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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Jnaneswar Ensina Seu Pai Vithoba




ॐ
  

Fonte:

Jnaneswar Teaches His Father Vithoba

Tradução: Blog Texto Meditativo


ॐ
  
O seguinte é o relato em primeira pessoa da visita de Manu Subedar ao Sri Ramanashramam. Inclui o texto de um diálogo entre Jnaneswar e o seu pai, que Bhagavan graciosamente leu em benefício de Manu Subedar e de todos os sadhakas. Bhagavan recomendou muito o estudo deste diálogo aos seus devotos.
Em 2001, por ocasião do 121º Jayanti (aniversário) de Bhagavan Ramana, o Sri Ramanashramam publicou este texto numa edição de bolso.

     Durante mais de três anos resisti ao convite do meu amigo, o Sr. Shankerlal Banker, para ir ao Ramanashramam. Desculpei-me dizendo-lhe que não estava pronto, que "Se eu entrasse numa grande loja, teria vergonha de sair de mãos vazias." Finalmente, decidi fazer a visita e preparei-me durante cerca de dois meses antes, lendo nada mais a não ser esses dois notáveis livros, viz., o Ashtavakra Gita e o Avadhuta Gita. Depois de terminar um trabalho que tinha em Cochim, parti para Tiruvannamalai. Decidi que deveria colocar umas quantas perguntas a fim de resolver algumas das minhas dúvidas, e então enquadrei as questões.

Eu ia sozinho numa carruagem do combóio de Katpadi, e quis repassar as minhas perguntas e revisá-las se necessário. À medida que reformulava cada pergunta, descobri que sabia a resposta! Então, quando cheguei e recebi o darshan do Maharshi, já não tinha perguntas para fazer. Permiti-me observar e absorver a elevada atmosfera do Ashram.

Apresentei ao Maharshi um comentário sobre a Gita, um grande clássico em língua Marati, do sábio Jnaneswar, que eu tinha traduzido para Inglês após oito anos de esforço. Ele ficou muito agradado com o livro. Eu tinha comigo cópias extra do Avadhuta Gita e do Ashtavakra Gita publicados pelo Sastu Sahitya Mudranalaya Trust de Ahmedabad, do qual sou presidente. Também os apresentei ao Maharshi. Mencionei que andava a ler estes livros, e chamei a sua atenção para o primeiro versículo do Avadhuta Gita, que é o seguinte:

"É somente através da graça de Deus que, em homens com conhecimento, nasce o desejo de experienciar a unidade cósmica (Advaita), um desejo que os protege dos grandes perigos do samsara."

Salientei ainda que grande parte da matéria destes livros se destinava aos siddha avançados, i.e., aos adeptos. Para os novos candidatos, que estavam a tentar aprender, não havia muita orientação directa.

O Maharshi olhou para mim com infinita compaixão nos seus olhos, e instruiu um dos seus devotos para trazer um livro. O livro era o Maha Bhakta Vijayam de Nabhaji. Bhagavan abriu o livro e começou a ler. (Observei com espanto que o livro abriu exactamente na página onde ele pretendia ler.)

Este é um diálogo entre Jnaneswar Maharaj e seu pai, em que o jovem filho, que alcançou o Conhecimento, está argumentando com seu pai, que ainda está com medo, ainda buscando, e ainda tacteando. O pai tinha ido para a floresta para praticar ascetismo.

Muito impressionado com o brilho de Jnaneswar e seus irmãos, o rei desejou conhecer Vithoba, o pai deles. E assim enviou os seus próprios mensageiros para trazerem Vithoba ao reino, mas este recusou-se a vir. Então as crianças foram visitar o seu pai, e Jananeswar Maharaj, sentando-se no colo do pai, prendeu-o num diálogo ao fim do qual convenceu o seu pai a voltar com ele para a cidade.

O Maharshi parecia gostar de ler o diálogo. Aqueles que estavam presentes desfrutaram da leitura e eu descobri que me foi dado exactamente o que eu precisava. Estou eternamente grato ao Sábio pelo que ele me ensinou. O melhor professor é aquele que o leva de onde você está para o próximo estágio. Não é a totalidade do conhecimento do professor que o aluno deve considerar, mas a adequação do que é transmitido no momento adequado.
   


Diálogo entre Jnaneswar e Seu Pai



Com respeito e carinho infantil, Jnaneswar subiu para o colo do pai e pediu-lhe para voltar para a capital e ir encontrar-se com o rei. Seguiu-se o seguinte diálogo: 

Pai: Será um gosto de novo o que foi vomitado uma vez, mesmo que seja um delicioso prato?  Não devem os justos sempre manter a sua palavra? Tendo-me retirado do mundo, posso voltar para lá, misturar-me com a multidão sem discernimento e amá-los ou amar o rei? A floresta sempre será a minha morada, e o mundo, a sua. Então, volte para trás e viva feliz no mundo.

Jnaneswar: Porque é que vive na floresta?

Pai: Meu filho, que prazer ou proveito está lá para eu obter doravante por regressar ao mundo? Voltando lá, longe de ser uma ajuda, só vai ser um obstáculo para a salvação. Esta floresta, livre da sociedade de todas as pessoas, apenas ela é adequada para mouna Nishta (fé em silêncio), e por isso eu vivo nestas encostas. 

Jnaneswar: A Brahmanishta (devoção ao Ser) que está a fazer, enquanto ainda cheio de tais distinções como cidade e floresta, é como uma tentativa de apagar a visão dos céus cobrindo-a com uma tela em vez de fechar os olhos; como um passarinho que pensa suportar o impacto de um trovão com as suas minúsculas patinhas; como alguém tentando adquirir virtude enquanto se envolve em actos de vício; como um homem de coração endurecido ansiando pela visão de Deus, e como alguém que atinge jnana nishta (fé firme com conhecimento) sem se livrar do sentido do ego. Nesse nishta, que transcende todas as distinções, pode haver alguma ideia de dualidade?

Pai: Enquanto a noção de "meu" persistir, o sentido do ego e a percepção da dualidade como "isto e aquilo" não vão desaparecer. É nirvikalpa Nishta (devoção única) que afasta todas as noções de dualidade. Tal Nishta só pode ser obtido pela extinção de todos os sankalpas ou desejos e pelo afastamento de toda a sociedade. Então, eu estou aqui porque a solidão é o lugar apropriado para mouna Nishta.

Jnaneswar: Conhecer o próprio Ser e ser o Ser, apenas isso é Brahmanishta, e não viver em florestas.

Pai: Mesmo que alguém possa conhecer o Ser na presença do seu Guru, não é necessário estar em solidão para se manter fixo no Ser?

Jnaneswar: Os verdadeiros Jnanis perceberam que ajnana (erro) não será destruído, nem o sentido de 'eu' e 'meu' será eliminado por viverem sozinhos na floresta e a fazer penitência, e, portanto, praticaram nirvikalpa samadhi (estado avançado de meditação no qual não existe a consciência do mundo), com uma mente firme, ignorando todas as distinções tais como a cidade e a floresta, a vida doméstica e o ascetismo. Se assim é, porque deveria você opor-se à vida em casa e viver na floresta?

Pai: Se aqueles que viram sakshi (a testemunha) e se tornaram um com o Ser, que é a testemunha de tudo, permanecerem na vida familiar, isso irá dificultar a sua prática de samadhi, e vão perder a sua experiência de realização do Ser. Portanto, aqueles que atingiram a bem-aventurança do estado sahaja (espontâneo), não vão alimentar, nem mesmo em sonho, o desejo de se envolver na vida familiar.

Jnaneswar: Sahaja nishta (realização espontânea) consiste em ser livre, tanto de desejos como de aversões. Será que odiar a cidade e amar a floresta pode ser tal Nishta?

Pai: Como pode alguém continuar com as coisas do mundo, se não tem desejos de as fazer nem de não as fazer? E qual a utilidade de viver no mundo, se não está em condições de se envolver nos assuntos do mundo? Não se deve permanecer num lugar onde se poderia ser uma presa de muitas dificuldades decorrentes da vontade de atender ao conforto do corpo. Tal cuidado pode ser comparado a celebrar o casamento de um cadáver.

Jnaneswar: Se alguém que tenha desistido de todos os desejos de se envolver em qualquer actividade, se ocupa na prática de samadhi, essa prática não é também uma actividade? E por que não deveria aquele que tem esta ocupação ter também a actividade da família?

Pai: Mesmo que samadhi seja uma actividade, irá remover todos os pensamentos e ansiedades. Por outro lado, os assuntos domésticos irão criar todo o tipo de pensamentos e preocupações e causar sofrimento.

Jnaneswar: Quando se é o próprio Sat-Chit-Ananda (existência-consciência-beatitude) (três atributos do Ser), porque deveria alguém envolver-se em sadhana Nishta (prática com fé)?

Pai: Os sábios não dizem que Brahmanishta (devoção ao Ser) consiste em realizar o estado de sono durante a vigília? Se não o realizamos assim, pode a bem-aventurança irresistível fluir de samadhi?

Jnaneswar: Embora os Vedas afirmem que a felicidade consiste em assistir como um espectador às actividades da mente durante o sonho, e ao estado sem nada ou em branco durante sono, e que o estado descrito como sono durante a vigília consiste em se ser como a sombra de um papagaio (que embora tocando em qualquer coisa não está ligada a ela), você consegue perceber que estar num estado em branco como durante o sono é verdadeira bem-aventurança, e que esse é o estado chamado de sono durante a vigília?

Pai: Os estados de vigília e de sonho fazem uma pessoa mergulhar nos assuntos do mundo e tornam-na presa das feras selvagens dos órgãos dos sentidos. Por isso, só aquele samadhi, onde cessam todos os assuntos do mundo e onde há vazio total como durante o sono, é o verdadeiro samadhi.

Jnaneswar: O melhor samadhi não é meramente permanecer num vazio, mas sim, como no contra-ataque simples de esgrima, envolver-se nos assuntos do mundo, e, ao observar os objectos dos sentidos, ser-lhes indiferente, esgrimindo a espada firme e constante do jnana (estado de realização da Unidade), tal como Janaka. (*)

Pai: Só Shuka, que se livrou de todos os apegos, teve de ser capaz de vencer a mente agitada que tinha acumulado dentro de si muitas vasanas (desejos profundamente enraizados) durante incontáveis gerações, e não Janaka, que, mesmo sem estar no estado semelhante ao sono, possuía o jnana constante de que ele era Brahman.

Jnaneswar: Apenas Janaka garantiu a aniquilação da mente e era capaz de fazer o que quisesse com a sua mente, e não Shuka, que desistiu de todos os apegos externos e se devotou inteiramente à vida nas florestas.

Pai: Só sendo inerente ao Vidente alguém pode livrar-se do visto. Como pode alguém livrar-se do visto estando no visto? Se para curar um homem de veneno, lhe for administrado veneno, não será a morte o resultado?

Jnaneswar: À medida que administrar um veneno como antídoto contra outro veneno, é sábio aquele que estabelece jnana imperturbável contra os perigos dos órgãos dos sentidos, tanto externos como internos, e não aquele que está sempre em Nishta cheio de medo de que a qualquer momento as feras dos objectos dos sentidos o venham atacar. Este último só conhecerá o seu medo e nunca o êxtase supremo de Brahman.

Pai: O que não fariam os objectos dos sentidos a alguém na vida familiar, quando eles são capazes de submeter ao sofrimento mesmo aqueles que se tornaram ascetas e estão absorvidos em Nishta samadhi? Pode uma folha seca que caiu num rio turbulento manter-se imóvel num só lugar?

Jnaneswar: Os órgãos dos sentidos derrubarão alguém que não atingiu firme jnana, e lhe causarão dor, por muito tempo que ele possa permanecer introvertido. Como uma grande rocha que caiu num rio e ali permanece sem se mover, deve permanecer impassível, por mais numerosas que sejam as actividades dos sentidos que surjam, e qualquer que seja a dor insuportável que causem. É só alguém assim que pode experienciar a bem-aventurança de Brahman. A ignorância daquele que não está firmemente estabelecido em jnana nunca desaparecerá.

Pai: Por muito firme que alguém possa estar estabelecido em jnana, ele tem a certeza de ser engolido na escuridão de maya (ilusão mundana), a menos que esteja sempre absorto em meditação de Brahman, desistindo de toda a sociedade.

Jnaneswar: Só se existisse tal coisa como maya separada de Brahman, a pessoa teria que se livrar dela permanecendo sempre em Nishta. Como se dissesse "a minha sombra lutará comigo", você apontou para uma avidya inexistente e um ego e declarou que devemos estar sempre em Nishta. Assim como o único resultado de lutar com uma sombra irreal é a exaustão, você terá apenas problemas intermináveis se não ficar em mouna (silêncio), percebendo a irrealidade de maya, mas continuando a eliminar, dizendo: 'Isto não, isto não'.

Pai: Como é que se há-de alcançar sahaja jnana (conhecimento espontâneo) sem eliminar o irreal, tornando-se uni-direccionado em mente, e permanecendo uma mera sakshi (testemunha), indiferente a tudo o que ocorre?

Jnaneswar: Quanto mais eliminamos as coisas irreais como 'isto não, isto não', mais objectos dos sentidos vão continuar a aparecer, como formigas brancas aladas enxameando para fora de um formigueiro. Quanto mais tentamos tornar a mente uni-direccionada, mais a mente ficará perturbada como uma bola reprimida saltando. Quanto mais você permanecer como sakshi, mais se afirmará a ilusão de que "eu sou um corpo", etc., como a cauda encaracolada de um cão retoma a sua forma curva, por mais que tentemos mantê-la direita. Por isso, é a suprema felicidade de Brahman perceber, através de jnana (conhecimento) pela inquirição, que cada um de nós é o próprio Brahman, e que avidya, aliás o ego, e maya, aliás irrealidade, são inteiramente ilusórios como a aparência de prata na madrepérola.

Pai: É possível subjugar os objectos dos sentidos que causam dor, e tornarmo-nos um com o Ser abençoado que tudo permeia, não praticando qualquer outra sadhana (disciplina espiritual), mas simplesmente perceber, como resultado de jnana vichara que somos o próprio Brahman?

Jnaneswar: Se nem uma vaca viva pode matar um tigre, pode uma vaca morta fazê-lo? De forma semelhante, o que podem os objectos dos sentidos fazer ao Ser, que é eterno, livre de todos os defeitos, que se estende por toda a parte e é da natureza da felicidade? Como até mesmo uma vaca gorda terá medo de enfrentar um tigre, os objectos dos sentidos não se atreverão a vir diante de um jnani, que através de constante jnana atingiu a perfeição. Mas mesmo se o fizerem, eles serão extintos, como a vaca pelo tigre.

Pai: E se o jnani (aquele que conhece), ao misturar-se com os ajnanis (ignorantes), ficar enleado nos objectos dos sentidos, originando assim distúrbios da mente, e vier a ser completamente atingido pelo sofrimento, como uma mulher casta que se torna impura ao misturar-se com prostitutas?

Jnaneswar: A mulher casta inabalável vai manter a sua castidade apesar da companhia de qualquer quantidade de prostitutas. Aquela que é instável encontrará ocasião para errar, mesmo sem estar em má companhia. Da mesma forma, o jnani firme nunca perderá a sua perfeita realização embora rodeado de qualquer número de ajnanis (aqueles que erram). Aquele que é instável perderá o seu jnana, mesmo quando em solidão.

Pai: Como é que alguém se pode tornar um jnani sahaja (aquele que realizou o conhecimento espontâneamente), se estiver envolvido nos assuntos domésticos?
Jnaneswar: Embora o jnani (sábio) se misture com os ajnanis, e participe com eles em muitos assuntos, ele sempre continuará a experienciar a suprema bem-aventurança, assim como um brâmane que, embora desempenhando no palco o papel de um limpador, e comportando-se como tal, permanece sempre apenas um brâmane, sem se tornar um limpador.

Pai: Por muito firme que possa ser o jnana ou discernimento espiritual de um homem, a não ser que ele contemple, pelo menos durante algum tempo, todos os dias, que ele mesmo é Brahman, é muito difícil para ele tornar-se um jnani Brahma (sábio que realizou o Ser Absoluto).

Jnaneswar: É necessário que o Brâmane, que está fazendo o papel de limpador, pense frequentemente que é um brâmane? Será que ele se tornará um limpador se não pensar assim? São necessários os fios sagrados para distinguir aquele que o mundo inteiro sabe que é um brâmane? Após a aniquilação do ego, "eu", deve manter-se ainda o nó da consciência egóica e continuar a meditar "eu sou Brahman"? Como o brâmane conhecido pelo mundo é por todos adorado como um brâmane, mesmo quando não usa fios sagrados, aquele que renunciou às noções de "eu" e "meu" será sempre respeitado por todos e sempre desfrutará da felicidade suprema do Ser, mesmo que não pratique qualquer meditação.

Pai: Mesmo que alguém seja igual a Jagadish (O Todo Poderoso), se não praticar diariamente a meditação "Eu sou Brahman", tornar-se-à sem dúvida um ajnani. O sentido do ego, que o faz identificar-se com o corpo, etc., nunca desaparecerá.

Jnaneswar: Se alguém detém a luz em suas mãos e pede à escuridão para permanecer, ela permanecerá? Da mesma forma, se alguém, depois de vencer a ignorância de que é o corpo ou os seus órgãos internos, depois de ter atingido o conhecimento de que é o próprio Supremo, irá ajnana permanecer mesmo que lhe seja ordenado que permaneça? Se alguém tem o gato na mão e pede ao papagaio para falar, ele falará? Depois de perceber que eu, Iswara e o mundo, etc. são todos irreais, maya virá, mesmo que seja convidada? O eunuco vai ficar com vergonha de se declarar um homem diante de uma mulher que conhece a sua impotência. Da mesma forma, aquele que reconheceu sem sombra de dúvida, na presença do seu Guru, que somente Brahman é real, enquanto maya é irreal, que Brahman é transcendente a todos os pensamentos, enquanto maya consiste em desejos e aversões, e que ele é Brahman e Brahman é o seu Ser, onde está o desejo ou aversão, servidão ou liberdade, nascimento ou morte, país ou floresta, caridade, penitência, renúncia ou vida familiar? Poderá o poder de maya actuar contra aquele que está no mundo, ainda que só um pouco, como o olho de uma ovelha morta (que parece como se pudesse ver, mas não pode)? Poderá transformá-lo novamente em ajnana? Por favor considere profundamente. 

Então, Vithoba concordou em sair da floresta e voltar para casa.



ॐ
  

Ajnana: Erro, Ignorância
Avidya: Ignorância
Darshan: Benção conferida pela mera "visão" de um santo
Jnana: Conhecimento
Jnani: Sábio: conhecedor de Brahman
jnani sahaja: Sábio no estado natural de absorção no Eu superior, sem conceitos
Jnana-vichara: Investigação quanto ao conhecimento. 
                      Investigação do Eu-superior "Quem sou eu?"
Maya: Ilusão
Mouna: Silêncio
Nirvikalpa Samadhi: Estado avançado de meditação no qual não existe consciência
            do mundo
Nishta: Fé
Samadhi: Estado avançado de meditação; absorção no eu superior
Samsara: Servidão de vida, morte e renascimento
Sankalpas: Fantasias
Vichara: Inquirição




sábado, 5 de abril de 2014

O Ser e o Não-Ser: A Realidade e o Mundo


Existência ou Consciência é a Única Realidade


ॐ

Jóias de Bhagavan
       Seleccionadas por
       A. DEVARAJA MUDALIAR
Capítulo II        



EXISTÊNCIA OU CONSCIÊNCIA É A ÚNICA REALIDADE. Consciência mais vigília, chamamos de estado de 'vigília'. Consciência mais sono, chamamos de 'sono'. Consciência mais sonho, chamamos de 'sonho'. A consciência é a tela na qual todas as imagens vêm e vão. A tela é real, as imagens são meras sombras sobre ela.


      O Ser e as aparências nele, assim como a serpente na corda, pode ser bem ilustrado da seguinte forma: Há uma tela. Nessa tela aparece primeiro a figura de um rei. Ele está sentado num trono. Em seguida, diante dele, nessa mesma tela, começa um jogo com várias personalidades e objectos, e o rei na tela assiste ao jogo na mesma tela. Aquele que vê e o que é visto são meras sombras na tela que é a única realidade, o suporte de todas as imagens. Assim é também no mundo, aquele que vê e o que é visto, juntos, constituem a mente, e a mente é suportada pelo Ser ou tem como base o Ser.


      A escola ajata (não-criação) do advaita Vedanta diz: "Nada existe excepto a Realidade Única. Não há nascimento ou morte, nem projecção exterior [do mundo] ou elaboração interior [dele], nem sadhaka (aspirante), nem mumukshu (aquele que deseja ser libertado), nem mukta (aquele que é libertado), nem escravidão, nem libertação. A Unidade Única, apenas, existe sempre".


      Para aqueles que acham difícil de entender esta verdade e perguntam: "Como podemos ignorar este mundo sólido que vemos à nossa volta?", é apontada a experiência do sonho, e lhes é dito: "Tudo o que você vê depende daquele que vê. O que é visto não existe separado de quem vê". Isto é chamado de drishti-srishti vada, ou o argumento de que uma pessoa primeiro cria fora da sua mente e depois vê o que a sua própria mente criou. Para aqueles que ainda não podem apreender isto e até argumentam: "A experiência do sonho é muito curta, enquanto que o mundo existe sempre. A experiência do sonho limitou-se a mim, mas o mundo é sentido e visto não só por mim, mas por muitos, e não podemos chamar esse mundo de não-existente", é dirigido o argumento chamado Srishti-drishti vada, e lhes é dito: "Deus criou tal e tal coisa de tal e tal elemento, e em seguida outra coisa, e assim por diante". Só isso os vai satisfazer. As suas mentes não são de outra maneira satisfeitas, e perguntarão a si mesmos: "Como é possível que toda a geografia, todos os mapas, todas as ciências, as estrelas, os planetas e as leis que os regem ou com eles relacionadas, e todo o conhecimento, seja totalmente falso?". Perante isso é preferível dizer: "Sim. Deus criou tudo isso e assim você vê tudo isso". As diferentes respostas são adequadas à capacidade dos ouvintes.
O Absoluto só pode ser Um.


      Primeiro, há a luz branca, chamemos-lhe assim, do Ser, que transcende tanto a luz como a escuridão. Nela nenhum objecto pode ser visto. Não há aquele que vê nem o que é visto. Depois, há também a escuridão total (avidya) na qual não são vistos objectos. Mas a partir do Ser é emanada uma luz reflectida, a luz da mente pura (manas), e é esta luz que traz à existência todo o filme do mundo, que não é visto em luz total nem em total escuridão, mas apenas em luz suave ou reflectida.


      Do ponto de vista de Jnana (Conhecimento) ou da Realidade, o sofrimento observado no mundo é certamente um sonho, assim como é o mundo, do qual qualquer dor em particular, como a fome, é apenas uma parte infinitesimal. No sonho você mesmo também sente fome. Você vê outras pessoas sofrendo com forme. Você alimenta-se, e movido por compaixão alimenta os outros que você vê que estão com fome. Enquanto o sonho durou, todas essas dores eram tão reais quanto você agora acha que a dor no mundo seja. Foi só quando você acordou que descobriu que a dor no sonho era irreal. Você poder ter comido ao máximo e foi dormir. Entretanto você sonha que está a trabalhar duramente e por muito tempo sob um sol escaldante durante todo o dia, está cansado e faminto e quer comer muito. Então você acorda e percebe que o seu estômago está cheio e que não se mexeu para fora da sua cama. Mas isso não significa que, enquanto você está no sonho, você pode agir como se a dor que sente não fosse real. A fome no sonho tem que ser apaziguada pelo alimento no sonho. As pessoas que encontrou no sonho com tanta fome tiveram que receber comida durante esse sonho. Nunca se pode misturar os dois estados, o sonho e a vigília. Até chegar ao estado de jnana e, portanto, despertar de maya, é necessário fazer serviço social, aliviando o sofrimento sempre que você o vir. Mas mesmo assim, deve fazê-lo sem ahankara, i.e., sem o sentido de 'eu sou o fazedor', mas com o sentimento de 'eu sou instrumento do Senhor'. Da mesma forma não se deve ser pretensioso, pensando 'estou a ajudar um homem inferior a mim. Ele precisa de ajuda. Eu estou em posição de ajudar. Eu sou superior e ele inferior'. Você deve ajudar essa pessoa como um meio de adorar Deus nela. Todo esse serviço é para o Ser, para mais ninguém. Você não está a ajudar alguém, mas apenas a si mesmo.


      O livro Kaivalya Navaneeta colocou seis perguntas sobre maya, e às quais respondeu. Elas são instrutivas:

      1. O que é maya? Resposta: É anirvachaniya ou indescritível.
      2. Para quem surge? Resposta: Para a mente ou ego que sente que é uma entidade
          separada que pensa 'Eu faço isto' ou 'Isto é meu'.
      3. De onde vem e como se originou? Resposta: Ninguém pode dizer.
      4. Como surgiu? Resposta: Através de não-Vichara, devido a não inquirir "Quem sou eu?"
      5. Se ambos existem, o Ser e maya, isso não invalida a teoria do Advaita? Resposta:
          Não necessariamente, pois maya é dependente do Ser como a imagem é da tela.
          A imagem não é real no sentido de que a tela é real.
      6. Se o Ser e maya são um, não se poderia argumentar que o Ser é da mesma natureza de
          maya e que também é ilusório? Resposta: Não, o Ser pode ser capaz de produzir ilusão
          sem ser ilusório. Um mago pode criar para nosso entretenimento a ilusão de pessoas,
          animais e coisas, e nós vemos todos eles tão claramente como o podemos ver a ele,
          mas depois do seu desempenho só ele permanece e todas as visões que ele criou
          desaparecem. Ele não é uma parte da visão, mas sim sólido e real.


      Os livros usam a seguinte ilustração para ajudar a explicar a criação: O Ser é como a tela de uma pintura. Primeiro, é espalhada sobre ela uma pasta para tapar os pequenos orifícios da tela. Essa pasta pode ser comparada com o  Antaryamin (O Morador Interno) em toda a criação. Em seguida, o pintor traça um esboço na tela. Isso pode ser comparado com o sukshma sarira (corpo subtil) de todas as criaturas; por exemplo, a luz e o som (bindu e nada) a partir dos quais todas as coisas surgem. Dentro deste esboço, o artista pinta o seu quadro com as cores, etc., e isso pode ser comparado com as formas brutas que constituem o mundo.


      O Vedanta diz que o cosmos surge à vista simultaneamente com o vidente. Não existe criação por estágios ou etapas. É semelhante à criação em sonho onde o experienciador e os objectos da experiência vêm à existência ao mesmo tempo. Para aqueles que não se satisfazem com esta explicação, são oferecidas em livros as teorias da criação gradual.


      Não é de todo correcto dizer que os advaitins da escola Sankara negam a existência do mundo, ou que o chamam de irreal. Por outro lado, é mais real para eles do que para outros. O mundo deles existirá sempre, enquanto o mundo das outras escolas terá origem, crescimento e decadência, e como tal não pode ser real. Eles apenas dizem que o mundo como "mundo" não é real, mas que o mundo como Brahman é real. Tudo é Brahman, nada existe a não ser Brahman, e o mundo como Brahman é real.


      O Ser é a única Realidade que existe sempre, e é pela luz do Ser que todas as coisas são vistas. Nós esquecemos isso e concentramos-nos na aparência. A luz no salão está acesa tanto quando as pessoas estão presentes como quando estão ausentes, tanto quando as pessoas estão representando algo, como num teatro, como quando nada está a ser representado. É a luz que nos permite ver o salão, as pessoas e a actuação. Estamos tão absorvidos com os objectos ou aparências reveladas pela luz, que não prestamos atenção à luz. Nos estados de vigília ou de sonho, nos quais as coisas aparecem, e no estado de sono em que não vemos nada, há sempre a luz da Consciência ou Ser, como a lâmpada do salão que está sempre acesa. O que se deve fazer é concentrar-se naquele que vê e não no que é visto, não nos objectos, mas na Luz que os revela.


      As perguntas sobre a realidade do mundo, e sobre a existência de dor ou mal no mundo, irão todas cessar quando você inquirir "Quem sou eu?" e descobrir o vidente. Sem um vidente, o mundo e os alegados males do mundo não existem.


      O mundo é da forma das cinco categorias dos objectos sensíveis, e nada mais. Estes cinco tipos de objectos são detectados pelos cinco sentidos. Como todos são percebidos pela mente através destes cinco sentidos, o mundo não é nada mais do que a mente. Existe um mundo separado da mente?


      Embora o mundo e a consciência surjam e desapareçam juntos, o mundo brilha ou é percebido apenas através da consciência. Essa fonte da qual ambos surgem e desaparecem, e que ela própria nem aparece nem desaparece, é a perfeita Realidade.


      Se a mente, a fonte de todo o conhecimento e actividade desaparecer, a visão do mundo cessará. Assim como o conhecimento da corda real não desponta até que a noção imaginária da serpente desapareça, a visão (experiência) da Realidade não pode ser adquirida a menos que a visão sobreposta do universo seja abandonada.


      O que realmente existe é apenas o Ser. O mundo, jiva (o ser individual) e Iswara (Deus) são criações mentais, tal como o aparecimento da prata na madrepérola. Todos aparecem ao mesmo tempo e da mesma forma desaparecem. Apenas o Ser é o mundo, o ego e Iswara.


      Para o jnani, é irrelevante se o mundo aparece ou não. Se ele aparece ou não, a sua atenção está sempre no Ser. Veja a letras e o papel em que estão impressas. Você está completamente absorvido nas letras e não lhe sobra qualquer atenção para o papel. Mas o jnani pensa apenas no papel como o verdadeiro substracto, quer as letras apareçam ou não.


      Você faz todos os tipos de doces de diferentes ingredientes e com várias formas, e todos eles têm um sabor doce, porque todos contêm açúcar, e a doçura é a natureza do açúcar. Da mesma forma, todas as experiências e a ausência delas contêm a iluminação, que é a natureza do Ser. Sem o Ser, elas não podem ser experienciadas, assim como sem açúcar nem um dos bolos que fizer pode ter sabor doce.


      O Ser Imanente é chamado Iswara. Imanência só pode acontecer em maya. Ele (Iswara) é o Conhecimento do Ser, juntamente com maya. A partir do conceito subtil surge Hiranyagarbha. De Hiranyagarbha surge o grosseiro, concreto Virat (mundo, cosmos).
Chit-Atma é apenas puro Ser.


      Quanto à existência de dor no mundo, o sábio explica, a partir da sua experiência no mundo, que se uma pessoa se retira para dentro do Ser, há o fim de toda a dor. A dor é sentida enquanto o objecto for diferente de si mesmo. Mas quando o Ser é percebido como um todo indivisível, quem e o que há para sentir?


      A frase Upanishadica 'Eu sou Brahman' significa apenas que Brahman existe como 'Eu'.


ॐ


Tradução: Blog 'Texto Meditativo'