e dirigido para qualquer entidade ou estado, Divino ou de outra forma. Para explicar isto, deixe-me citar este fascinante extrato do próprio Bhagavan:

(Fonte: "Cartas do Sri Ramanashramam" de Suri Nagamma: Carta nº 179, intitulada "O Caminho do Amor"; Um jovem perguntou a Bhagavan por que não amar a Deus e seguir o caminho do amor...)



“… Quem mais há para ser amado? O próprio Amor é Deus,” disse Bhagavan.

“É por isso que lhe pergunto se Deus poderia ser adorado através do caminho do amor?” disse o interlocutor.

“Isso é exatamente o que eu tenho dito. O próprio Amor é a verdadeira forma de Deus. Se ao dizer, ‘eu não amo isto; eu não amo aquilo’, você rejeita todas as coisas, o que permanece é Swarupa, isto é, o Ser inato. Isso é pura felicidade. Chame-o de pura felicidade, Deus, Atma ou o que quiser. Isso é devoção; isso é realização e isso é tudo”, disse Bhagavan.

“O significado do que acabou de dizer é que devemos rejeitar todas as coisas exteriores que são más, e também todas as que são boas, e amar apenas a Deus. É possível a alguém rejeitar tudo, dizendo isto não é bom, aquilo não é bom, a não ser que o experimente?” disse outro.

“Isso é verdade. Para rejeitar o mal, você deve amar o bem. No devido tempo, esse bem também irá parecer um obstáculo e será rejeitado.  Assim, primeiro, você deve necessariamente amar o que é bom. Isso significa que você deve primeiro amar e depois rejeitar aquilo que ama. Se você, portanto, rejeitar tudo, o que resta é o Ser. Esse é o verdadeiro amor. Aquele que conhece o segredo desse amor encontra o próprio mundo cheio de amor universal”, disse Bhagavan e retomou o silêncio.


Então, Bhagavan diz, não ter amor por nada, mas "ser amor". Todos nós sabemos que a vida de Bhagavan, e a maneira como Ele a viveu, é em si um grande ensinamento para nós. Por isso, temos que olhar para Ele para compreender o que significa "ser Amor". Ele incorporou o Amor, Amor que era sentido de imediato por quem quer que tenha vindo à Sua presença. Foi mostrado na compaixão para com os animais, as plantas e as árvores, na firme determinação de compartilhar igualmente com todos, na gentileza e cortesia de comportamento, na consideração demonstrada para com os ladrões que Lhe bateram, para com as abelhas que foram autorizadas a picar na Sua perna, e em um milhão de outros assuntos. A vida de Bhagavan em si mesma nos dá o exemplo perfeito do "Amor", muito além das capacidades de pessoas comuns como eu e você.


A instrução "Anbu-punume" ("ter Amor")


Ouço alguém dizer: "Ei, espere aí! Há aqui um caso da galinha e do ovo, se precisamos ter esse Amor. Esse Amor só é possível no Jnani, ou seja, após Auto-realização; como podemos dizer então que  esse Amor é o pré-requisito para o sucesso na Vichara e necessário para a Auto-realização?"


Sim, isso é verdade. O sadhaka não pode nunca chegar à extensão do Amor embutido em Bhagavan, o grande Jnani. Isso só é possível quando ele ou ela é Auto-realizado. Mas também é claro, pela sua utilização no hino
Anma Viddai,  que a frase “Anbu-punume” se destina ao sadhaka, e não como sendo descritiva do estado do Jnani. E assim, na minha humilde opinião, é uma instrução de que o sadhaka deve também conscientemente tentar gerar nele ou nela certas qualidades específicas que se aproximam, ou igualam a posição ideal, como exemplificado por Bhagavan e pelo Jnani.


De certa forma, tudo depende do carácter e psiquismo do sadhaka, e da difícil questão de haver ou não pré-requisitos necessários para  Vichara e Auto-realização. Acredito que há muito mérito nas disciplinas tradicionais de "Yama", "Niyama", etc. pelas quais o sadhaka teve de passar nos velhos tempos, pois elas construíram as qualidades necessárias nele ou nela de uma maneira formal. Mas deixando o treinamento espiritual formal um pouco de lado, por muito que ele possa acontecer, o sadhaka tem de evoluir muito em carácter para chegar perto do ideal de "ser Amor".



Vichara por si só não cuidará  disso?



Pode dizer-se que, no que diz respeito à Vichara, o próprio processo de intensa introversão desenvolve estas qualidades de um modo informal. Eu acrescentaria que o sadhaka pode assumir que, se periodicamente a sua Vichara fica às vezes bloqueada, é porque certas qualidades necessárias ainda estão sendo construídas através do processo (em certo sentido, as vasanas estão sendo limpas), e um maior avanço só acontecerá quando o processo estiver completo. E assim, se ele ou ela é travado na "porta" que se recusa a abrir apesar de todo o 'tocando', ela só vai abrir quando o "Amor" enraizado no sadhaka se aproximar de um nível tal como explicado na nota de Bhagavan acima exposta. E a questão é que pode ainda demorar uma eternidade, se as vasanas básicas forem demasiado fortes para serem eliminadas rapidamente.


Para o Auto-conhecimento despontar, creio eu, precisamos trabalhar arduamente. Bhagavan bem sabe o que a Vichara pode ou não fazer, e, ainda assim, no hino Ele menciona especialmente "ter Amor". Isso só pode significar que, além da nossa prática da Vichara, ainda precisamos trabalhar conscientemente o nosso comportamento, a nossa postura, o nosso carácter em geral.


No Sri Ramanasramam cruzei-me com sadhakas que fazem Vichara durante horas nos salões, mas depois vi-os cá fora mostrando crueldade para com os outros por pequenas transgressões. E não apenas numa única explosão de raiva. Assim não.



Portanto, o amor que podemos ter por nós e pelos nossos empreendimentos, pelo nosso companheiro, pela nossa família, pelos nossos bens, precisa expandir-se para incluir um círculo muito mais amplo. Deveríamos sentir a dor do cachorrinho esfomeado mancando pela estrada, da mãe-macaco que perdeu o  seu filhote, da árvore cujos ramos foram violentamente arrancados pela equipa de manutenção da estrada, da pedinte idosa e solitária sentada na berma da estrada sem nenhuma pessoa amiga no mundo, do recém-chegado melancolicamente sentado no salão lutando com a Vichara, sem saber nada do que se trata e fazendo barulho, do grão de arroz que não foi comido e se encontra abandonado no prato como se estivesse dizendo "eu sobrevivi à tempestade e à seca e aos gafanhotos ao longo de tantos meses para me oferecer a ti, mas tu abandonaste-me mesmo assim..."; e então depois poderemos "ser Amor".


Os caminhos de Jnana são um pouco enganadores, na medida em que podemos olhar para eles como atos secos, estéreis; basta sentar-se, fazer Vichara e perseguir o "Eu", é tudo o que é necessário. Na verdade, este é também o equívoco fundamental em relação ao Advaita em geral. Podemos encontrar resmas de escritos expressando admiração sobre como o lógico confesso Sri Sankara conseguiu compor hinos de derreter o coração, como Sri Meenakshi Pancharatnam e Sri Saundarya Lahiri, para nomear apenas dois (e por isso devem ter sido erradamente atribuídos a ele, ou deve haver duas ou até três pessoas com o nome "Sankara"). Eu posso apostar qualquer coisa em como se o advento de Bhagavan tivesse sido há mil anos atrás, nos tempos em que os registos históricos eram raramente feitos, hoje teriam dito que o autor de Ulladu Narpadu nunca poderia ter composto também Arunachala Aksharamanamalai ou qualquer um dos outros hinos devocionais; que  deve ter havido duas pessoas chamadas "Ramana" separadas por uns 100 anos mais ou menos, um seguindo o caminho de Jnana e o outro Bhakti. O que é pouco compreendido é que, de facto, um verdadeiro Advaitista também é a maior personificação do Amor; de "Rasa"(*) (literalmente "Suco", como oposto de ser "seco"). Porque, no verdadeiro Advaitista, o Amor tornou-se "Universalizado",  da forma como Bhagavan explicou no extrato referido acima.


Se há "Amor", Vairagya não desaparece?


E então a dúvida pode ser: diz-se ao sadhaka para praticar intensa Vairagya (renúncia); afinal a instrução é de que o mundo é irreal e, portanto, não vale a pena correr atrás dele. Como, então, pode o sadhaka ser também convidado a "ser" Amor? Bem, paradoxalmente, à medida que Vairagya se desenvolve no sadhaka, ele ou ela "sente" mais intensamente. Ou seja, todas as grandes e puras emoções. Temos o grande exemplo de Bhagavan, de novo, que começava a chorar ao ler histórias devocionais como as do Periya Puranam, para espanto dos que se sentavam à sua volta. A Personificação de Vairagya e de Jnana, derramava  profusas lágrimas juntamente com a mulher que chorava pela perda do seu bebé, enquanto os outros que por ali deambulavam, os homens do mundo presumivelmente cheios de sentimentos, se sentavam com o rosto impassível, esforçando-se por mostrar alguma emoção. Ou ria-Se também quando alguma piada engraçada era dita, ou alguma história feliz contada.


O segredo de Vairagya NÃO é que você não precise de "sentir", mas que você permaneça desapegado. Você não precisa ir à procura do sofrimento para mostrar "sentimento" ou fazer "bem", mas se você encontrar sofrimento, faça o melhor para ajudar com amor e atenção, ainda assim permanecendo desapegado de tudo. Neste contexto, lembro-me da famosa história Zen "O Rio" (também chamada "A Estrada Enlameada"; a versão abaixo foi recolhida aleatoriamente da internet):

Dois monges Zen, Tanzan e Ekido, estavam viajando em peregrinação, quando chegaram à travessia de um rio lamacento. Lá viram uma linda mulher jovem elegantemente vestida com o seu kimono, obviamente sem saber como atravessar o rio sem estragar as suas roupas. Ela ia a um casamento, e estava a chorar sem saber o que fazer. Sem mais delongas, Tanzan pegou nela graciosamente, segurou-a contra ele, e atravessou o rio lamacento, colocando-a no chão seco. A jovem ficou muito feliz e agradeceu a Tanzan profusamente. Então ele e Ekido continuaram o seu caminho. Horas depois, chegaram a um templo de hospedagem. E aqui Ekido não pôde mais conter-se e soltou as suas queixas: "Certamente é contra as regras, o que você fez lá atrás... Tocar numa mulher simplesmente não é permitido... Como é que pôde fazer isso?... E ter um contacto tão próximo com ela!... Isto é uma violação de todos os protocolos monásticos..." Assim continuou ele com toda a sua verborreia. Tanzan ouviu pacientemente as acusações. Finalmente, durante uma pausa, disse: "Olha, eu pousei a rapariga outra vez do outro lado. Tu ainda a trazes ao colo?".


Receio que algumas críticas me estejam a ser dirigidas por estar eventualmente a ler demasiado numa frase inócua de Bhagavan. Afinal de contas, por que não a deixar no ponto tradicional de que Graça é necessária, e de que para isso é preciso amar a Divindade apropriada; por que ir buscar um significado tão complexo para o "Amor"?


Bem, depois de me ter debruçado durante tantos anos sobre os escritos de Bhagavan, há uma coisa que posso afirmar com segurança, é que Ele nunca escreveu nada como sendo apenas uma frase "inócua". Cada palavra e cada frase escrita por Ele tem camadas de significados que emergem numa reflexão mais profunda. Mas, certamente, o significado pode brilhar de forma diferente para cada um de nós. O atrás exposto é a forma como a frase "Anbu-punume" de Bhagavan, no contexto da Vichara e Auto-conhecimento, brilha para mim. E, ei, se a sua Vichara ficar presa num ponto em que você sente que não está a chegar a lugar algum, tente também "ser Amor" como uma característica inata interior, e reflectida para o exterior em todas as interações do mundo igualmente!


Novamente, apenas um esforço muito humilde de compartilhar, amigos...




* Nota do Blog Texto Meditativo:
Rasa - palavra do Sânscrito. Num contexto espiritual, significa Néctar Divino - o sabor da iluminação. Na linguagem comum, é usada com o sentido de essência, seiva ou sumo de plantas, sumo de fruta, a melhor ou mais delicada parte de qualquer coisa.


Tradução: Blog Texto Meditativo




Bhagavan e o coelhinho


Ó Arunachala! Fica silenciosa, descansanda aí (no meu coração) para que
o mar de felicidade possa surgir e a fala e os pensamentos cessar

Arunachala Aksharamanamalai


sábado, 21 de setembro de 2013

Auto Conhecimento - II


Bhagavan Sri Ramana Maharshi



Fonte:


 Autor: Arvind Lal 




O Vidya da Vichara - II; "Quem ou De onde sou eu?"    


... Continuação da Postagem anterior: "Auto-Conhecimento - I"


As obras curtas de Bhagavan são realmente especiais. A sua concisão implica que Bhagavan só poderia incluir os aspetos fundamentais da prática, e apenas as teorias imperativas respetivas, em relação aos Seus ensinamentos. Então, as obras curtas de Bhagavan fornecem ao devoto uma visão única sobre o que o próprio Bhagavan considerava extremamente importante em relação à Sadhana. Isto é verdade em especial para um trabalho como Anma Viddai, que diz respeito ao Auto-Conhecimento, e que foi composto sem quaisquer influências contextuais.
Assim, as partes do hino que foram cortadas na Parte I, que compreende o enquadramento teórico fundamental para a prática, não são menos importantes. Elas não estão a ser especialmente consideradas nesta Postagem apenas porque pensei manter o foco nos aspectos práticos. Como exemplo, desejo mencionar o primeiro e sublime verso, que serve de introdução para todo o trabalho. Este verso fornece uma espécie de pré-requisito para a prática; o tema básico é de que o mundo é irreal, então não corra atrás dele. Isso é puro Advaita, o próprio Sankara poderia tê-lo escrito.

  1. Verdadeiro, forte, para sempre viçoso se ergue o Ser. É dele na verdade que surge o fantasma corpo e o fantasma mundo. Quando esta ilusão é destruída e nem uma partícula permanece, o Sol do Ser brilha resplandecente e real na vastidão do coração expandido. Trevas morrem, aflições terminam, e a Bem-aventurança brota.

Além disso, antes de começarmos o nosso debate, deixe-me dizer que estou consciente do facto de que cada um de nós teria desenvolvido o seu próprio estilo de fazer Vichara.  Uma prática espiritual desta natureza requer um alto nível de convicção por parte do sadhaka. Isso faz com que, naturalmente, sejam mantidos fortes pontos de vista sobre o que constitui a Vichara. Mas, ainda assim, creio eu, é importante a troca de ideias de vez em quando, uma maneira simples de aperfeiçoar e desenvolver a nossa prática. É com este espírito que  são apresentadas estas ideias sobre a Vichara, um trabalho muito humilde de partilha de opiniões. Permitam-me, contudo, apresentar sinceras desculpas no caso de alguém se sentir perturbado com alguma coisa apresentada aqui, ou na Parte I.


 O papel de "Quem sou eu?" ou "De onde sou eu?"


As instruções de Bhagavan no que diz respeito à prática da Vichara indicada no poema Anma Viddai são breves e simples:

“Inquirindo interiormente, pergunte ‘Quem sou eu? e de onde vem este pensamento ?’
Todos os outros pensamentos desaparecem.”

Pensei em pegar nesta instrução muito básica em primeiro lugar, na perspectiva de que ela não representa uma linha de pensamento fora do comum quanto à prática da Vichara, do seguinte modo:

<<<"Quem sou eu?" ou "De onde sou eu?" é apenas uma ferramenta para conduzir a mente de volta para o "Eu" interior. As instruções são: sempre que existe quebra de atenção e um pensamento surge, perguntar "para quem surgiu este pensamento?" A resposta é "para mim". Depois pergunte "Quem sou eu?", e assim a atenção recua, dirigida dos assuntos exteriores para o sentido de "Eu" interior. Mas se é possível, por outros meios, localizar e manter o sentimento de "Eu", "Quem sou eu?" não é necessário. Além disso, qualquer ferramenta alternativa para chamar a atenção para o "Eu" é igualmente boa, e pode ser usada com a mesma eficácia.>>>


Aqueles que praticam Vichara regularmente podem ter a experiência de que ao fim de algum tempo o sentido de "Eu" interior começa a aparecer quase instantaneamente. Então, 'Quem sou eu?" pode até nem ser necessário para iniciar a focagem no "Eu". Posteriormente, durante algum tempo "Quem sou eu?" pode ser usado ocasionalmente para enfrentar o problema das ondas de pensamentos externos que podem ainda inundar a mente. Mas, mesmo neste caso, para uns poucos, no devido tempo a mente fica treinada em pensar os pensamentos externos por uns minutos e em seguida desligar-se, retornando por si mesma ao pensamento "Eu". A inquirição "Quem sou eu?" passa a parecer de algum modo supérflua. Assim, para o praticante regular, é possível certamente focar a atenção no "Eu" sem o uso de "Quem sou eu?" Ou "De onde sou eu?"


(O acima exposto deriva das minhas conversas ao longo dos anos com pessoas que fazem Vichara regularmente. E também, devo confessar, da minha experiência pessoal. Houve uma fase em que eu fazia Vichara sem muito "Quem ou De onde sou eu?"; eu talvez dissesse mentalmente uma ou duas vezes, para iniciar, numa espécie de rotina de forma desprovida de qualquer intensidade. Percebi que  estava a "agarrar" o "Eu", sim, mas uns momentos depois sentia que na verdade não estava a chegar a lugar algum. A mente é tão arguta, ela faz só um pouquinho para embalar um pessoa, levando-a a pensar que algo está a ser alcançado...).


A abordagem acima descrita, na minha humilde opinião, é um recuo significativo da posição ideal. Muda o poderoso 'Inquira e Busque' de Bhagavan para a abordagem coxa 'Segurando o "eu"'. Usando a excelente comparação de Bhagavan do mergulhador de pérolas, o sadhaka então flutua na superfície do oceano, por assim dizer, mergulhando de vez em quando a cabeça debaixo de água, mas nunca mergulhando profundamente nas profundezas para encontrar a pérola escondida lá em baixo.


Estou a lutar para conseguir pôr esta ideia em palavras, mas aqui vai de qualquer modo: é evidente que existe um sentimento de "eu" localizável rápida e imediatamente pela maioria de nós, mesmo sem o "Quem sou eu?"; mas se o "Eu" interior é abordado com o sentido intensamente concentrado de inquirição e investigação contido nas expressões "Quem sou eu?" ou "De onde sou eu?", o sentido de "Eu", que surge, surge com uma leve mas significativa diferença em relação ao sentido "eu" de 'base' referido anteriormente. É como se surgisse um sentido composto, de "eu" e "Quem sou eu?" e "De onde sou eu?", todos juntos, uma sensação desconcertante no final, quando comparada com  a sensação que surge da outra forma; e que tem a tendência natural para mergulhar mais profundamente interiormente. É claro que não é como se existisse um "eu" diferente, que assim é encontrado. Mas parece que a intensa "intuição-interior" do sentido de "Quem ou De onde sou eu?", ao aproximar-se do "Eu", faz com que o "Eu" seja agarrado cada vez com mais força, sem esforço consciente adicional. Se usássemos a segunda excelente comparação de Bhagavan do cão procurando o seu dono seguindo o cheiro, o cheiro do "Eu", lenta mas seguramente, torna-se cada vez mais forte por si mesmo.



Afinal, quando buscamos a Fonte do "eu", não buscamos em qualquer local físico dentro do corpo, nem em qualquer outro lugarConsidera-se que o Coração está 'localizado' simplesmente no lugar até onde o "eu" pode ser rastreado. E o "eu" é rastreado, não de um local físico para outro dentro do corpo, por exemplo, mas sempre onde o "cheiro" do sinal nos leva. Assim, usando a comparação de Bhagavan, o cão fareja à distância o cheiro do dono, no chão, é verdade, mas ele é alheio ao chão que está percorrendo na sua busca; ele simplesmente vai por onde sente que o cheiro está a aumentar de intensidade. Da mesma forma, na minha humilde opinião, na Vichara tentamos excluir todos os aspectos locacionais de onde está o "eu", e persegui-lo em termos de - vamos para onde a intensidade do sentimento de "eu" é cada vez maior, alheios a tudo o mais. E isto acontece naturalmente se "Quem ou o De onde sou eu?" for intrínseco à nossa prática de Vichara.


Em praticamente toda a obra composta por Bhagavan, e numa grande fatia das conversas gravadas, o ensinamento da prática da Vichara tem sido, invariavelmente, 'pergunte "Quem sou eu?" ou "De onde sou eu?"'; Inquira, e busque a Fonte. Apenas raramente, sobretudo nas conversas, são mencionadas variações como "tente e esteja sem pensamentos", "segure o "Eu"(como acto distinto da busca da Sua Fonte)", "observe a respiração", "observe o intervalo entre dois pensamentos", e assim por diante. Acredito que Bhagavan insistia em ir-dentro através da via do "Quem ou o De onde sou eu?" porque, de uma forma não muito compreendida pelo sadhaka, o impacto interno é radicalmente diferente do que por outra viaAinda que, na verdade, isso tenha tornado a prática muito mais difícil. Assim, "Quem ou De onde sou eu?" é, certamente, também a 'ferramenta' para levar a atenção de volta para o "Eu" quando a mente vagueia; é, no entanto, muito mais do que isso, primeiro.
 
(Nota: Para aqueles que podem não estar familiarizados com as comparações de Bhagavan do 'mergulhador de pérolas' e do 'cão buscando o seu dono': são abordadas com mais detalhes na minha postagem "Arunachala Pancharatna Varttikam e Vichara"de 20 de Abril de 2012.)


Além disso, na minha humilde opinião, há outra razão para a utilização de "Quem ou De onde sou eu?", o tempo todo, quer seja necessário ou não. Na tradição Indiana cabe ao sadhaka seguir as instruções do Guru implícita e totalmente; esse é o seu principal dever. E o verdadeiro shishya (discípulo) fará isso sem nenhuma expectativa de recompensa, de qualquer tipo, nem mesmo da Graça do Guru. Bhagavan, de qualquer modo,  manteve de forma consistente que a Graça está sempre fluindo, sempre à disposição de todos, sem excepção. Mas de uma forma inexplicável, eu creio, as coisas melhoram se as instruções do Guru são seguidas ao ponto. E então, por que dar a Alguém a oportunidade, lá 'em cima', de dizer "mas ele nunca seguiu as instruções do seu Guru ..." 


Neste contexto, lembro-me das reminiscências de "Sundaram" (Swami Trivenigiri Sadhu), registadas no maravilhoso "Ramana Smriti Souvenir" [A partir da edição de 1980, publicado pelo Sri Ramanasramam; as páginas não são numeradas nesta edição que aqui tenho, mas o extrato a seguir é retirado do artigo "Cozinhados de Bhagavan", que se encontra a meio do livro]:

“Com o tempo, percebi que trabalhar com Bhagavan na cozinha não era meramente cozinhar, mas definitivamente uma forma de treinamento espiritual. A primeira lição de educação espiritual, a aprender para sempre, é obedecer ao Guru implicitamente, sem questionar ou no mínimo usar o próprio julgamento. Nada o faria tão feliz como quando ele via que tínhamos entendido este ponto essencial, que as instruções do mestre deviam ser imediatamente levadas a cabo, e não deviam ser adiadas pelo desejo de lhe agradar ou até mesmo de o fazer correctamente. Mesmo se soubéssemos de uma maneira melhor de o fazer, tínhamos de o fazer exatamente como o mestre nos tinha dito. Poderia ter parecido que, obedecendo-lhe, o trabalho iria ficar arruinado, mas ainda assim era preciso obedecer. É preciso dominar esta arte da obediência instantânea e inquestionável, pois o segredo da realização encontra-se na rendição absoluta e renúncia ao próprio julgamento.”

Que grandes palavras escritas por um homem muito simples!

E também a seguinte nota de Sampurnamma [de "Bhagavan na Cozinha", o mesmo Ramana Smriti Souvenir]:

“Enquanto seguíssemos as suas instruções, tudo correria bem com a nossa culinária. Mas no momento em que agíssemos por conta própria, estaríamos em apuros. Mesmo assim, se buscássemos a sua ajuda, ele iria provar o nosso preparado e dizer-nos o que fazer para tornar o alimento apto a ser servido. Cada pequeno incidente na nossa cozinha  continha uma lição espiritual para nós. Assim, aprendemos a arte da obediência implícita enquanto aperfeiçoávamos as nossas habilidades culinárias sob a orientação de Bhagavan.”

Deixe-me terminar esta parte citando a mesma instrução, como a de "Anma Viddai", de "Nan Yar?" (Sri Ramanasramam: versão de Q & A):

Q10. Como é que a mente se torna inactiva?

Resposta: Através da inquirição "Quem sou eu?". O pensamento "quem sou eu?" destruirá todos os outros pensamentos, e, como o pau usado para mexer a pira ardente, ele mesmo, no final, será destruído. Então, surgirá a Auto-realização.



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continua: Auto Conhecimento - III
Tradução: Blog Texto Meditativo

Fotos:  Blog Texto Meditativo


Recordações do Salão Grande
Sri Ramanashramam